Restaurado, ‘Bonde Japonês’ é a nova atração turística de Santos

(Aldo Shiguti)

Uma grande festa, com direito ao Jya Odori e a presença de uma comitiva da Associação Nagasaki Kenjinkai do Brasil – liderada pelo presidente Hiroshi Kawazoe –, marcou, no último dia 5, a entrega do bonde doado pela cidade de Nagasaki à cidade de Santos. A cerimônia de apresentação do veículo fez parte das comemorações do 1º Festival do Imigrante, organizado pela Secretaria Municipal de Turismo (Setur) e que reuniu atrações de 11 países no bairro de Valongo, no Centro Histórico de Santos.
Com capacidade para 28 passageiros, o veículo passa a integrar o circuito dos bondes, que já conta com exemplares de Portugal, Escócia e Itália, sendo ao longo últimos 19 anos uma das principais atrações turísticas do Centro Histórico de Santos.
Em entrevista ao Jornal Nippak, o secretário municipal de Turismo de Santos, Odair Gonzalez, disse que, hoje, o passeio de bonde é a atração mais procurada pelos turistas. “Para se ter uma ideia, no ano passado, o Museu Pelé recebeu cerca de 45 mil pessoas enquanto 300 mil turistas passaram pelo circuito dos bondes”, disse o secretário, revelando que a ideia é criar um roteiro temático para o “bonde japonês” – como ficou conhecido o meio de transporte doado por Nagasaki. Uma das propostas é fazer uma parceria com o restaurante Estrela de Ouro e criar um percurso dedicado à gastronomia japonesa todas as sextas-feiras.
Por enquanto o bonde percorrerá os dois trajetos da Linha Turística, que passam por cerca de 40 pontos de interesse histórico e cultural, sempre com saída da Estação do Valongo. São 5 km no Centro Histórico em cerca de 40 minutos, em roteiro monitorado por guia de turismo. O passeio custa R$ 7,00.

Cerimônia fez parte do 1º Festival do Imigrante (Aldo Shiguti)

Para o secretário, além de passageiros, o bonde japonês também transporta uma “mensagem de paz”. “Nagasaki foi praticamente destruída pela bomba e nesse momento que recebemos o bonde nós procuramos mostrar a harmonia que existe entre os dois países e reverenciar o povo japonês porque Santos foi o ponto de entrada de quase todos os imigrantes que hoje estão no Brasil, perto de 2 milhões de pessoas. E o navio Kasato Maru, que desembracou no início do século passado, em 1908, com os primeiros 781 imigrantes japoneses, atracou justamente aqui, nesse local, no bairro Valongo. Então, tudo isso para nós é muito simbólico porque representa a união do povo brasileiro com o povo japonês, o congraçamento e a manifestação de paz expressa pelo governo japonês quando ele doa um bonde de uma cidade que foi devastada pela guerra num momento que nós também desejamos passar esta mensagem para o mundo”, explicou Gonzalez, afirmando que a entrega era para ter ocorrido em julho, mas foi adiada por causa de imprevistos.
O certo é que a vinda do bonde envolveu uma operação complexa como bem lembrou o prefeito de Nagasaki, Tomihisa Taue em mensagem enviada especialmente para a ocasião e lida por Kawazoe durante a cerimônia.

Percalços – O prefeito parabenizou a conclusão “bem-sucedida” restauração do bonde, uma história que teve início em 2012, quando o acordo de irmandade entre as duas cidades completou 40 anos. “Após vários percalços, o bonde foi entregue em 2016 e finalmente chegou o dia para entrar em operação”, destacou o prefeito de Nagasaki, acrescentando que o bonde doado à cidade de Santos foi construído 1950 e serviu Nagasaki por cerca de 60 anos, ajudando na reconstrução da cidade japonesa no período do pós-guerra.
“Agora, espero que seja atrativo em prol da cidade de Santos e dos muito turistas que visitam a cidade. Graças aos esforços de muitas pessoas, as relações entre Santos e Nagasaki estão se intensificando cada vez mais”, finalizou o prefeito, que desejou sucesso e grandes realizações.

