Apesar do ‘adiamento’ do FJ, 2º Simpósio de Organizadores surpreende participantes

(Aldo Shiguti)

Os frascos com àlcool em gel espalhados pelas mesas dos ambientes do São Paulo Expo e a maneira de se cumprimentar, com o tradicional aperto de mão e os calorosos abraços e beijos sendo substituidos por outros – o preferido foi mesmo o “modo japonês” – davam indícios que a 2ª edição do Simpósio de Organizadores de Festivais do Japão realizado no último dia 14, tinha muito mais para discutir do que o estabelecido inicialmente, ou seja, apresentar novas ferramentas, buscar soluções conjuntas e promover networking entre os organizadores de Festivais do Japão de todo o Brasil.

Yasuo Yamada, presidente do Kenren (Aldo Shiguti)

Realizado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo e pelo Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), esta segunda edição reuniu representantes de cerca de 80 entidades de 32 cidades de 13 estados brasileiros. “Não dá para comparar com o primeiro porque desta vez a gente colocou palestrantes para falarem durante 30 minutos, uma hora. Esteve presente o cônsul geral do Japão em São Paulo e o Gioji Okuhara, que falou sobre o cenário macroeconômico, além de André Eleutério, da NEC, que abordou sobre as tecnologias que transformam o mundo”, disse o vice-presidente do Kenren, Toshio Ichikawa, acrescentando que, “no geral, as palestrs agradaram bastante”. “Numa escala de 0 a 100, acredito que atingimos entre 85 e 90”, comentou Ichikawa.
Naquele dia, porém, os comentários paralelos entre os participantes giravam em torno do aumento de casos do novo coronavírus que, como disse Toshio Ichikawa, está sendo o grande desafio para os organizadores dos Festivais do Japão deste ano.
O próprio Simpósio, que chegou a ser cancelado, teve sua programação alterada de dois para apenas um dia., o que provocou uma baixa.Ainda assim, havia um certa esperança de que o 23º Festival do Japão pudesse ser realizado.
Durante a semana, porém, com o agravamento da situação e o avanço dos casos de contaminações no país, muitos eventos começaram a ser cancelados, um a um. Restava o maior deles. Até que o anúncio que todos já esperavam veio em forma de comunicado publicado nas redes sociais no último dia 19, “adiando” o 23º Festival do Japão para 2021.
Apesar de otimista, o próprio Ichikawa parecia prever o que viria pela frente. “ Se você olhar os próximos dias e os próximos meses com o vírus, todos tem que se preocupar, todos tem que reprensar como planejar e como cuidar de sua vida. Tudo isso tem que ser pensado. Não serão dias confortáveis para todos”, disse Ichikawa ao Jornal Nippak.

Novidades – Mas independente do anúncio de adiamento do Festival do Japão, o 2º Simpósio dos Organizadores dos Festivais do Japão apresentou conteúdos e palestrantes que agregaram novidades para os participantes. Além do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, e do presidente da   Comissão de Relações Empresariais do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Gioji Okuhara, de Toshio Ichikawa e André Eleutério (NEC), participaram Fernando Carmona (gerente de conteúdo do Rio Matsuri); Neusa Shirata Iso; Everton Arashiro; Erika Yamauti; Roberto Sekiya; Claudio Oikawa (vice-presidente Cultural e Esportivo da Associação Espoortiva e Cultural Nipo-Brasileira de Campo Grande); a secretária de Cultura e Turismo de Campo Grande (MS), Melissa Tamaciro, o Chefe de Gabinete da Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo, Carlos Koji Takahashi, o coordenador de eventos da Secretaria Municipal de Turismo de SP, Vander Lins e o vereador Aurélio Nomura.

Cônsul Yasushi Noguchi (Aldo Shiguti)

Comunidade nikkei – Abrindo a série de palestras, o cônsul Yasushi Noguchi destacou a importância dos Festivais do Japão realizados Brasil afora. “Os Festivais do Japão são muito importantes porque divulgam a cultura japonesa, o pensamento, a disciplina e o espírito japonês. Por isso, o governo japonês quer continuar apoiando estas atividades não só em São Paulo mas também em outros estados do Brasil e em outros países da América Latina”, disse Yasushi Noguchi, que falou sobre “A importância da comunidade nikkei e a relação do governo japonês com a comunidade nikkei”.
Segundo ele, desde que chegou em São Paulo, em outubro de 2017, para trabalhar e morar pela primeira no Brasil, ficou impressionado com a presença da comunidade japonesa no país. “Tinha algum conhecimento sobre a comunidade nikkei no Brasil e em São Paulo, especificamente, mas o que encontrei aqui superou minha imaginação”, afirmou o cônsul, que lembrou a história de sofrimento e superação dos primeiros imigrantes no Brasil.
Segundo ele, graças à imagem construída pelos pioneiros, que resultou em uma relação de respeito e confiança com os brasileiros, as marcas japonesas alcançaram êxito, “apesar das dificuldades de se fazer negócios no Brasil devido à burocracia e impostos muito complicados”.
Em contrapartida, conta, as empresas japonesas também dão muita importância à relação com a comunidade japonesa no Brasil. “Como resultado, muitas empresas participam do Festival do Japão de São Paulo e também contribuíram muito para reformar o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. Isso significa que as empresas japonesas valorizam muito a comunidade japonesa”, disse ele, que citou, como exemplo, a Honda e a Toyota, além da Daiso.
Yasushi Noguchi destacou ainda as contribuições japonesas para o Brasil, como na gastronomia, na cultura e nos esportes, principalmente nas artes marciais, com o judô. “Talvez tenha assistido mais apresentações de taiko aqui no Brasil do que quando morava no Japão”, brincou o cônsul, que explicou também que aprecia a divulgação da culinária japonesa que ocorre no Festival do Japão.

