CANTO DO BACURI > Francisco Handa: “A Humilhação” segundo Philip Roth

A Humilhação, Companhia das Letras, 2010

Uma boa literatura é capaz de revelar o que se esconde por trás de uma névoa cultural, que se oculta e se revela, num mundo decadente em que a felicidade não passa de um engodo numa sociedade organizada para o sucesso. Em “A Humilhação”, Philip Roth cria uma narrativa em que o final pode ser diferente. De certa forma, este autor é polêmico e provocador em relação à cultura em que vive. Seus heróis, são anti-heróis americanos fora do comum, marginais, outsiders, não necessariamente mendigos. São qualquer um, que estão longe de realizar o sonho americano. Trata-se da classe média.
O protagonista deste romance é Simon Axler, com 65 anos de idade, ator de teatro. Naquele ”O teatro de Sabbah”, também o protagonista é um ator. Parece que os atores têm muito a nos dizer. O grande teatro realiza-se fora da representação do palco. No palco desempenham papeis consagrados como a de Macbeth, aquele que faz referência Simon Axler. De repente, o ator não consegue mais decorar o texto, sente-se impotente, começa a perder confiança na própria profissão. Há atores que ficam melhores depois de velhos, pois têm a experiência do palco. Não é o que acontece com o nosso protagonista.
É quanto passa a frequentar as sessões de psicanálise. A psicanálise parece servir para alguma coisa. O paciente pode falar a respeito de seus problemas, assim vai escavando memórias perdidas, velhos traumas de infância, a violência reprimida, a relação com os adultos e assim por diante. A psicanálise foi criada pelo judeu austríaco Sigmund Freud, a mesma origem étnica do autor Roth, numa vertente americana. Em algumas sociedades a psicanálise pode ter a sua eficiência, nem tanto de cura, mas de revelação.
O que nos revela Philip Roth é o outro lado da cultura americana. Este autor explora com determinação a sexualidade dos atores deste romance, também naquele outro citado, como em por à mostra a nossa natureza reprimida. Nada muito de erótico. Mas existe algo de perverso nas atividades sexuais, como uma frustração em realizar os nossos desejos – não sexuais – na sociedade. Simon Axler está em crise. Possivelmente, ele tenha tido sucesso como ator, sem ter-se tornado rico. Tornar-se rico é uma vontade de todos que vivem num país capitalista e os Estados Unidos são fogem à regra. Claro, o país mais rico do mundo, os Estados Unidos devem ter condições de tornarem os seus cidadãos igualmente ricos? Mas existe, neste caso, a contradição.
Por outro lado, segue-se à esta condição de final de carreira, tal qual Simon considera, um outro fator: a velhice. Tem 65 anos. Não seria isso motivo para a desistência da vida. A aposentadoria poderia começar justamente aos 65 anos, como no Brasil, para homens, em caso de aposentadoria por idade. Como qualquer outro, casou-se e separou, casou-se de novo, e novamente ainda, sem se estabelecer em nenhum casamento. Por fim, conhece uma jovem, Peggen, muito mais nova do que ele. É uma tentativa. Existe o medo de não dar certo. A cada tentativa de se relacionar com alguém, sempre a crença é de que desta vez dai dar certo. Evitar esta situação poderia parecer medo, um desprezo pela experiência.
Mas existe uma questão: os erros poderiam ocorrer novamente. Nem mesmo a velhice e somados com a experiência são capazes de mudanças. Este é o drama da vida americana. Naquela sociedade liberal, em que é possível relacionamentos diversos em número e gênero, é capaz de garantir essa realização? Possivelmente, a realização nunca deva acontecer. Seria, então, a realização de uma ideologia capaz de criar situações ideais somente? O romance se torna um gênero de sucesso devido as falhas do capitalismo e por isso se torna um grande fator de criação e arte. Devido esta impossibilidade de se satisfazer, o romance acontece no campo da literatura. Nesse sentido, Philip Roth é genial.
Evidentemente, há um momento que as coisas acontecem de modo favorável, como tivéssemos controle sobre a nossa vida como na dos outros. Os castelos de areia são construídos, ainda que saibamos que um dia virá uma onda e colocar tudo abaixo. A literatura de Philip Roth explora justamente o desmoronamento destes castelos.
A vida passou para Axler, conheceu sucesso como ator, leu todos os autores e representou os mais complexos personagens. A tragédia das peças de Shakespeare acontece no palco, mas igualmente na vida comum. Isso deixa claro Axler. É o que nos ensina Tchekov, em” A Gaivota”, quando o herói acaba se matando. A morte pode ser vista como uma libertação de uma vida sem sentido.
Nem mesmo a riqueza das posses materiais, de uma cultura de consumo, viagens e compra é capaz de preencher o vazio da alma, que necessita de coisas simples. Há falta de afeto e confiança entre as pessoas iguais, cuja frustração poderá gerar violências. Aceitar o mundo desta maneira, parece um grande desafio. Alguns promovem mudanças no sistema de produção, e assim diminuir as tensões internas do sujeito. Outros parecem cínicos em manter o sistema que se sustenta ao gerar a incerteza e a frustração. Outros ainda na vertente de Nietzsche, aconselha a enfrentar o mundo de embate como fator histórico. Queira ou não, o mundo em que vivemos é o único que temos, com todas as suas incongruências. O final pode ser nada bom, ironiza Roth. Ou podemos dizer: as coisas são assim mesmo!

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