CANTO DO BACURI: Adeus Meninos e o perigo nazista

Poderia ser apenas um filme histórico, com um tema superado com o fim da 2ª. Guerra Mundial, em que o nazismo teria sido enterrado e os seus fantasmas exorcizados. Assim cheguei a pensar tempos atrás. Seria isso apenas uma lembrança funesta dos livros de história, como as de Eric Hobsbawn? Por este motivo, também outros, escrever sobre “Adeus Meninos” (Au revoir les enfants) de 1987, dirigido por Louis Malle é desenvolver uma crítica a respeito de nossos tempos de incerteza e assombrado pelos demônios do passado que insistem em visitar as nossas noites de inquietação. Mas igualmente apreciar uma narrativa criada a partir da beleza das imagens captadas ou distorcidas pelas lentes de Louis Malle.
Este diretor francês falecido em 1995 não teria sido muito aceito por contemporâneos seus que estavam comprometidos pela onda do cinema conhecido por Nouvelle Vague. Eram diretores renomados como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmmer e Claude Chabrol. Bem ao contrário, preferiu seguir um estilo próprio, que o conduziu a trabalhar em Hollywood, atitude que não teria agradado os críticos europeus. Render-se ao capital americano poderia ser considerado ceder-se às ofertas da indústria cinematográfica. Nos Estados Unidos fez sucesso com “Pretty Baby”, de 1978, que consagrou Brook Shields, então com 13 anos.
Quanto a “Adeus Meninos”, seria um retorno ao cinema francês, algo que teria que realizar, pois tinha roteiro pronto, conforme declaração posterior de sua esposa, a atriz americana Candice Bergen. Obteve grande sucesso, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em 1987. Chegou a ser indicado como melhor filme estrangeiro e de melhor roteiro original ao Oscar daquele ano. De fato, existe uma beleza neste filme, algo intimista, pois conforme ele confessa no final do filme, em letras de revelação, teria sido uma experiência passada aos dez anos de idade ao frequentar um colégio carmelita em Sainte Croix. No filme, trata-se de Julian Quentin, um menino da alta burguesia francesa durante a ocupação dos alemães nazistas.
Na mesma escola católica, em determinado momento, mais quatro alunos novos são incorporados. Trabalhar com meninos seria um trabalho árduo por parte de Malle. Dois são os principais protagonistas, Julian Quentin e Jean Bonnet. Grande parte do filme, o cotidiano do colégio é mostrado sem grandes dilemas, como que a guerra e a ocupação fosse um assunto distanciado da realidade deles. Que os adultos cuidem de suas vidas e a guerra seria apenas um a acontecimento além dos muros do colégio. Meninos como qualquer outros, estudam literatura e álgebra, tem aulas de canto, disputam espaço e brigam entre si. Também aprender os vícios do mundo como fumar e ler livros inapropriados como “As mil e uma noites”, de Scherazade.
Os meninos não são tão diferentes assim, mas de todos, Jean Bonnet tem algo a esconder, devido ao seu comportamento introspectivo. De fato, ele era diferente. No começo tinha dificuldades em ingressar na capela, enquanto os demais repetem este comportamento como natural. Estudar um colégio católico, o que se pode esperar de menos é justamente participar das missas. Mais tarde descobre-se de que Bonnet era um judeu, que os padres tinham recolhido a fim de não ser levado pelos nazistas. Existe no filme uma certa tolerância pelos nazistas em momentos específicos. Nem todos os nazistas eram maus. Ou melhor, nem todos os alemães eram necessariamente nazistas. Num das cenas um oficial nazista pede para se confessar com o padre. Num outro ainda, quando os dois garotos vencem os muros e caminham pelo bosque quando são descobertos por uma patrulha alemã. São conduzidos novamente ao colégio, que os guardas dizem ser católicos da Baviera, por isso nada tinham a temer.
Numa outra ocasião, num restaurante encontram-se uma comitiva de oficiais nazistas servindo-se do jantar. É quando ingressa dois milicianos franceses favoráveis à ocupação. Ao interpelar um velho francês, cujo nome revela sua origem judaica, não medem palavras para que ele se ponha fora daquele estabelecimento. Bastante constrangedor. Alguns se colocam a favor do ofendido, outros o consideram comunista, ao gritar “judeus vão para Moscou”. É quando um dos oficiais nazistas expulsam os milicianos. Neste momento, os invasores alemães parecem menos perigosos do que os próprios nacionais “colaboracionistas”. É um assunto delicado que ainda incomoda os franceses, da existência dos que se colocaram a favor dos invasores.
Existe um personagem bastante complexo nesta história, o de Joseph. Ele trabalha no colégio, vindo das classes mais baixas. Nada tem ele, nem casa, nem dinheiro, diferente da situação dos outros. É tratado como um bobo, sofrendo todas as humilhações. Certo momento é pego roubando e, desta forma, é despedido pelos padres. Mas haverá uma resposta a altura contra o colégio, que o abrigou, deu trabalho, ensinou a disciplina e também o despediu. Será ele um futuro colaboracionista, por ressentimento, pois dedurara para a Gestapo. Um triste fim para uma história que poderia ser diferente, como a que existia no cinema americano.
Sem resistência, com altivez, os meninos judeus são conduzidos para além dos portões. Junto a eles, o padre Jean, o diretor do colégio. “Au revoir mon pere”, despediram-se os meninos. “Adeus meninos”, foi a resposta.

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