CANTO DO BACURI > Mari Satake: Agosto da quarentena, ainda

Cinco meses. Exatamente. No final de semana de 14 e 15 de março ainda dei uma saidinha de São Paulo. Era necessário. Estava programado.
Naquele final de semana enquanto andava pela praia, olhava à minha volta e pensava que tudo bem. Faríamos de conta que seria um fechamento para balanço de nossas vidas e, na pior das hipóteses, em noventa dias, retomaríamos nossas vidas e com os ajustes necessários aqui e ali, tudo voltaria ao normal.
Na semana que se seguiu, foi uma grande correria para ajustar de forma adequada os dias que se seguiriam. No início, até achei bom. Teria muitas horas dentro de casa e poderia ler os livros que estavam à espera, me exercitaria bastante com os pincéis, retomaria os trabalhos de tricô que larguei pela metade nos invernos anteriores, voltaria a bordar aqueles tecidos. E assim, na maior boa vontade, aderi ao chamado de isolamento social. Eu e todos nós que temos condições para assim proceder.
Hoje, não é preciso mencionar o stress que tem sido suportar estes dias de isolamento social por aqui. Quem vai nos ressarcir dos enormes prejuízos causados à nossa saúde psíquica? E como isso se dará?
Se por um lado, nestes tempos de pandemia, nos submetemos ao isolamento social pensando em preservar ao máximo as nossas vidas e a de nossos próximos, por outro, esta mesma condição de isolamento acaba nos afetando, afinal somos seres sociais. Sem as trocas com o outro, tudo se torna limitado e acaba nos afetando psiquicamente. Hoje temos os recursos tecnológicos à nossa disposição, podemos matar a saudade de nossos amigos e familiares com a ajuda dos dispositivos que temos à mão, mas é apenas um paliativo às nossas reais necessidades.
Para piorar a situação, vivemos um total estado de abandono de diretrizes. Como foi dito naquela fatídica reunião, agora que estão todos recolhidos e aparentemente inertes, a boiada anda solta. As atrocidades se somam a cada dia. De forma vergonhosa. E para arrematar, a cada dia, mil novas mortes e sem a menor perspectiva de quando é que vamos sair desta situação.
Ao ver os noticiários que a televisão mostra sobre o dia a dia das cidades grandes, a sensação que dá, é que parte da população não se preocupa minimamente com a pandemia e nem com as mortes que atingem as mais de cem mil famílias atingidas no país. Em bandos reúnem-se nas mesas dos bares e restaurantes como a festejar por algo. Do lado de fora dos recintos, grandes aglomerações. Homens e mulheres mascarados ou não, parados, em pé. Talvez à espera de um sinal para entrar no salão dos festejos.
Estarão todos tão afetados que para eles nada mais importa? Nem a morte das muitas dezenas de milhares e nem mesmo a dele e de seu familiar próximo que pode ser amanhã ou depois? Ou talvez, em sua infantil cegueira, se acreditem imunes e livres para continuarem em suas jornadas insanas.
Triste. Muito triste o quadro.
Quanto a nós que podemos continuar em nossas casas, e ainda conservamos nossos parafusos em ordem, apesar de todas as dificuldades e saudades, fiquemos em casa. Façamos o melhor de nossos dias.
Fique em casa.

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