CANTO DO BACURI: Acreditando no inacreditável

Não é de hoje que a mentira pode se tornar “verdade”, ao negar fatos e a realidade que nos cerca. Ainda que a realidade seja algo próxima, para alguns, ela deve ser distorcida para acomodar uma visão que satisfaça crenças e minimize o sofrimento do mundo da maneira como se apresenta. É a não aceitação da realidade histórica em seu movimento de avanço e retrocesso contínuo. Trata-se neste caso das informações falsas que são divulgadas através dos meios eletrônicos como a internet.
Aquilo que se chama fake news, de certo, é produzido por alguém a serviço de alguém. Penso, não se tratar apenas de uma brincadeira de mal gosto. Criar notícias fake e se beneficiar disso é parte de grupos econômicos e políticos, que ocultos nas redes sociais impõem uma visão de mundo, que não corresponde aos fatos concretos. Outrora, fazia-se a fofoca, que alimentava as revistas femininas, fuxicos da vida alheia dos artistas de televisão, cantores e ídolos das novelas.
Mas existiu um tempo, década de 60, que a farsa tornou divertimento inocente através de programas que promoviam lutas pela rede de televisão. Vários foram as empresas, como a Excelsior, a Bandeirantes e a Globo ao explorar as chamadas luta-livre ou telecatch. Eram programas como “Reis do Ringue” e “Astros do Ringue”. Isso acontecia nas noites de sábado. Havia em torno de cinco lutas em que os oponentes se colocavam diante das câmeras. Estes lutadores (ou seriam atores de circo?) usavam nomes chamativos como Hércules, Montanha, Viking, Aquiles, Tigre Paraguaio, Marinheiro, Fantomas e, o ídolo maior de todos, Ted Boy Marino.
Não havia muitas opções, sendo a luta-livre um dos mais chamativos ao lado das telenovelas e dos programas de auditório. No caso das lutas, o confronto era mais uma exibição de golpes combinados e exercícios de trapézio e teatro. De um lado estavam os bons, de outros os maus. Teria que acontecer justamente este embate do bem contra o mal, em que o público presente nos ginásios de esportes, mas principalmente o que assistia pela televisão pudesse torcer pelos seus ídolos.
Quase sempre, os bons se apresentavam como fortes e elegantes, enquanto os maus eram barbudos, gordos e desleais. Quando lutavam, usavam de artimanhas como a utilização de golpes baixos, o que não deveria acontecer com os bons. Desta forma, o público se punha ao lado dos bons. Claro, tratava-se de um espetáculo em que as tensões do público chegavam em seu ápice a cada golpe, que arrancava sangue. Não era sangue de verdade, mas sugeria. Nesta época, dos primeiros governos autoritários, o mundo se dividia entre o ocidente civilizado e capitalista e do leste, representado pela União Soviética como atrasada e ameaçadora.
Ainda que se desconfiasse de que as lutas eram performances entre dois artistas, como o mocinho e o bandido, podia se acreditar de que eram verdadeiras. Se não fossem verdadeiras, poderia se acreditar de que havia alguma verdade naquelas lutas. Desta forma, os maus provocavam o público presente, faziam caretas, xingavam, desafiavam e exibiam uma força, que se tratava de uma vaidade a ser menosprezada. Não é o mesmo o que acontecia com os bons, pois estes eram a perfeição exigida de um herói em sua beleza e coragem. Eram justamente os bons que tinham a habilidade de fazer acrobacias e golpes mirabolantes possíveis somente no cinema com o advento dos efeitos especiais. Então, os efeitos especiais eram formas combinadas em que o bom mostrava a sua performance elegante em voadoras com ambas as pernas e tesouras aéreas capazes de arremessar os seus oponentes. Cabia aquele que fazia o papel de mal cair no golpe e ser posto sobre a lona. Para quem assistia, aquilo era real.
Estas lutas ainda são populares nos Estados Unidos e no México. Por longo tempo fez sucesso também no Japão. Para cada lugar, havia um público determinado e um contexto histórico particular. Cabe a nós apreciar através de uma análise crítica o que poderia significar a luta-livre no Brasil, naqueles dias. Talvez a mudança não foi muito, pois o combate entre o bem e o mal se mantém. Para que isso aconteça, alguém deve se colocar com o bom e o outro como o mau. Se este mal não existir durante a contenda, precisa ser criado. Para existir o Super Homem é necessário Lex Luthor existir. Numa trama, qualquer que seja, uma novela global, também um filme policial ou de suspense, ambas as partes antagônicas devem ser consideradas.
Com o fim da Guerra Fria e a derrocada da União Soviética, em dezembro de 1992, tudo ficou ofuscado. Quem seria o oponente, quer dizer, o mal a ser combatido? Nos anos 60, realizou-se uma luta entre o herói Ted Boy Marino e o vilão Aquiles. Enquanto o herói era loiro, de descendência italiana, Aquiles era nordestino, atarracado, mal encarado. Todos odiavam Aquiles. Podia ser uma farsa, tudo fake news, que mostrava claramente o antagonismo existente. Ainda que fosse uma brincadeira piegas.
Antagonismo que perdura, que diante da falta de inimigos, qualquer coisa pode se tornar um, desde que não concorde com a nossa postura. Inclusive fabricar fake news. Assim, novos inimigos são criados e outros ainda, desaparecidos, são desenterrados para que novamente retornem à vida para serem odiados. Alguns necessitam odiar para viver ou dar sentido às suas vidas. Talvez a psicanálise possa dar uma resposta aceitável para esta situação de carência e frustração.

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