CANTO DO BACURI > Mari Satake: Até quando?

A amiga Celeste andava meio sumida. Dia desses liguei para saber como está. Atendeu-me com uma voz trancada, parecia que falava com muita dificuldade. É minha amiga parecia nada bem. Injuriada consigo mesma, disse que nada consegue fazer em sua casa.
Desde sempre suas gavetas e armários pedem pelas arrumações que ela sempre deixava para depois. Antigamente, eram as crianças que demandavam todo o seu tempo disponível. Depois que as crianças cresceram e já quase não paravam mais em casa, a desculpa era o excesso de trabalho. E assim os anos foram passando. As crianças saíram de casa, se casaram, tiveram seus filhos e Celeste continuou ainda por muito tempo empregada naquela mesma empresa onde começou a estagiar enquanto estudante. Deve ter ficado lá uns quarenta anos.
Uns dois, três anos atrás, um dia Celeste me convocou para um encontro. Aflita, anunciou que da próxima semana em diante não iria mais trabalhar. Fiquei um pouco assustada. Havíamos nos encontrado não tinha um mês ainda e pendurar as chuteiras, era algo que não parecia fazer parte de seus planos imediatos. Mas, melhor assim, falei. A partir da semana que vem teria todo o tempo do mundo para ela mesma. Angustiada, dizia que não saberia o que fazer. Disse que nunca em sua vida esteve mais de cinco dias em sua casa. Em toda a sua vida de empregada, não se lembrava de ter tirado os trinta dias de férias. Sempre dava um jeito de picotá-las. E quase sempre era assim, na noite do último dia de trabalho já embarcava para algum lugar, só voltando da viagem uns dois dias antes de voltar ao trabalho.
Depois que parou de trabalhar, Celeste se entupiu de atividades fora de casa. Todo dia da semana, tinha algum compromisso. De vez em quando, a gente se encontrava. É claro, sempre para ir ver algum filme. Celeste, desde sempre, foi assídua frequentadora das salas de São Paulo.
E foi justamente por me lembrar da relação de Celeste com o cinema que acabei ligando para ela naquele dia. Conversar com ela não foi fácil. Suas queixas eram muitas, as gavetas e armários esperando pela arrumação. Os inúmeros livros que foi acumulando para um dia ler, enfileirados nas prateleiras da estante da sala. Dizia que sabia das tantas coisas que poderia fazer, no entanto, não consegue ver sentido em nada disso. Reclamou das inúmeras coisas que acumulou e sabe que hoje não lhe tem mais utilidade alguma, mas não consegue se desfazer.
É dona Celeste, se cuide!
Reclamou até não poder mais. E talvez, para me tranquilizar, disse que apesar da sua imensa falta de graça, ela não seria capaz de por fim à própria vida.
É claro que não. Falta-lhe coragem. Pensei com meus botões.
Mas, por fim, cansada de suas próprias reclamações e de seus gozos, Celeste passou a falar das mazelas que nos aflige a todos. Diz que tudo bem, ela, eu, as pessoas de nosso convívio, podemos nos confinar em nossas casas. Mas e os tantos milhões de desassistidos de nosso país? E mesmo nós até quando conseguiremos nos manter em casa? Até quando este insano que nos afronta a cada dia, continuará solto?
Aleluia! A velha Celeste ressuscitou. Felizmente.
Fique em casa.

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