CANTO DO BACURI > Mari Satake: Escolha equivocada

Num dos portais, uma manchete chama minha atenção. Acho que é mais um daqueles equívocos visuais, volto a minha atenção e constato que não se tata de equívoco nenhum. Diz isso mesmo, “condomínio contrata serviço de retirada de morador de rua para prédio em SP”. Não resisto e vou além. Abro a notícia. Ela traz até foto com trecho do balanço do condomínio onde se destaca o nome de um indivíduo, serv retirada moradores de rua e valor pago. A notícia fala ainda que a Prefeitura de São Paulo diz que a contratação de tal serviço é irregular e encaminhou denúncia ao Ministério Pú ;blico. É de estarrecer! Imagine se a moda pega e outros condomínios comecem a querer fazer o mesmo.
Tristes tempos estes.
Desastre econômico. Desempregados desesperançados, jogados à rua. Pandemia em total descontrole. General que ocupava o cargo interinamente, depois de quase quatro meses, é nomeado Ministro da Saúde. Fogo pelas matas país afora. Crise no abastecimento de gêneros de primeira necessidade. Índice de violência lá nas alturas. Só para citar algumas das mazelas que nos aflige.
Entocada, pertencente ao grupo de risco, fico vendo a banda passar. Pelas telas. Pelas janelas. Bares e restaurantes cheios. Festas nas casas das vizinhanças. Praias lotadas. Como se ninguém se importasse com a própria vida, com a vida do próximo. Socorro. Eu também não aguento mais ficar entocada, mas resisto firme em meu posto de observação.
Lembrei-me do velho amigo. Fico imaginando como estará ele lá na grande cidade do agro negócio. Aquele mesmo amigo que um dia, há uns sete, oito anos atrás, se cansou da vida que levava em São Paulo e num rompante de desvario largou tudo para trás. De maneira meio atabalhoada num curto e rápido período de tempo, se desfez do imóvel onde morava, da sala onde trabalhava, juntou uns poucos pertences para carregar consigo e avisou aos mais chegados que iria embora. Era filho da roça, um dia voltaria para lá, costumava dizer. Saiu dizendo que precisava de um tempo para se reconectar consigo mesmo e se não fosse naquele momento, ficaria cada vez mais difícil.
O amigo foi literalmente viver na roça. Seu velho sonho era viver daquilo que a terra lhe desse. Dizia estar cansado de tanto pagar. Em São Paulo, naqueles últimos tempos, sua vida era trabalhar, pagar e empurrar contas não pagas para o mês seguinte. Cansou. Foi viver uma nova vida na roça, lá no quase sertão do norte mineiro.
Viveu? Por pouco tempo. Chegou lá, cheio de vontade e boas intenções. Mas a vida em meio às mudas, sol e seca, não foi nada fácil. Logo se deu conta. Não era ali que que iria se reconectar consigo mesmo. Voltar para São Paulo também não era a solução. Sem alardes, arrumou novamente suas coisas e partiu.
Voltou à cidade de seus anos de meninice. Aos poucos foi se integrando à vida na cidade. Cidade que muitas vezes, ele dizia já não reconhecer. Aos poucos voltou a trabalhar na sua profissão. Aos poucos, foi se reconectando consigo mesmo.
Aos poucos foi se revelando. Aos poucos também fomos nos distanciando. Faz dois anos que não nos falamos mais. Escolha equivocada do velho amigo.

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