CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Uma estranha sensação

Enveredar por um mundo diferente sempre causa uma grande impressão. É o que acontece ao ler Orphan Pamuk, aquele autor turco, ganhador do Nobel de Literatura de 2006. Muitos destes autores premiados, alguns ilustres desconhecidos, depois do reconhecimento, fica-nos a pergunta: quem é ele? O que publicou para merecer este prêmio? Quando se trata de alguém de um país como a Turquia, a vontade de conhecer ficar maior. Deste autor tive a oportunidade de ler primeiro Istambul, de 2003, depois, Meu nome é Vermelho, de 1998. Agora chegou este, Uma estranha sensação, de 2014, todos pela Companhia das Letras.
A primeira impressão quando se lê Pamuk é o estilo próprio de construir a sua narrativa. Os personagens falam por si, expressam opiniões e confessam os seus dilemas. O penúltimo de seus livros foi Uma estranha sensação, cujo título nos causa uma divagação poética. Autor que vive nos Estados Unidos, lecionando na Universidade Columbia, escreve em turco, cuja tradução em português é feita de segunda mão, das traduções em inglês e espanhol. Não teria no Brasil alguém habilitado conhecedor da língua turca? Este é um problema nosso. O mesmo acontecia em outras épocas com a literatura russa e a literatura japonesa.
Em Uma estranha sensação, o autor conta um pouco a história de Istambul através do protagonista, Mevlut, que nascido em 1957 troca a vida pobre e pacata do interior pela agitação da capital. Istambul é uma cidade que foi morada de civilizações antigas, como o Império Bizantino, depois o Império Otomano, para finalmente ingressar no estado moderno de uma República. Neste romance, Pamuk apenas trata dos tempos que a Turquia vive uma contradição interna: seria Oriental, seria Ocidental. O passado remete a um tempo parado do Oriente, enquanto Ocidente, não muito claro, quer copiar os modelos de um estado laico e dirigentes escolhidos em pleito popular. Desde que a Turquia se tornou moderno, com a inauguração da República, com o presidente Kemal Taturk, com o seu falecimento, o que se viu foram golpes militares seguidos em todo o fim do século XX.
Sem se ater a estes acontecimentos, o que deseja Mevlut, o personagem principal do romance, é trabalhar sem se envolver diretamente com os acontecimentos. Ele próprio não sabe o que é bom para a Turquia. Sua atividade, como também teria desenvolvido o seu pai, era trabalhar como vendedor autônomo de boza. Seria a boza uma bebida com grau baixo de álcool, recheado com grão de bico torrado, açúcar e canela. Num país muçulmano, a bebida com álcool não seria considerada aceitável. Mas boza tem álcool? Desta forma, se vendia boza pelas ruas, posta em garrafões e levados numa travessa carregada nos ombros. Para melhor distribuir o peso, em cada lado da travessa um cesto com os garrafões dentro.
Apesar de toda transformação de Istambul, com a construção de prédios, colocando abaixo as antigas moradas da periferia, a expulsão dos armênios, judeus e gregos, principalmente, algumas mudanças não ocorrem devido a um enraizamento cultural próprio da maneira de ser daquele povo. É o caso das relações sociais. O casamento é realizado em forma de apresentação e pagamento de um dote pela família do noivo. Quando isso não é possível, o interessado rapta a noiva; caso esta for menor, poderá responder processos jurídicos e pagamento de multas. Nesse caso, não se trata do direito civil, como existe no Ocidente, pelo contrário, o que prevalece é um direito corânico, confundindo a religião com as normas jurídicas laicas. O próprio Mevlut casa-se com Rayha após fugir com ela. Costume naquela país era o casamento entre os primos de primeiro e segundo grau.
O estilo de Orhan Pamuk, às vezes parece duro, obedecendo a normas culturais existentes. O campo da subjetividade fica oculto enquanto a objetividade do mundo fica em evidência. Talvez este seja um recurso literário. Aquilo que não se fala igualmente está presente. Mas em sua contradição, valores como honra, vingança, mágoa, ressentimento estão à flor da pele. Claro, é uma outra cultura. A própria Turquia vive este dilema. Um país muçulmano que não tem uma raiz no semitismo árabe, mas se coloca ao lado destes, entretanto se alia com os Estados Unidos e Israel.
O próprio Pamuk é o filho desta contradição. Tornou-se persona não grata na Turquia por questionar a responsabilidade de seu país no genocídio dos armênios durante a Primeira Guerra Mundial. Os armênios acusam os turcos de terem dizimado milhões de civis. Toda a comunidade europeia, e outros países reconhecem este fato histórico, o que não aconteceu com os Estados Unidos. Trata-se de um fato do passado, mas que deixou feridas enormes que custam a sarar. Este talvez seja o esforço de Pamuk, um turco, que deseja libertar o seu povo de um erro que pode dirimir sofrimentos e mostrar a verdade histórica.
Uma literatura influente e reveladora nasce da contradição, em países que vivem os seus dilemas, de um passado mal resolvido, de um presente que se torna instável, do antigo e do moderno, do laico e do religioso como a Turquia. Existe uma ponte que separa Istambul, de um lado a Europa, de outro a Ásia. Saiu da monarquia dos sultões para a república, que por sua vez criou grupos políticos distintos: os conservadores, os socialistas, para viver na atualidade um retorno aos ditames da cultura milenarista do islão.

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