Um novo tempo já envelhecido

Como seria possível assistir a um filme do final para ao começo, por um erro do projetista, que teria enrolado a fita ao contrário, e não percebido? Assim me sinto nos tempos da incerteza. Outrora, acreditava, não apenas eu, mas outros que viveram na década de 60 em diante. Tempos difíceis aqueles! Havia, no entanto, a crença na Ilustração, da ciência superando todas as formas de superstição da maneira posta por Augusto Comte, aquele da sociologia. Assim, o homem se libertaria do jugo de um passado opressor e num processo de emancipação tornaria o mundo melhor e mais justo.
De certo, uma crise tinha sido também instalada, de um lado o idealismo exagerado que culminaria numa utopia, acalentada pelos românticos e sonhadores. Mas também aparecia uma literatura mórbida, que apontava justamente para o contrário: a distopia. Nesta última categoria apareceram obras notáveis como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, de 1932; “1984”, de George Orwell, de 1949.
Nos tempos de hoje, não se fala mais em utopia, algo ultrapassado, que nem mesmo os partidos políticos mais liberais ousam propagar aos quatro ventos. Estes se tornaram menos liberais e vestiram as roupagens conservadoras. Não se trata de um acontecimento localizado, antes disso, existe além das fronteiras. Isso acontece na Europa em que as fronteiras são fechadas aos refugiados da África, também entre eles mesmos, pondo em questão uma Europa mais una, com as suas diferenças culturais, mas abertos aos avanços e dificuldades na economia. No campo político, prezando a democracia e o bem-estar de todos: brancos, negros e sarracenos.
Se a utopia não é possível, será a distopia a negação de toda vontade de superação? Quando isso a acontece, a própria democracia se torna uma utopia que tende a ser substituída por uma ordem autoritária e aceita como uma condição natural entre os homens. Os homens não são iguais, alguns mandam enquanto resta aos outros obedecer. Na distopia de “1984”, a voz que manda é do “Grande Irmão”, o Big Brother, que se anuncia de maneira impessoal numa espécie de máquina programada. Todos os habitantes são igualmente programados, não se permitindo a inovação ou qualquer tipo de contestação.
Tal distopia foi descrita também por Ray Bradbury, em “Fahrenheit 451”, escrito em 1953; foi levado ao cinema por François Truffaut, de 1966. Tempos da Guerra Fria. A trama se constrói em torno de um bombeiro, Guy Montag, cujo tarefa é descobrir bibliotecas, consideradas um perigo à ordem, e queimar todos os livros. O perigo é ter livros e desenvolver a leitura. Os livros são perigosos, portanto, devem ser queimados. A mesma história teria acontecido em 1933, na Alemanha, meses depois da ascensão de Adolph Hitler na condição de chanceler. Foram queimados livros de autores conhecidos como Freud, Thomas Mann e Erich Maria Remarque. Toda pesquisa de Freud a respeito da psicanálise a descoberta do inconsciente era uma subversão para o novo regime nacionalista, quanto a Mann, também Nobel de literatura de 1929, autor de obras como “Buddenbrooks”, “A Montanha Mágica” e “Morte em Veneza”. É com “Buddenbrooks” que ele ganha o Nobel. De Erich Maria Remarque, temos a obra “Nada de novo no front”, sobre a 1ª. Guerra Mundial e o seu discurso pacifista.
Os livros e seus autores se apresentam como inimigos do regime. Não é de hoje esta história. Uma mais antiga, acontecida lá na antiga China, é relatada por Jorge Luis Borges, no livro Otras Inquisiones, no conto La muralla y los libros. Descreve a existência de um governante chinês chamado Shih Huang Ti, que considerava a si próprio como primeiro imperador, negando tudo aquilo que teria existido anteriormente. Não haveria história antes dele, mas a partir dele. O que ele fez? – Mandou queimar todos os livros. Estes livros falavam de outros imperadores e pensadores ilustres como Confúcio, Lao Tse, Chuang Tzu e, inclusive, o Imperador Amarelo.
Pior ainda, em sua insanidade, mandou construir a Grande Muralha, de 4 mil quilômetros de extensão. Uma muralha para proteger o seu reino da invasão de bárbaros como os mongóis e manchus. Fez a muralha mas nunca conseguir impedir o fluxo da migração em toda Ásia Central. Por ironia, distante de nosso tempo, mas nem tanto: os livros são perigosos pois possibilita a discussão de ideias e o muro separa e antagoniza, os bons e os maus, os brancos e os pretos, o bem e o mal, cristãos e não cristãos, azuis e vermelhos. Neste mundo dividido, quem divide sempre se coloca no lado da luz, os outros, nas sombras.
Não será afinal um filme visto ao contrário?
Em sua contradição, a cultura apresenta situações inesperadas, que num certo momento somente a linguagem será capaz de construir um discurso plausível. Para que isso exista, outras linguagens deverão aparecer com o propósito de se criar um diálogo. Desconfio que o diálogo também deixou de existir. Nesta situação crítica, cabe assumir papeis passíveis e atender as demandas emitidas pelos grupos hegemônicos. Tomara que estes sejam suficientemente ilustrados para que isso aconteça. Seriam partes de uma aristocracia, da maneira entendida por Platão, chamados de reis filósofos. Seria mais uma utopia. Toda utopia é ideológica, mas também a distopia. Nada que existe está isento de ideologia, pois pensamos e criamos sonhos e esperanças.

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