Setenta anos

É, meu amigo, a coisa aqui tá preta. Mas fique tranquilo, não vou desfiar rosário nenhum. Não vale a pena. E também para quê? Caso lhe falasse algo, você simplesmente diria que nada disso lhe pertence. A cidade e seus habitantes que fiquem com suas encrencas. Você se encheu daqui. Vendeu tudo e se foi. Assim como você, tantos outros.

Estive aí em sua cidade. Seco agosto passado. A cidade verde dos meus anos de trabalho se apresentava marrom, empoeirada, suja. Lá na praça do coreto, os velhos jogadores de bocha eram desânimo total. Um deles se aproximou. Você sabe como sou. Não deixei escapar a oportunidade. Tratei logo de puxar conversa.          Mas o homem estava tão desencantado como eu, não demorou muito e foi logo perguntando que raios de passeio era esse, naquela cidade tão horrorosa? Foi logo emendando, eu devia estar imaginando a mesma cidade daqueles tempos que mencionei, quando costumava ficar na região por alguns dias a trabalho. Aqueles sim, eram bons tempos. E daí em diante foi me falando dos vários episódios acontecidos na cidade. Claro. Só vivendo ali para saber daquelas coisas que ele falava. Os jornais da capital não contavam em detalhes. Aliás, quem é que perde tempo lendo jornais? Melhor não. Tentei mudar o rumo da conversa, perguntei-lhe se sabia onde ficava o bairro Colina Verde. Ele me explicou a direção e como deveria fazer para chegar ao bairro. Em seguida, passou a me relatar a história do lugar e das pessoas que ali viviam quando tudo pertencia a uma única família. A tarde começou a cair, as pessoas foram se juntando um pouco adiante. Era hora de me reunir ao grupo. Achei uma pena ter que me despedir daquele homem tão cheio de assuntos. Já um pouco afastado, ele ainda se voltou para mim para dizer que apesar da cidade estar feia e suja daquele jeito, o passeio com o grupo seria bom, eu iria ficar satisfeita com o restante do passeio. Em voz bem alta, saiu dizendo, sorte a deles, nativos, que conheci a cidade em tempos melhores.

Pois é, meu amigo, de noite, logo depois do jantar, tentei lhe falar. Ainda era cedo. Quem sabe, eu ainda pudesse visitá-lo na Colina Verde. Vã esperança. Seu humor estava péssimo. Achou ruim eu aparecer na cidade sem lhe avisar com antecedência. É claro que acabei não conhecendo a tal da Colina Verde. Mas tudo bem.

A vida anda, né!? O passeio que eu desejava fazer desde a época em que meu pai era vivo, finalmente fiz e foi muito bom. Pena que o pai já não vive. Deixar de conhecer a Colina Verde dos dias secos daquele agosto foi apenas um detalhe.

Primavera chegou, verão também já se foi. Estou às voltas com as eternas e intermináveis arrumações de gaveta e encontro uma de suas velhas aquarelas. Por um tempo ela ficou emoldurada. Já nem me lembro porque ela deixou a moldura e hoje é mais um papel dentro da gaveta em meio a tantos outros papéis.

E hoje, quase final de mês, é seu aniversário. Eu lhe desejo toda a felicidade que te cabe.

 

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