CANTO DO BACURI: Entre a loucura e a sanidade

A pergunta que me tira as noites de sono é a seguinte: que tipo de livro escolhemos em determinados momentos de nossa vida? É uma questão importante. Acho que alguns títulos nos chegam às mãos no momento exato para responder a dúvidas. Outrora tinha lido “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, depois me chegou “O Alienista”, de Machado de Assis. Numa feira de livro, deparei-me certa vez com “Enfermaria nº 6”, de Anton Tchekhov. Sabia do que se tratava, pois tinha lido um comentário a respeito. Na ocasião, ficou somente a esperança de que leria algum dia. Isso aconteceu nestes dias de outono sombrio, de isolamento social.
Mas o que estes têm em comum? O assunto principal é a doença e o seu contágio por quem encontra-se próximo. A situação se repete em todos eles. Alguém, como é o caso de Hans Castorp, de “A Montanha Mágica”, que vai a um sanatório nas montanhas da suíça visitar o seu primo tuberculoso Joachim Ziemssen. Nesta visita, ele próprio acaba se internando. Por algum motivo, também acabou se tornando um desses infectados. O caso de Machado de Assis, em “O Alienista”, o próprio médico Simão Bacamarte que trabalha como psiquiatra num sanatório que, detentor de teorias duvidosas, impõe sansões aos habitantes de uma cidade ao internar alguns por comportamentos fora do comum. No final, numa espécie de sátira, ele próprio conclui que, era ele justamente o enfermo.
Se Machado de Assis publicou esta novela em 1882, a de Anton Tchekhov é de 1892. Este período do final do século XIX é quando a medicina em franca expansão colocava dúvidas acerca das teorias diversas em relação à loucura e sanidade. É a época de Sigmund Freud e outros como ele que tentavam desvendar os mistérios da alma, a que denominava de psiquê. Também autores russos como Dostoievsky, Tolstoi e, incluo, Tchekhov exploravam temas controversos a respeito do comportamento humano no seu aspecto mais subterrâneo. Certa vez perguntei a um médico de origem russa, a quem me submeto todos os anos para uma avaliação de minhas condições físicas e outras, se poderia dar início à leitura de Dostoievsky. Ele me disse: esta literatura russa é para poucos, somente para os preparados”. Isso quer dizer, importava a forma de lê-la. Seria como uma literatura distanciada ou a que nos tocasse diretamente.
De fato, ler “Enfermaria nº 6” aconteceu justamente agora. Nem sabia que tinha o livro, sendo esta parte de uma coletânea, com tradução de Maria Jacintha e Boris Schnaidermann, de 1982, publicação da Editora Abril, São Paulo. Os próprios questionamentos de Tchekhov como médico e contista marcam profundamente os protagonistas desta obra. O seu estilo é de profundo realismo, sem muitos enfeites ou elaborações metafísicas. Ele é direto. Assim deveria agir um médico, cuja clareza é uma exigência da profissão. Entretanto, a objetividade que defende no campo da fisiologia, ainda que tente, a subjetividade russa é um fator de criatividade deste autor.
O personagem principal de “Enfermaria nº 6” é o médico Andrei Iefimitch, que depois de formado e rico em ideias boas, se dirige a um hospital no interior da Rússia no tempo dos czares. Trata-se de um mundo atrasado, formando em grande parte por camponeses, conhecidos por mujique. São simples, supersticiosos e indolentes. Naquele hospital existe a Enfermaria nº 6, em que se encontram cinco internados, dos quais um é de condição nobre, os outros pequenos burgueses. É com o nobre que Iefimtch vai adentrar no mundo da insanidade e sanidade. Nesse caso, seria justamente o outro, Ivan Dmitrich Gromov, o paciente que deveria ser cuidado. Pessoa de boa educação, Gromov poderia ser considerado alguém normal, se não se encontrasse internado. Mas Gromov tem mania de perseguição, por isso quando chega a noite inquieta-se, anda de um lado para outro de maneira desordenada. Antes teria trabalhado como oficial de justiça e amanuense (copista). Longe dos familiares, foi isolado e mandado para aquele hospital. Os hospitais eram considerados lugar de isolamento social, em que os enfermos, principalmente os de doenças contagiosas e também os doentes do espírito eram colocados. Era um processo de higienização, para que o resto da população não se contaminasse. Como que os enfermos fossem indesejados, assim afastados para o bem da maioria.
Num certo momento, em diálogos constantes, que Iefimtch estabelece com Gromov, cada vez mais entusiasmado com a postura deste, acaba reconhecendo que o seu idealismo não se coaduna com a realidade. Gromov tinha muito a falar. Cabia a Iefimtch apenas ouvir e avaliar o próprio entusiasmo. Havia nele mais ideias do que propriamente experiência com o mundo. Nisso, Gromov tinha o suficiente. Disse ele “eu amo a vida, amo-a apaixonadamente! Tenho mania de perseguição, um medo contínuo e torturante, mas há momentos em que a sede de viver se apossa de mim, e então tenho medo de perder o juízo”.
Enquanto Iefimtch mantinha a postura de médico, os outros enfermos, tudo acontecia conforme as regras. Mas havia algo de errado. Afinal negavam a vida e continuavam repetindo gestos e atitudes como sempre fizeram, de acordo com as normas estabelecidas no mundo. Para Gromov, eram os que estavam fora do hospital os enfermos, submetendo os outros a uma situação de exclusão. Quando Iefmitch contrai dívidas devido uma viagem, ele próprio fica a mercê da sociedade que pertence. Um ser à margem neste momento, portanto deve ficar isolado. Torna-se mais um ocupante da Enfermaria nº 6.
O grau de sanidade e loucura é separado por uma linha muito tênue, principalmente nos dias atuais em que a incerteza ou determinadas “certezas” geram um mundo de ponta cabeça. É quando alguns acólitos não se cansam a dizer a qualquer afirmação “amem”. Apenas se submetem… Como Gromov provavelmente não faria isso, para o bem social, fica internado.

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