CANTO DO BACURI: A simplicidade dos simples em Naruse

Entre os diretores que criaram o cinema japonês como indústria do entretenimento encontra-se Mikio Naruse. Nasceu em 1905, em plena era Taisho (1912 – 1926), quando o cinema passava a encher as salas de exibição, ainda com influência do teatro popular. Assim, existia uma forma peculiar de usar a câmera, baixa, às vezes altas e distorcidas, enquadrando o vão da escada ou a ponta da janela. Quanto às fontes desta narrativa cinematográfica, havia as novelas que despertavam grande interesse. Ao mesmo tempo que os leitores se ocupavam da leitura, o cinema aproveitou-se ao transformá-la nas imagens.
O filme que tratemos neste artigo é Ani Imoto (Irmão mais velho e irmã caçula), de 1953. Isso quer dizer, oito anos após o fim da guerra. Momento em que o Japão tenta se recuperar: um novo estilo de vida se impõe, o sofrimento dos fracos, as mulheres que buscam um lugar na sociedade de consumo. Este é o estilo de Mikio Naruse, ao explorar os temas comuns de família, da mesma forma como fizeram outros como Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu.
Naruse deu início ao cinema ao auxiliar os outros diretores, na Companhia Shochiku, mas como diretor somente atuou após 1930. Fez 89 filmes. De acordo com Akira Kurosawa, o trabalho de Naruse é “um grande rio de superfície plácida, mas de águas violentas nas partes profundas”. É bem isso que se percebe em Ani Imoto. Aparentemente nada acontece de importante, de uma monotonia, como que tudo o que nos traz aos olhos é entediante. Pode-se pensar: poderia ser melhor. O que afinal haveria de atraente num filme cujo título é Ani Imoto?
Cada personagem, como a da irmã mais velha, chamada Mon (Kyo Machiko) cria o ambiente de dramaticidade. Enquanto isso, a irmã mais nova, San (Yoshiko Kuga) observa os erros da irmã e se conforma com o drama que não é seu. Mon é expulsa de casa por engravidar, e sem condições de sustento. O irmão mais velho, Inokichi, (Masayuki Mori) a põe fora de casa. O pai, Akasa (Reizaburo Yamamoto), vive de um passado em que a realidade do presente mostra uma condição adversa àquela. Se antes trabalhava na exploração da retirada de pedras do rio, isso não acontece mais. Cada um tem o seu sofrimento naquele mundo, na periferia de Tóquio, quase uma zona rural, em que a única fonte de rendimento da família é a exploração de uma venda de beira de estrada.
Mas existe também neste cenário, os rios limpos em corredeira constante, as crianças livres e respirando ar puro. Naruse ao narrar esta história utiliza-se da câmera ao criar ângulos que mostram a beleza que ameniza as dores que acometem as pessoas comuns. No cinema japonês da época, serve-se com frequência da câmera parada e baixa em que diante dela os acontecimentos fluem sem qualquer impedimento. Tudo há de se transformar, inclusive as emoções, nem mesmo a tristeza haverá de perdurar. Como que o sofrimento fosse causado pela interferência humana, explodindo em suas emoções, enquanto na natureza nada se encontra fora do lugar, que sem se incomodar parece parada. São os homens que se alteram e se mexem. Nesse momento, a câmera também se comporta como a natureza, parada e com a lente aberta.
Como figuras centrais deste drama estão Mon e o irmão Inokichi, ambos com temperamento violento, que mostram todo a seu destempero numa briga em que chega aos ápices de loucura. São cenas fortes. Existe uma relação estranha entre ambos, algo de amor profundo e imenso ódio. Se fosse um filme ocidental, diria ser um caso que agradaria os psicanalistas. Mas a psicanálise não se aplica ao Japão. De qualquer forma, cada personagem tem as suas próprias angústias. O próprio país igualmente vive a angústia de superar a derrota de 1945. O filme feito em preto e branco tem uma poesia profunda de um país que adapta à modernidade, ao transporte público, do trabalho burocratizado das metrópoles.
Mas na periferia uma vida simples acontece, um tanto atrasada, cada família fazendo o que é possível para suprir as suas necessidades. A venda que fica no entroncamento vende raspa de gelo com licor colorido. Outras miudezas também que possam comprar os transeuntes. É a mãe que cuida do negócio. Quando volta da cidade, San, a irmã caçula, traz presentes para a mãe. O salário não é muito alto, o que significa que demorará para ascender profissionalmente. Não foi o caminho escolhido por Mon, que buscou emprego numa casa noturna. A simplicidade dos vizinhos é compatível com o preconceito e discriminação dos mesmos.
Apesar de todas as vicissitudes que os personagens vivem, uma pausa acontece no dia de Obon. É quando se comemora o retorno dos ancestrais às casas, espíritos dos velhos que, conforme a crença budista, uma vez ao ano podem voltar. Na despedida deles, por um rio à noite, colocam a navegar lanternas com velas a fim de conduzir os espíritos para o mundo diferente deste. Assim, se renova a vida.
Por uma estrada pela manhã as duas irmãs dão prosseguimento às suas empreitadas, cada uma com a vida que a cidade grande oferece. Ao ser questionado pela caçula, a outra responde: “volto quando sentir vontade de ver novamente o rosto de minha mãe, também do meu pai, e por quê, não falar também de meu irmão’’. Sempre após o verão irá acontecer o outono. Nada se conserva neste rio da existência. Caminham juntas até o ponto de ônibus, quando cada uma tomará o seu rumo.

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