CANTO DO BACURI > Mari Satake: Agosto da quarentena

Sol morninho entrando pela janela escancarada. Ar gelado. Lá fora, nenhuma alma viva. Todos recolhidos.
Ela olha as notícias. As mesmas de sempre. Mortes. Mortes. Quase cem mil mortos. Muitos novos mils casos da doença confirmados a cada dia. A morte do outro se tornando cada vez mais banal. Comércio e serviços tentando retomar suas atividades. Pessoas indiferentes a pandemia se aglomerando nos bares e restaurantes. Muitas delas, na reportagem mostrada na televisão, mostram o rosto, nome e profissão, indiferentes à realidade que as cerca. Talvez, se acreditem blindados, inatingíveis. Reconhece um dos rostos. Típica representante da classe média paulistana, pessoa que sempre teve acesso a boas informações, bem articulada no que diz respeito à sua profissão e no entanto, está ali em meio à algazarra, escancarando seus dentes e risos. Ao ver aquela cena, fica indignada, sente pena dos que, porventura, se fiaram em suas palavras em outros momentos. Tenta mudar a direção de seus pensamentos. Não julgar é o preceito. Muda de canal.
Vai atrás de notícias confiáveis. Ultimamente, só nas Pós Tvs. Num dos canais, um velho jornalista, nome conhecido na mídia impressa dos velhos tempos. Gosta de ouvi-lo em seu giro pelas notícias. Uma nova maneira de fazer jornalismo. São vários os convidados do jornalista, os protagonistas das notícias. É claro, cada um falando de sua casa. Muitos destes protagonistas são jovens, oriundos das camadas menos favorecidas da população. Ela os ouve com admiração. Aproveitaram a oportunidade dos anos Lula e Dilma. Foram à universidade. Lá se graduaram, fizeram mestrado e doutorado, talvez até um pós doutorado. O bonito de ver é que estes jovens permaneceram em seus meios de origem e com os seus permanecem na luta em busca de melhores condições de vida para todos. Emocionada com a fala de uma daquelas jovens mulheres, ela sente uma ponta de esperança. Mudanças boas estão acontecendo. Apesar de todas as dores que somos todos obrigados a ver e ultrapassar, boas novas estão surgindo pelos vários cantos do país.
Ela volta à realidade de seu cotidiano. Também de suas proximidades chegam as notícias tristes. Vidas que partem em silêncio, sem despedidas quase.
A professora querida dos tempos de sua meninice. Sempre muito ativa e atenta aos movimentos de seus alunos, nada escapava aos olhos da professora. Mesmo terminado o período letivo com a professora, seus alunos nunca a esqueciam. Nos anos seguintes, sempre davam um jeito de correr à sala da professora apenas para dizer bom dia ou boa tarde. Se algo estivesse atormentando a cabecinha de uma de suas crianças, ela logo percebia e com seu jeito especial tratava de trazer tudo à tona e assim, juntos procuravam desfazer ou afrouxar os nozinhos que atormentavam, como ela gostava de dizer. Os anos passavam, os alunos iam cumprindo suas etapas, mudando de escola, mas a professora estava sempre pronta para receber seus ex-alunos. A professora acompanhou a vida de muitos deles por muito tempo.
Ela, mesmo depois de adulta, há muitos anos morando em outra cidade, ao retornar à cidade de sua infância, sempre fazia questão de visitar a professora. Assim como ela, tantos outros faziam o mesmo. E a professora, ao vê-los fazia uma festa de dar gosto de ver. Passavam horas conversando, contando histórias, trocando ideias e sempre dando muitas risadas. Agora não mais. A professora se foi.
Não se vá você também. Fique em casa!

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