CANTO DO BACURI: Em busca de Sacalina

Quando olhei para a prateleira da Livraria Martins Fontes, entre os títulos estava “A ilha de Sacalina”, de Anton Tchékhov, da Todavia, um tanto grosso, 460 páginas. Tinha ouvido falar de Sacalina, que ficava na região norte de Hokkaido, em território russo. Se Hokkaido apresenta baixa temperatura, o que pode haver num lugar mais a norte, na altura do Alasca, do mar Okhotsk? Seria o fim do mundo ou, pelo contrário, o início do mundo?
Sempre me interessei por regiões fora do comum, algo como o Deserto de Gobi, na Ásia Central, Patagônia, na América do Sul, bem como a Amazônia. Visitei a Amazônia, tema de meu trabalho de pesquisa acadêmica. Também tive a oportunidade de conhecer a Patagônia. Mas uma parte de uma geografia específica sempre me atraiu: Hokkaido. Tenho algumas ligações com Hokkaido, por ser a terra natal de meu pai. Também tenho um mestre de budismo que vive em Kushiro, bem na parte oriental da ilha. Quando estive no Japão em 2018 tinha planos de ir a Hokkaido, o que acabou não acontecendo. Ansiava visitar a prisão de Abashiri, cenas de filmes e romances.
Sacalina fica ao norte de tudo isso, uma ilha comprida e estreita, que vem sendo pleiteada pelo Japão após ter perdido em 1945 a Guerra do Pacífico. Para ser mais objetivo, desde o fim da Guerra Russo-Japonesa, de 1904 a 1905, com a vitória do Japão, a parte sul de Sacalina foi anexado ao Japão como compensação. Tratava-se de Sacalina do Sul, que os japoneses chamavam de Karafuto. Entretanto, a ilha de Sacalina tem uma história mais antiga, como fosse uma terra sem dono, portanto isento de uma ocupação por parte dos interessados. Possivelmente os primeiros a chegarem seriam os japoneses em 1679, em pleno período Edo, quando fundou-se o povoado de Ôtomari. Seria para eles uma continuação de Hokkaido, que na época chamavam de Kita-Ezo.
A partir do Tratado de Shimoda, de 1855, tanto russos como os japoneses concordaram em compartilhar da presença de seus habitantes, sem a necessidade de fronteiras delimitadoras. O que nos revela Tchékhov em “A ilha de Sacalina”, escrito em 1891, é um relato de viagem numa narrativa densa e literária a respeito da geografia humana e física da região. Por se tratar de um recorte inóspito, com muito frio e nativos de etnias várias os russos que para lá se dirigem são os aventureiros e outros, estes na condição de forçados. Os russos instalaram prisões de segurança para os criminosos, ladrões e párias. Mas existem ricos empresários que investem na região, na exploração das minas de carvão. Para tanto, a cidade principal citada por Tchékhov é Aleksandrovski, em Sacalina do Norte, nas costas do Mar do Japão. Mas é pelo interior que se dirige o nosso narrador.
Conhecido por escrever contos, Tchékhov resolve viajar e se dirige justamente para Sacalina e recebe a incumbência de realizar um relatório sobre a ilha. Este tipo de literatura, podemos chamar de viagens, foi bastante comum em outras épocas, inclusive no Brasil temos Euclides da Cunha escrevendo sobre o interior do país em “Os Sertões”, descrevendo a geografia e o homem. Culmina em relatar sobre a Guerra de Canudos no interior da Bahia. Podemos ler estas obras como criação literária e igualmente como documentação. De qualquer forma, tanto no caso de Cunha como de Tchékhov prefiro a vertente literatura. E nesta literatura de Tchékhov ele tem a capacidade de criar cenas, imagens e linguagem a respeito do que vê, sente e avalia.
Na época, Sacalina se parece como um lugar em que os prisioneiros são levados, os de pior espécie, condenados a viver para sempre no local. Não existe mais possibilidade de retorno. Ao mesmo tempo que os indesejados são levados para a ilha, existe um plano do governo do tzar em ocupá-la, pois outras nações tem igual interesse: Japão e China. Sem contar com as riquezas naturais como a extração de carvão. É justamente nas minas de carvão que são levados os prisioneiros, parte deles, contratados por uma empresa de mineração. Sendo a ociosidade algo constante entre a população, entregues na bebida e jogos, trabalhar duro seria uma forma de espantar a melancolia. Assim descreve Tchekhov.
Vários tipos de prisioneiros habitam Sacalina, entre eles os têm que viver com correntes amarrados nos braços e presos em carrinhos. A condição é desumana. Por outro lado, prisioneiros que possuem fortunas, devido a riqueza de seus familiares, contratam outros para o seu trabalho. Trata-se de uma anormalidade, mas vistos com olhos de cumplicidade. A distribuição de suborno entre os guardas é constante. Na mesma ilha estão os homens livres, que também trabalham nas minas. Conforme Tchékhov, em condições piores do que os forçados. Estes devem arcar com as próprias despesas. Os prisioneiros alimentam-se a custas do governo, o que não acontece com o homem livre.
Vez por outra, Tchékhov fala a respeito dos guiliaques, que se trata dos nativos da ilha. Existiriam habitantes há muito tempo instalados na ilha, como os nivkhs, orokis e ainus. Estes ainus ainda vivem em Hokkaido, prestes a desaparecer como etnia. Nativos como estes que viviam no Japão antigo, com a ocupação da ilha pelo povo que vivia a se tornar no japonês, fez com que estes habitantes refugiassem mais a norte, em direção a Hokkaido e Sacalina. Para quem se interessar a visitar Iujno-Sakhalinsk, a capital de Sacalina, antiga Toyohara (capital de Karafuto), existe um voo a partir de Vladivostok, a principal cidade no extremo ocidental da Rússia.

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