CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: Ah, as amigas!

Malu é uma daquelas amigas antigas. Mineira arretada, dona de mãos habilidosíssimas. Para a cozinha e para o barro. Na cozinha, faz pequenos milagres com o que encontra na geladeira. A comida dela tem o dom do encantamento. Todas as vezes que almoçava em sua casa acabava me lembrando dos bons momentos vividos na cozinha da minha mãe. Embora tudo seja muito diferente nas duas cozinhas, tipo de cardápio, ingredientes, maneiras de cortar e cozinhar, há algo em comum que me remete a um estado de completude que nem sei como explicar.
Outra habilidade de Malu é com o barro. Aqui em São Paulo, falamos argila. Malu gosta de falar barro. Faz peças belíssimas. Pequenas esculturas de figuras humanas. Diz que sua fonte de inspiração são pessoas que conheceu em sua infância ou algumas outras que de alguma forma a impressionaram. Na casa de Malu me sentia dentro de uma galeria de arte. Peças que ela produziu durante um período de tempo, enquanto ainda trabalhava na empresa. Fazia suas peças de noite e nos finais de semana.
Faz um bom tempo não nos encontramos. Em fevereiro deste ano foi passar uma temporada no norte de Minas onde tem alguns irmãos e irmãs. Sua intenção era, como sempre, ficar uns três meses e voltar. Veio a pandemia e com isso acabou ficando por lá. Malu há um bom tempo andava procurando um lugar tranquilo para viver, parece que encontrou. Comprou um terreno e quer construir uma casa para lá viver. Tão longe daqui!
Celeste é outra das velhas amigas da mesma época. Também ela é de Minas. Celeste sempre buscou pela comunhão entre as pessoas. Um tempo atrás, logo depois que se aposentou de vez, quando já deixou de ir ao trabalho, Celeste lançou uma ideia no ar entre as amigas. Acha um desperdício as pessoas morarem sozinhas num apartamento onde caberiam mais pessoas. Além de lhe parecer muito solitário isso, também achava muito dispendioso. Lançou a ideia no ar. No seu projeto, reuniria umas quatro amigas, alugaria uma ampla casa com quartos individuais e como a maioria das amigas, assim como ela, não era muito chegada nas “coisas” da casa, contratariam uma boa prestadora de serviços domésticos gerais. Inicialmente, falou individualmente com as amigas. Pelo visto, não fui a única a não aderir a ideia. Logo em seguida, veio aquele período em que precisei ficar reclusa por conta de um tratamento médico e acabamos não mais falando sobre o assunto. E ultimamente, com a pandemia, nos falamos apenas pelo celular ou às vezes, apenas as trocas de mensagens pelo zap. Celeste era umas das amigas prediletas para as sessões de cinema. Apesar de não gostar de ver filmes na televisão, no notebook, no tablet ou celular, tão já, ela diz que não voltará às salas de projeção. Oro aos céus para que a mantenham firme nesta decisão. Cinema só depois da vacina. E olha lá!
Eliza diz que anda cheia de tudo, não quer saber de nada das notícias. Cuida apenas de si e de seu trabalho.
Margot está decidida. Assim que se aposentar, vai embora do país. E se, antes disso, ganhar na loteria, larga tudo e vai embora no dia seguinte.
Eu, com os meus botões me pergunto, vale a pena continuar a viver nesta não vida, de clausura entre as paredes de um apartamento?
Ah, as amigas. Que falta elas fazem.

Comentários
Loading...