Torneio de Pesca de Robalo de Bertioga – Contribuição à Pesquisa Científica

Por: Sergio Luiz Tutui
A convite dos amigos Jairo Naka e Nelson Nakamura, comecei a acompanhar o Torneio de Pesca de Robalo de Bertioga. Já foram 5 versões monitorando as características das capturas, o que já possibilita algumas considerações.
Mas para isso preciso falar um pouco da Ictiologia ou “o estudo dos peixes”.
A estratégia de sobrevivência das populações é uma constante adaptação ao ambiente. Assim, para uma mesma espécie o tamanho da população e a proporção entre indivíduos de diferentes idades variam constantemente, como forma de manter seu equilíbrio junto à natureza. Então essa estratégia de sobrevivência das populações é uma constante adaptação ao ambiente, principalmente através das suas características reprodutivas e de crescimento, para poder compensar as variações da mortalidade dessa população. Ao estudo da reprodução, do crescimento e mortalidade, suas variações e relações de equilíbrio, chamamos de Dinâmica de Populações.
Nesses estudos, um dos principais indicadores é chamado de fator de condição, que fornece informações relevantes sobre a condição de equilíbrio das populações de peixes. É relativamente fácil de ser obtido, precisando somente de medidas de comprimento e peso dos animais. Ou seja, o fator de condição reflete a proporção do peso do animal em relação ao seu comprimento.
É um importante indicador do grau de bem-estar dos peixes e seu valor reflete as condições nutricionais recentes e/ou gastos das reservas em atividades cíclicas, sendo possível relacionar às condições ambientais e aos aspectos comportamentais das espécies. Este parâmetro é uma ferramenta importante e eficiente para evidenciar mudanças na condição dos peixes ao longo do ano, podendo ser usado para indicar o período reprodutivo, períodos de alterações alimentares e de acúmulo de gordura, assim como mudanças nas condições do ambiente.
Nesses anos observamos que o comprimento médio do robalo-flecha sempre ficou entre 40 e 45 centímetros, com exceção dos anos de 2015 e 2016, quando o comprimento médio dos animais teve uma redução drástica ficando a média inferior a 40 centímetros. Em relação ao robalo-peva essa espécie ficou com comprimento médio constante, em torno de 30 centímetros.
Se, ao analisarmos o comprimento dos animais nós temos pouco a dizer, o inverso ocorre quando olhamos a variação do fator de condição.
A primeira questão a ser observada é que na maioria dos anos, tanto o robalo-flecha, quanto o peva tiveram valores similares, o que é fácil de se entender. O Torneio de Pesca de Robalo de Bertioga sempre ocorre no final de novembro ou início de dezembro, essa época do ano coincide com o período de reprodução dos robalos. Assim, como a população das duas espécies se encontram em condições similares (em reprodução) o fator de condição reflete esse momento, com valores também similares.
Outra questão que é facilmente observada é que nos anos de 2015 e 2016 os valores do fator de condição de ambas as espécies diminuiu, principalmente para o robalo-flecha. O que nos leva à conclusão de que houve uma redução da qualidade do bem-estar dessas populações. Vale lembrar que nesses anos também houve redução do comprimento médio dos robalos-flechas capturados no torneio.
Assim, a partir de medidas simples de comprimento e peso dos animais, podemos dizer que ocorreu algum evento, entre os anos de 2014 e 2016, que impactou negativamente as populações de robalo desse estuário.
É difícil definir o que realmente impactou essas espécies, há várias possibilidades. P. ex., os anos de 2015 e 2016 bateram recordes de quantidades de ressacas, enquanto 2014 foi um ano atípico, com alto índice de inundações costeiras. Em 2014 e 2015 ocorreram grandes incêndios no Porto de Santos, levando a uma grande mortandade de animais, o que pode ter impactado tanto no aumento da mortalidade dos robalos quanto na redução da quantidade de presas para se alimentarem.
De qualquer forma, apesar de somente com estudos mais elaborados e profundos poderemos ter condições de avaliar quais os motivos que impactaram as populações de robalos nesse estuário, essa pequena contribuição dos organizadores do Torneio de Pesca de Robalo de Bertioga demonstra a importância de se manter uma coleta constante de informações sobre a biologia e a pesca dos recursos pesqueiros e como uma série histórica dessas informações simples podem auxiliar na preservação dos peixes e das pescarias.
Por fim não posso deixar de agradecer aos amigos por propiciarem essa parceria com o Instituto de Pesca, possibilitando a obtenção dessas e outras informações cientificas.
Conheça mais sobre o Instituto de Pesca, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, acessando ao site www.pesca.sp.gov.br. Criado em 8 de abril de 1969, desenvolve pesquisas sobre ecossistemas aquáticos; biologia, pesca e aquicultura de organismos marinhos e continentais e tecnologia de processamento de pescados.

Sergio Luiz Tutui – Pesquisador Científico – Instituto de Pesca/ Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Doutor em Zoologia pela UNESP. Especialista em Gestão Pesqueira pelo Instituto de Pesquisa Pesqueira da Provincia de Mie/Japão. Com trabalhos na área de Recursos Pesqueiros, Dinâmica da Atividade e Ecologia de peixes marinhos.

Comentários
Loading...