CANTO DO BACURI: A marca humana

Quando acostuma com a literatura produzida por Philip Roth, sempre o livro a ser lido em seguida torna-se importante. É como fosse uma tentativa de saber o ele tem a dizer a mais. Claro, sempre existe algo profundo, incômodo e paradoxal em seus romances. Por muito tempo somente os livros de teoria me interessavam, sejam os de filosofia, política, história, antropologia e também crítica literária. Mas a literatura foi uma descoberta recente. Já tinha lido um ou outro livro de Philip Roth, cujo nome me marcou. Assim, desta vez, comecei com “O Teatro de Sabah”, de 1995. Passei por “A Humilhação”, de 2009. O que acabei de ler é “A marca humana”, de 2000. Todos estes foram editados pela Companhia das Letras.
A leitura de Roth é densa e nada regular, como se pudéssemos esperar por alguma resolução final favorável. O seu estilo é duro e remete a um intenso “vai e vem”, de um tempo presente que remete às lembranças. Neste “A marca humana”, de 454 páginas, o personagem principal é Coleman Silk, que aos 71 anos vê a sua carreira acadêmica destruída. Isso é terrível. A questão da velhice é uma constante, pelo menos nos livros citados. De repente, Silk que é um catedrático da Universidade Athena, de uma cidade pequena da Nova Inglaterra, sente na pele o drama do abandono numa sociedade que preza pelos bons costumes. Este é o ponto central do romance, marcado também pelo escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky no ano de 1995.
O caso de Coleman Silk, de ingredientes mais apimentados, exagerados por Roth, ao revelar o motivo de expulsão de Coleman Silk: um envolvimento amoroso com a faxineira Fania Farley, de 34 anos; também de acusação de racismo por dois estudantes negros. Fica a questão: seria correto a condenação de Coleman por envolver-se com alguém com metade de sua idade? Por ter usado a palavra spooks, uma gíria, poderia ser entendido como uma ofensa aos negros? Estamos vivendo em tempos de puritanismo e perseguição àquilo que possa ofender a moral conservadora, mas também a moral dos oprimidos.
Para descrever o que existia naqueles dias, uma ficção que recria a sociedade americana, Philip Roth retoma a temas que incomodam. Em sua literatura, a sociedade dos Estados Unidos seria o paraíso dos que querem realizar os seus sonhos, atraindo em grande proporção os profissionais estrangeiros. Lá na Universidade Athena está a jovem professora do departamento de francês Delphine Roux, de 29 anos, ambiciosa e com uma formação acima dos padrões normais. Está acima do convencional professor americano. Mas por algum motivo, resolve ir à América. Enquanto Coleman Silk é do departamento de grego, responsável por contratar os professores novos, a sua situação se torna insuportável por acusações irrelevantes.
A própria vida de Coleman Silk é revelada, cuja origem mostra um viés de intolerância da sociedade em que se vivia. Ele próprio tinha um genótipo afro. Mas também devia ter sangue judeu. Como afro-descente teria se tornado um profissional do boxe, cuja carreira nos ringues era contra a vontade dos pais. Ser ou não ser afrodescendente? Eis uma terrível dúvida. Dúvida esta que acaba no momento que ele sai de casa para nunca mais voltar. Seguiria a própria vontade, desta vez assumindo ser judeu. Como o próprio autor, Philip Roth, um judeu americano, Coleman Silk segue os passos de seu criador.
Os personagens são vários em “A marca humana”, em que a vozes se cruzam em conflito e convergência. Um individualismo está presente nos discursos. O liberalismo tão valorizado pelos americanos é motivo para defender princípios como “primeiro eu, depois os outros”. Sempre Coleman Silk foi correto com os demais professores, e defendendo os interesses da Universidade Athena. Quando se viu sozinho, o mesmo liberalismo foi capaz de que os interesses próprios fossem considerados a favor de uma moral conservadora e contra uma eventual defesa de Coleman Silk.
Como um dos melhores romancistas americanos, detentor de vários prêmios no país, tem um humor sarcástico em relação aos próprios americanos. Não se trata apenas de uma crítica, mais do que isso: uma revelação. O que um romancista diz numa ficção ofende menos os leitores, capaz de provocar mudanças, promover a reflexão. A sociedade dos sonhos pode ser tão hipócrita como qualquer outra.
Uma sociedade que enviou milhares de soldados brancos, de cor e de judeus para a Guerra do Vietnan. Muitos morreram por uma causa injustificável. Numa guerra que não era deles. Uma guerra em que perderam: vidas e esperança. Quando os soldados retornaram passaram a viver noites de insônia, casamentos desfeitos e a saúde física e mental abaladas. Ainda assim, continua sendo o país dos sonhos de imigrantes pobres, desesperados, de língua e costumes diferentes. E neste caldeirão cultural, de raças e classes, surge os Estados Unidos, acreditados mais do que nunca.
Somente após a morte de Coleman Silk, as homenagens aparecem. Era tarde. Era tarde o professor afro-americano Herbert Keble dizer que foi injusto a sua atitude em se colocar contra o amigo no momento em que ele mais precisava de apoio. Coleman Silk estava morto. Foi enterrado como judeu, da maneira como ele sempre viveu.

 

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