Zorba, o minotauro de Creta

Alguns filmes devem ser revistos, outros não vistos, vistos agora, quando podemos esticar o tempo. São os tempos da memória, no meu caso, que retornam confundindo o vivido e o que vivemos agora. Por alguma fatalidade, talvez isso, ainda que deixe de acreditar nela, outras causas podem ser, chegou até mim o filme Zorba – o Grego. Não procurei. Assisti com grande prazer e crítica. Também a chance de ver novamente, saltando da tela, a cara meio indígena de Anthony Quinn.
Este filme fez muito sucesso na década de 60, mais precisamente em 1964 participou da premiação ao Oscar de Hollywood, ganhando alguns prêmios como o de melhor atriz coadjuvante a Lila Kedrova, que interpretou uma francesa decadente com um passado de glamour, riquezas e amores. Também foi lembrado como o filme de melhor fotografia em preto e branco. Tudo se passa na ilha de Creta, no mar Egeu. Trata-se de uma ilha grega, que nos tempos homéricos foi palco de um feito mitológico: o minotauro. Para quem perdeu as aulas de história, o minotauro era um monstro que habitava uma caverna. Tinha corpo humano e cabeça de um touro, algo comum no universo mágico dos antigos gregos.
O mito moderno de Zorba, que se realiza também em Creta, ele próprio um herói trágico, meio Dionísio, meio Apolo, é o ponto central desta história. Ele decide ajudar a Basil, papel de Alan Bates, um escritor que herdou uma mina desativada. A civilização que se apresenta em Basil não é suficiente para adequar-se às condições reais de existência numa vila de Chania, em que o atraso se justifica em manter uma ordem. Tudo que é contrário a isso, uma possível mudança, pode ser catastrófica. Zorba tem sabedoria o suficiente para enfrentar as intempéries e vacilações que acometem a alma humana. Esta alma humana é muito mais complexa do que qualquer outra tentativa de explicá-la. A psicanálise é uma tentativa válida não o suficiente.
Com o plano branco e preto, o filme dirigido por Michael Cacoyanis, tem cenas que dispensam qualquer diálogo, como o encontro de Basil com a viúva, sem nome, no desempenho de Irene Papas. Nada é dito. Somente o caminhar, um vindo ao encontro do outro, enquanto a câmera mostra o rosto de um, o rosto do outro, a mulher como o seu véu negro, o homem com a camisa clara. É o branco com o preto. Os olhos são devoradores, envolvendo uma cumplicidade em que a poesia surge e passa.
Naquela sociedade tribal, de pescadores, de monges ortodoxos ingênuos e atrasados, de velhas de roupas negras, invejosas e fofoqueiras, uma mina desativada não merece funcionar. Zorba sabe disso, mas insiste, acalenta um sonho, uma loucura, que ele próprio admite. Uma mina é também a habitação do minotauro, que não deve ser incomodado. No filme não se faz referência ao minotauro, é apenas uma reflexão minha. O minotauro é um mal que habita as cavernas de nossa inconsciência. Nunca esteve fora de nós e Creta nunca esteve tão próximo.
Pensar foi outrora a maneira grega de fazer filosofia, buscar a sabedoria. Para Zorba, isso não se aplica a Creta, pois Basil pensa muito e, assim, comete equívocos em relação às condições reais de existência. Isso se refere à cultura. Numa das conversas, Zorba cita um amigo turco, que no entender de Basil, seria totalmente inconcebível. Os gregos teriam sido na história recente inimigos dos turcos. Justamente os turcos, como que estes fossem responsáveis por todo o mal que pudessem acontecer aos gregos. Puro preconceito. Para Zorba nada disso interessa, seja grego, turco ou búlgaro. Não há que odiar ninguém devido as suas diferenças. Zorba tem muito a nos ensinar.
Nesta contradição que é o mundo, nada muito racional, nem o homem se dá conta em dominar a natureza, seja física ou emocional. Quando vem a tristeza, o desmoronar dos castelos de areia diante das ondas, só resta contemporizar. A fim de afastar a amargura, Zorba dança como um louco, aos fundos a música Sirtaki, de Mikis Theodarakis. Muitos teriam dançado esta música nos idos de 64, nos bailes que animavam a cidade e atraiam os jovens. Os jovens não entendiam muito, mas dançavam. Isso bastava. A loucura de Zorba pode ser o momento de maior lucidez: sem palavras, sem pensamento, apenas movimento.
Quanto à viúva, tal qual acontece com o herói grego, deve morrer no final. Assim aconteceu com Aquiles, após a flecha lançado por Paris em seu ponto vulnerável: o calcanhar. A viúva é uma ameaça contra a ordem. Os homens perdem a cabeça e as velhas invejosas ficam incontroláveis. As velhas são bruxas que tem uma função social em nosso mundo. A outra mulher, a francesa, morre ao final, pois os estrangeiros nunca são bem vindos. Nunca terá esta um funeral, pois não professa a religião da ilha, em que todos são ortodoxos.
Lutar contra as condições do mundo pode ser uma luta inglória, pois as atitudes são conservadoras, preconceituosas, afim de que nenhuma mudança seja possível. Pode-se dizer que o estado de conforto seja mais apropriado do que mudar. Mudar para quê, se tudo está bem. Por isso, por este motivo, outros também, Zorba dança! Revoltar-se também não é sabedoria.
Um minotauro é um homem com cabeça de touro, não o contrário. Um homem assim pode ser violento, instintivo, pouco humano, muito mais animal.

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