Cônsul Yasushi Noguchi fala sobre a importância da comunidade nikkei e a relação do governo japonês com a comunidade nikkei (Aldo Shiguti)

Adaptações – “É certo que a gastronomia japonesa sofreu uma adaptação, mas isso é positivo. O yakissoba, por exemplo, é diferente. Mas a adaptação é necessária. Importamos o beisebol dos Estados Unidos, mas o beisebol praticado no Japão é diferente do beisebol praticado nos Estados Unidos . Ou seja, devido a essas adaptações a culinária japonesa está bem difundida no Brasil”, observou, lembrando que hoje São Paulo copnta com mais restaurantes japoneses do que churrascarias. “E nas churrascarias encontramos também o sushi e o sashimi”, disse Noguchi, que destacou ainda a contribuição dos japoneses na agricultura, que mudou om hábito dos brasileiros.
Em sua palestra, Yasushi Noguchi também se referiu à ajuda da comunidade aos japoneses em tempos difíceis, como no pós-guerra. “O mesmo aconteceu em 2011, no Grande Terremoto do Leste do Japão, na região de Tohoku, que abrange as províncias de Miyagui, Fukushima e Iwate, atngidas pelo desastre e depois pela contaminação nuclear. “A comunidade nikkei mais vez mostrou simpatia e solidariedade” , disse o cônsul que abordou ainda a presença cada vez maior de nikkeis à frente de empresas japonesas , como Renato Ishikawa, na NEC do Brasil, e Issao Mizoguchi, na presidência da Honda South America, e dos 30 anos do movimento dekassegui, o primeiro caso de convivência entre japoneses e estrangeiros.

Governo japonês – Por fim, Yasushi Noguchi citou a participação do governo japonês ao longo das 22 edições do Festival do Japão, seja através do Ministério da Agricultura, Pecurária e Abastecimento, seja através do Consulado Geral do Japão ou de órgãos como a Jica, Jetro, Japan Foundation e JNTO.
“Queremos estreitar essas relações com a comunidade japonesa não só na cidade de São Paulo, como no também no interior e em outros Estados”, finalizou o cônsul.

Gioji Okuhara abordou o cenário macroeconômico (Aldo Shiguti)

Já Gioji Okuhara falou sobre “o que sabemos e o que não sabemos”. Falou sobre o coronavírus e fez uma projeção dentro de um cenário base, com o vírus, em algum momento, sob controle, o processo eleioral nos Estados Unidos transcorrendo de forma tranquila e com cenário idêntico na relação entre as duas principais economias do mundo. Segundo ele, nesse cenário, a economia terá um primeiro e segundo trimestres negativos, onde as áreas mais afetadas serão as de entretenimento, cultura e turismo.
Para Okuhara, pode haver também um cenário mais otimista – e menos provável – com a retomada de crescimento da China, as reformas aprovadas e as privatizações aceleradas. Já num cenário mais pessismita, a pandemia do coronavírus foge do controle e o mundo entra em recessão.
De acordo com Okuhara, “neste mundo cada vez mais complexo, volátil e interconectado, devenos ter um plano de contingência para enfrentar alguns cenários e diversificar os riscos, isto é não colocar todos os ovos numa cesta só”. “Em tempos de crise, caixa é rei”, garante.
A palestra “Importância dos Festivais do Japão na política municipal, seguida de debate, fechou a programação.

Repercussão – Para os participantes ouvidos pelo Jornal Nippak, o Simpósio agradou. João Koji Sunamo, coordenador Executivo do Festival da Cultura Japonesa de Salvador, realizado pela Anisa (Associação Cultural Nipo-Brasileira de Salvador) em agosto, “a cada ano que passa estão sendo introduzidos novos assuntos que são de interesse da grande maioria de lideranças”. “Sempre acrescenta muita coisa e é interessante essa troca de experiência”, disse ele, que no ano pasado participou como painelista. Para ele, “a gente acaba captando muitas ideias que podem ser uisadas na organização dos festivais locais”. “São várias coisas pequenas mas que podem contribuir para melhorar o nosso evento, que já tem 14 anos. A gente sempre precisa melhorar algumas coisas e esse tipo de evento é importante para aprimorar cada vez mais”, afirmou.
Para Fabiana Hitomi Tanabe, da Associação Festival do Rio Grande do Sul, evento que também acontece em agosto, foi uma troca de experiência “interessante e positiva”. Para ela, um dos temas que mais chamou a atenção foi sobre voluntários, além da questão da captação de recusos financeiros.
Já Carlos Nakamura, diretor geral do Japan Fest, que este ano foi adiado de 17 a 21 de abril para 4 a 7 de setembro, na sede campestre do Nikkey de Marilia, disse que ficou surpreso. “Não pensei que pudesse me esclarecer tanto em relação às muitas dúvidas que tínhamos e que podemos usar para melhorarmos o nosso evento. Uma parte que a gente tem que ver é a dos voluntários, que a gente pode estar explorando mais porque realmente não é facil para querquer oragnização trabalhar sem os voluntários. A outra é em relação ao pós-evento, muito bem abordado pelo Ichikawa. Realmente precisamos dar um retorno aos patrocinadores e voluntários. São coisas importantes que a gente pode estar melhorando, além de infinidades de outras coisas porque o evento foi muito abrangente”, afirmou Nakamura.

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