CANTO DO BACURI > Mari Satake: Conserva de vegetais

São várias. Mas uma em especial, sempre evocava nela aquela doce saudade de um tempo em que a casa era cheia. A mãe sempre ativa cuidando o tempo todo em manter a família satisfeita com os pequenos gostos de cada membro.
O pai tinha os seus enjoamentos nos hábitos alimentares. Sorte a dele que a esposa era talentosa nas artes da cozinha e ele sempre dizia que aquela conserva em especial, mostrava o quanto ela era atenta. Apesar de não ter tido tempo de conhecer o sogro que gostava de se aventurar nas artes culinárias, ela foi capaz de se aproximar bastante no desenvolvimento daquela receita apenas ouvindo os relatos que o pai lhe fazia.
Ela era pequena ainda, não compreendia bem porque aquela conserva escura com vários vegetais cortados miúdos, milimetricamente proporcionais e crocantes ao serem mastigados, mexia tanto com as lembranças do pai. O fato é que ela também apreciava muito aquelas noites em que a mãe servia a conserva e o pai se punha a falar. Mais ainda, gostava era de observar os movimentos da mãe durante o período em que estava preparando a tal conserva. Era um longo processo, desde a compra dos vários vegetais, limpeza e corte e toda uma sequência de ações que duravam a semana toda. Via a dedicação total da mãe para que nada desse errado e o produto final fosse digno dos elogios do pai. Aquela era mais uma igua ria entr e tantas outras que a mãe fazia para a alegria da família.
Nascida em cidade de interior, ela também, um dia precisou fazer as malas e se mudar para viver na capital. A mudança era algo que ela sempre soube que um dia aconteceria. Filha mais nova da família, não teve muitas dificuldades para se adaptar à cidade. As irmãs mais velhas que já tinham vindo anos antes estavam sempre por perto, dispostas a orientá-la em suas dificuldades.
Comilona que sempre foi, tinha saudades das comidinhas da mãe e um dia, fuçando numa daquelas lojinhas de produtos japoneses, ela encontrou a tal conserva. Feliz pelo achado, comprou. Chegando em casa, improvisou um jantar à moda japonesa, e ansiosa pela chegada das irmãs, não via a hora de juntas apreciarem a esperada iguaria. Decepção total. A irmã do meio, realista que sempre foi, antes mesmo de começarem a comer alertou para não esperar grande coisa daquela conserva. Dito e feito. Ela não passou do primeiro bocado. As irmãs, idem. A irmã mais velha foi ainda um pouco mais condescendente, disse que guardaria num vidro e deixaria na geladeira para quem sabe, um dia, ela quisesse comer novamente. Fato que acabou não acontecendo.
Por um bom tempo, aquela conserva, só a da mãe.
Muitos anos mais tarde, a mãe, o pai, já nem viviam mais. Um dia ela se lembrou com saudades daquele gosto. Comprou todas as marcas que encontrou na loja. Jogou fora todas. Nenhuma delas a satisfazia, muito pelo contrário.
Das lembranças, ficou o nome da conserva e suas evocações pessoais.
Fukudinzuke.
Já longe das obrigações do mundo do trabalho formal, foi solicitada a sua ajuda no preparo da tal. E lá foi ela. Quem sabe, aí esteja a oportunidade de chegar perto daquele gosto da infância distante, pensou com os botões. Gostou da brincadeira. A brincadeira persistiu por algumas vezes mais.
Depois de prontos, são colocados à venda. Saem bem.
O gosto da infância?
Pensa com seus botões, um dia fará em sua casa, em escala reduzida, introduzindo tais e tais alterações. Daí quem sabe ela possa se aproximar daquele gosto de suas lembranças?

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