CANTO DO BACURI: A Condição Humana conforme Masaki Kobayashi

Em pleno final dos anos 50, mais precisamente em 1959, o romancista Junpei Gomikawa lançou “Ningen no Joken”, que lhe rendeu 2 milhões e 400 mil exemplares, um sucesso de venda, cujo tema ainda causava incômodo entre os japoneses. Devido ao sucesso, Masaki Kobayahi realizou a trilogia “Ningen no Joken”, que foi traduzido “A Condição Humana”. Da forma como o livro é denso, o mesmo aconteceu no cinema. “A Condição Humana” dividida em três partes: a primeira ”Não há amor maior”, a segunda “Estrada para a Eternidade” e a terceira “Uma prece de soldado”. Só para se ter uma ideia, a primeira parte tem 3 horas e 26 minutos de duração. Não se pode assistir a trilogia num único dia.
Desconheço se “A Condição Humana” foi publicado em traduções. Sabemos que existe o filme, que um dia um amigo me entregou. Já se passaram quase quatro anos deste acontecimento. Assisti uma vez. Só me faltava mais uma parte, a sexta e última da trilogia. O assunto me pareceu enfadonho e demorava para ser assimilado. Havia muitas imagens e abordagens que causavam incômodo. Deixei para depois. Esse depois chegou. Assisti a trilogia e recuperado do susto inicial, passo à apreciação.
A trilogia que tenho foi a lançada nos Estados Unidos em 2009, que reserva os direitos para a Shochiku, agora com as devidas legendas. O protagonista Kaji é de Tatsuya Nakadai, um dos grandes papeis em sua carreira. Seus olhos grandes têm um enorme impacto, de surpresa e terror. Outros que participaram do elenco, nomes consagrados do cinema japonês: Michiyo Aratama, Ineko Arima, Chikage Arashima, Keiji Sada, Chishu Ryu e Hideko Takamine. O tema abordado na trilogia é o sentimento como fonte de crueldade, amor e decadência. De certo, o autor, Junpei Gomikawa leva às últimas consequências as paixões, naquilo que tem de bom e o inverso. Como pano de fundo, os personagens desfilam num campo minado com cheiro de pólvora queimado e o suor do corpo que testemunham circunstâncias adversas ao revelar a condição humana como um passo em direção à tragédia.
Mas na tela iluminada por Masaki Kobayashi o preto e branco das cores tem efeito revelador. Não poderia rebaixar a obra de Gomikawa. Com a participação de um grande elenco, dependia agora da sensibilidade da câmera para criar um ambiente em que as palavras seriam insuficientes diante das lentes distanciadas para mostrar a grandiosidade do tema abordado. Assim que se dá o início, conforme este apreciador, uma das mais belas vistas, é o encontro de Kaji e Michiko. Estamos vivendo em plena ocupação japonesa da Manchúria do Sul, em 1953. Ao passarem sob os arcos de uma ponte, aos fundos o exército japonês marcha com seus pesados casacos, gorros de pele e fuzis nos ombros. Neva neste dia. Apesar da guerra, existe beleza, a da neve fresca em contraste ao calor dos amantes. A guerra é apenas um detalhe.
No entanto, trata-se do começo. O jovem Kaji, de 28 anos, é um idealista, que acredita na transformação do ser humano, em sua bondade, numa sociedade igualitária a que, contrariava a política de exploração japonesa na Manchúria. Esse teria sido também a postura do romancista Junpei Gomikawa. Em todo o momento, as posturas de Gomikawa são colocadas à prova, numa condição real de existência: a guerra. Assim, Kaji que faz parte dos colonos japoneses nos domínios do Grande Império Japonês, parte para o fronte. Onde quer que seja mandado, num campo de trabalho forçado, para supervisionar os trabalhadores chineses, também dos prisioneiros, não se esquece de sua crença: os homens merecem respeito.
Isso não acontece, logicamente, com os outros. A guerra transforma os homens em algo pior. O inimigo não é o estrangeiro, aquele que se difere como conquistado, o submetido devido a superioridade do outro, mas entre os iguais. Estes iguais não são tão iguais assim, quando alguém fora do contexto aparece. É Kaji. Os iguais eram aqueles que não escondiam os sentimentos mais obscuros da alma humana, sejam eles civis ou militares. Havia algo de corrupto nos homens, não importando se eram os de cima como os de baixo. Sempre Kaji se prestava a depositar a sua confiança nos de baixo, que numa relação de força estavam condenados a perder.
O fato de Kaji se colocar no lado dos fracos contrariava uma condição natural de dominação. Aceitar este fato era promover um equilíbrio de forças, que evitaria a desordem. Por isso, Kaji está mais preocupado em defender os seus princípios do que acomodar-se aos fatos. Esta é a tragédia posto por Gomikawa.
Se todos estão contra Kaji, cabe a ele ceder em algum momento diante da corrupção em que se coloca o ser humano ou insistir em seus princípios. Apenas quer ser justo. Mas a justiça não é uma condição do mundo. Este é o conflito da existência do ser humano. Os militares japoneses são insolentes, que serve para colocar à prova mais ainda a perseverança de Kaji. Muitas vezes, independente do que pensa Kaji, a sua índole merece o reconhecimento dos superiores.
Por outro lado, o amor por Michiko contribui para que Kaji mantenha a sua fé na bondade humana. Ainda que os poderosos possam demonstrar crueldade naquelas condições, existe algo de bom, ou melhor, têm princípios que devem ser respeitados. Entre os bons, melhor posto, os de baixo, também são susceptíveis à corrupção. Entretanto, entre alguns, a maldade se tornou uma norma de conduta comum. A vulgarização da maldade se apresenta como o maior perigo.
Como soldado Kaji poderia morrer, mas que isso não fosse nem pelo amor à pátria, nem pelos seus princípios, havia algo maior por que lutar: o amor de Michiko. Isso era real.

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