Restauro – O processo de restauro foi além dos serviços manuais feitos por profissionais de marcenaria, carpintaria, elétrica e mecânica das oficinas da Companhia de Engenharia de Trânsito de Santos, na Vila Mathias, e garagem do Valongo. Incluiu também pesquisa histórica sobre o local de origem do veículo, as técnicas de engenharia e construção, a cultura, tradições e costumes do povo japonês.
Para realizar as adaptações, várias frentes trabalharam simultaneamente ao longo dos últimos três anos. Na garagem do Valongo, uma parte da equipe se encarregou da substituição do sistema de captação da corrente elétrica, para que o modelo japonês possa utilizar a rede local – a mesma dos trólebus e que também serve à linha turística do Centro. O grupo de profissionais cuidou, ainda, dos reparos na chaparia (laterais).
Outra frente, esta terceirizada (empresa contratada via licitação), preparou a redução da bitola para adaptá-la aos trilhos existentes na cidade e na substituição dos quatro eixos do veículo para preservação das rodas originais do elétrico vindo de Nagasaki. Nem mesmo a comunicação visual foi esquecida, com reproduções no interior do veículo alusivas ao período em que rodava na cidade japonesa.

O engenheiro Marcos Rogério Nascimento dificuldade da língua (Aldo Shiguti)

Responsável pela restauração dos bondes, o engenheiro Marcos Rogério Nascimento explicou ao Jornal Nippak que, “no caso do bonde japonês, a operação foi um pouco mais complexa porque a língua foi o principal problema, até para entender a lógica do projeto”.
“Começamos o trabalho em 2016, de forma bem incipiente. Inicialmete foi feito levantamentos técnicos e depois fomos em busca do processo financeiro, porque Santos tem uma distância entre trilhos, que a gente chama de bitola, única no mundo e a bitola do bonde de Nagasaki é a bitola estander. Então nós tivemos que fazer uma adaptação, o pior processo que nós temos que fazer de restauro. Sem essa adaptação, o bonde não opera na nossa linha. Então nós tivemos que verificar quanto ele iria custar porque teríamos que ir atras de recusos. Esse foi o problema porque houve uma demora para captação dos recusos financeiros. Quando nós conseguimos os recursos, entra num processo burocrático do Brasil, que é necessário um processo de compra longo e aí foi atrasando todo o processo de restauração”, explicou, afirmando que, “o processo em si, de restauro, quando os equipamentos voltaram para nós já adaptados, foram seis meses de trabalhos ininterruptos”.

Comunicação – “Então o processo começa em 2016, de forma incipiente, para ser executada realmente num periodo de seis meses”, resumiu, acrescentando que houve também o resgate da parte da comunicação original. “Foi feito uma pesquisa histórica e nosso conceito de restauração é baseda em três elementos: engenharia, história e cultura. No caso, nós tivemos que pegar a parte de engenharia, que signifca adaptar a parte todinha em relação ao nosso trilho, a parte da história, ou seja, resgatar a identidade do bonde de Nagasaki – quem era esse bonde, que ano foi fabricado e as características técnicas desse equipamento – e ai sim colocar cultura no meio, isto é, a relação Brasil-Japão, a relação Santos-Nagasaki, cidades irmãs. Todo esse conceitro foi desenvolvido com uma linguagem toda especial para ele. Ao mesmo tempo que a pessoa consegue ter a sensação de Nagasaki, porque o bonde preserva 100% dos elmentos originais”, destacou Nascimento.

Hiroshi Kawazoe com prefeito e autoridades (Aldo Shiguti)

O prefeito Paulo Alexandre Barbosa lembrou que o bonde japonês é “o 13º bonde da nossa linha turística e, certamente, vai contribuir muito para desenvolvimento do turismo em Santos”. “Este bonde representa também o fortalecimento dos vínculos entre Santos e Nagasaki, que há 47 anos são cidades-irmãs”, declarou Barbosa, acrescentando que a cidade de Santos recebe “gente de todo mundo”. “Foram justamente essas pessoas destas comunidades que ajudaram a construir a cidade que nós temos hoje. E a comunidade japonesa tem um grande papel de liderança na nossa cidade com o trabalho que é feito pela Associação Japonesa de Santos”, disse o prefeito, lembrando que Santos “já tem bondes da Itália, de Portugal, da Espanha, do Reino Unido, da Grécia”. Faltava esse bonde”, disse, referindo ao “bonde japonês”.

Com cerca de 20 metros e pesando 100 quilos, dragão de Nagasaki abriu caminho para o bonde (Aldo Shiguti)

Dança japonesa – A entrega do bonde,foi marcada também por apresentações da Associação Nagasaki. Além da dança do dragão, foram aporesentadas as danças Gujo Odori, Nagasaki Fujinbu e Brasil Ondo, e de São Vicente, o Grupo Taiko Kyowa Daiko.
(Aldo Shiguti, com Prefeitura Municipal de Santos)

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