CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Tokyo Kid de Misora Hibari

Existe algo revelador no filme Tokyo Kid, que os japoneses chamam de Tokyo Kido, de 1949, como a participação de Misora Hibari, aos doze anos exibindo todo o seu talento, para se tornar a maior cantora da alma japonesa de todos os tempos. Neste filme ela canta a música título “Watashi wa machi no ko”, que podemos traduzir como “Sou uma criança da cidade”.
Vamos considerar também o momento em que isso acontece: 1949. A guerra tinha terminado em 1945, com a derrota do Japão diante dos Estados Unidos, e assim começou o período de ocupação do país e sua reestruturação. Havia muita miséria e uma vontade de retomar o crescimento. Nisso, o cinema teve um papel importante na cultura popular, na qual Misora Hibari desempenhou um papel relevante. A mensagem do filme é de esperança em que existem muitos órfãos pelas ruas de Tóquio e uma vida marginal dos cabarés, cafés e casas noturnas.
Misora Hibari faz o papel de Mariko Tanimoto, uma menina que disfarça de menino para fugir do juizado de menores, que desejam entregá-la ao seu verdadeiro pai. Neste filme dirigido por Torajiro Saito, com roteiro de Akira Fushimi e Kihan Nagase, tem como inspiração uma obra mais antiga, de Charles Chaplin, The Kid (O menino), de 1921. O enredo também teria sido em parte inspirado nela. O próprio menino de Tóquio, em sua caracterização, imita as vestes do correspondente americano: um boné enorme na cabeça. Mas existe também alguma coisa exagerada nestas vestes, um enorme remendo na parte de trás das calças.
Não se pode dizer que seja um filme bem feito, nos detalhes, mas vale pela interpretação de Misora Hibari. As canções são apropriadas e belas para a época. São sentimentais, contando a história dos órfãos e dificuldades da vida carente de condições materiais e principalmente do apoio de uma família devidamente organizada. Enquanto isso, o que se passa diante de nós são cenas de um mundo em nível de pobreza e uma decadência moral, pelas ruelas sujas, vilas escuras e úmidas, casas construídas em cortiços em que qualquer intimidade deixou de existir. Seria esta a Tóquio em 1949, ainda carente de condições para a recuperação. Mas para vencer o tédio, e principalmente, a falta de esperança, a diversão da população seria justamente o cinema e seus heróis capazes de produzir uma ilusão temporária.
De alguma forma, o modelo de vida desejada nestes tempos duros era o dos Estados Unidos, cujo menção acontece em inúmeros momentos. O próprio pai de Mariko teria abandonado a filha e a esposa ido em direção à América, considerado um lugar próspero. Não existe de fato um sentimento de aversão pelo país que causou a derrota do Japão, pelo contrário, a derrota tinha que ser esquecida, sem nenhum rancor, e aliás, imitada. Diferentemente dos filmes da fase anterior da guerra, agora, o próprio vestuário nada lembra os antigos quimonos e penteados à moda tradicional. Todos usam calça e camisas esportivas, também ternos como nos filmes americanos.
A produção para filmes populares, talvez os únicos viáveis, para encher as salas de exibição, com ingressos cobrados com preços módicos não exigia uma soma alta. Na maior parte, são imagens de estúdios, com cenários um tanto toscos. O que chega a causar um incômodo é a entrada de Mariko, lembremos que ela tem apenas doze anos, em locais inapropriados como salões em que os homens buscam momentos de prazer passageiro na companhia de mulheres profissionalmente indicadas para o atendimento. No filme do ano anterior, Kanashiki kuchi fue (Um assobio triste), Misora Hibari se apresenta no final do filme num lugar destes e vestindo um smoking e uma cartola. Esta cena poderia ter passado despercebido dos olhares do público, mas não dos críticos. Isso poderia ser considerado apenas uma cena, totalmente fictícia, mas ao mesmo tempo provocativa demais para uma sociedade conservadora.
Os filmes de Misora Hibari tinham a proteção de um membro do clã Yamaguchi, que se consolidava no poder paralelo, de um submundo em que explorava atividades ligadas às lutas livres, uma paixão popular, também o boxe, o sumô, e também o cinema e a produção de espetáculos de música. Tratava-se de Kazuo Taoka, que dava início à empresa Kobe Geinosai e cuidava da carreira de Misora Hibari.
São vários os fatores para que o fenômeno Misora Hibari esteja acontecendo justamente neste período. Mas o mais importante foi o fato de servir para apaziguar as dores de um período de sofrimento. Em toda a sua carreira, Hibari teria feito em torno de 160 filmes, de 1949 a 1971. Podemos dizer que na arte do cinema e da música, seja também do modo de vida dos japoneses, da passagem do antigo para o moderno, Misora Hibari tem uma participação significativa. Teria ela facilitado esta passagem? Não se sabe direito. Mas sabemos que ela teria participado desta passagem com todos. Outros filmes foram realizados por ela neste período, mas para a minha apreciação, considero Kanashiki kuchi fue e Tokyo Kido os de melhor significado no campo da história japonesa do pós-guerra.
O título Tokyo Kid teria sido usado pelos americanos, com uma imagem assustadora, no período da guerra, justamente para criar uma propaganda negativa dos japoneses. Foi este, no entanto, o nome usado para caracterizar os órfãos da guerra, numa Tóquio destruída, como nos Estados Unidos do pós-guerra de 1914 a 1918 conforme Charles Chaplin.

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