CANTO DO BACURI: A natureza humana de Valter Hugo Mãe

Existe algo de inusitado na literatura de Walter Hugo Mãe, autor de Moçambique, que escreveu “Homens imprudentemente poéticos”, pela Editora Globo, na segunda impressão de 2017. Afinal, o que queria mostrar este autor: uma pintura, com traços quase primitivos de homens simples e vivendo conforme a lei da natureza. O ambiente é o do Japão antigo. Não se sabe quando, mas posso fazer deduções. Algum momento do período Edo (1600 a 1867) em alguma geografia remota, também em qualquer outro lugar do mundo. Não se trata, especificamente, em retratar o Japão antigo, sendo este cenário para os acontecimentos.
Assim Hugo Mãe utiliza-se da poesia como fator de ambientação para a sua narrativa. Naquele lugar, nada parecia acontecer de extraordinário. O tempo não existia. Por isso, algo que ocorria num tempo de longa duração a vida não passava de uma eternidade. Não havia cidades. Lá no meio do bosque, os acontecimentos marcariam a vida de seus habitantes. Temos duas famílias, eram vizinhas, que se antagonizavam numa carreira de vingança e morte. Pessoas simples, de quase nenhuma letra, senão os ensinamentos dos ventos, estrelas e correnteza dos rios. Nada mais. Isso não quer dizer que a bondade existisse, também a maldade. Seriam estas categorias inseridas na alma humana desde o nascimento ou impostas pela sociedade. Não se sabe. Nem Hugo Mãe quer saber.
Neste mundo antigo do Japão, o equivalente do mundo antigo de outras culturas. Nem mesmo a simplicade é capaz de auferir ao homem uma natureza bondosa, como se poderia idealizar. O idealismo pode ser visto apenas como um desejo, uma vontade para que seja daquele jeito. Isso provavelmente não corresponderia com a verdade. Nesta novela de Hugo Mãe não se trata de um combate entre as forças antípodas, mas apenas das manifestações dos sentimentos humanos. Itaro é o nome do protagonista principal, que tem por profissão fabricar leques. Dedica-se em desenhar na folha de papel do corpo do leque os seus motivos. Entretanto, ele tem uma outra habilidade: a previsão.
Possivelmente a capacidade de prever os acontecimentos, a ameaça e o medo estarão presentes em sua vida. Para que isso aconteça, a previsão, é necessário que sacrifique um animal ou inseto.É um cena de crueldade tirar a vida dos animais para que a previsão aconteça. Bem no início da novela, ele golpeia um besouro. Da maneira como o besouro é esmagado, estraçalhado, consegue prever que a mãe irá ter uma criança impedida de ver as cores das flores. Esta é uma menina que cresce e é acompanhada por uma criada, Kame. Sem a presença dos pais, tanto Itaro e Matsu são cuidados por Kame. Mas o cuidado maior é sempre com a menina cega. Tem Matsu um papel importante neste mundo em que as pessoas enxergam, pois ela consegue ver melhor com os olhos fechados do que qualquer um outro. As cegas desenvolveriam outras sensibilidades, como é o caso de Matsu.
Muitas vezes Matsu consegue evadir-se do local, despertando a preocupação de Kame. “Onde você se encontra, musumê”, assim a chama. Ela responde: aqui. “Aqui onde”, pergunta a criada. De fato, Matsu está mais próximo do que se possa imaginar. “Estou nesta pedra aqui”, pode ser a resposta, ou simplesmente “estou em seu coração”. Esta é a grande poesia da novela de Hugo Mãe. É necessário, muitas vezes, fechar os olhos para realmente enxergar. Os olhos físicos podem enganar, o que não acontece com os olhos do coração. Enquanto isso, diante dos acontecimentos, Matsu apenas contempla, com um Buda de pedra, ao manter o sorriso e os olhos finos penetrantes e calmos. Nada de tanta afobação.
Não estamos acostumados a ver através dos olhos interiores, o que, no caso da cega, é a única possibilidade de investigar o mundo. Assim funciona a meditação vazia dos monges budistas, que por alguns minutos apenas param todos os movimentos do corpo e focam na própria mente. Neste momento, é a mente que percebe o mundo, não apenas os olhos como instrumentos de perceber o que se encontra fora da mente. Em nenhuma momento Matsu se perde, ainda que os passos possam errar. Possivelmente Matsu seja a metáfora de um cego que enxerga, o que não acontece comumente no mundo. Muito diferente disso.
Por outro lado, existe um inimigo de Itaro, o irmão de Matsu, o oleiro Saburo. Um ódio mortal tem Saburo pelo seu vizinho, ao ponto de querer liquidá-lo. Pode ser a qualquer momento. O motivo teria sido uma revelação de Itaro, que antecedeu um acontecimento que iria acabar com a felicidade do casal. A senhora Fuyu seria morta a qualquer momento ao ser atacada por um lobo. Seria isto um mal presságio. Uma espécie de maldição que Itaro não poderia evitar, pois este era a sina daquela. Quando o fato aconteceu, por uma falha do marido, este não reconhece o erro e nem perdoa o vizinho.
Parece uma história simples, pois é justamente isso que acontece, que Hugo Mãe cria através de uma narrativa peculiar, de uma língua poética, um pouco desconhecida por nós. É um portuguès lírico, antes a invenção desta outra direta e objetiva.
Conforme o que nos revela Hugo Mãe, em estado primitivo o homem é escravo das emoções. Não que a novela sirva de ensinamento, longe disso, antes disso é a colocação de maneira crua o homem, sem qualquer idealização. Nem se pretende combater o mal, pois ela somente existe no campo da linguagem em relação à sua contraparte.

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