Renato Ishikawa quer trabalhar em harmonia com os Bunkyos regionais

(Jiro Mochizuki)
(Jiro Mochizuki)

Considerada a principal entidade representativa da comunidade nikkei, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – Bunkyo – está “sob nova direção”. Conforme antecipou o Jornal Nippak, a chapa Harmonia e Progresso, encabeçada pelo empresário e também presidente do Hospital Santa Cruz – outro grande símbolo da comunidade japonesa – Renato Ishikawa, de 80 anos, foi eleita por aclamação pelos 65 conselheiros – sendo 48 presentes e 17 por procuração – que participaram da 156ª Reunião Ordinária do Conselho Deliberativo da entidade realizada na manhã do sábado passado (27), no primeiro andar do Edifício Bunkyo, no bairro da Liberdade, em São Paulo.
Na oportunidade, também foram empossados os dirigentes do Conselho Deliberativo – presidido por André Koroseu, da Associação Pró-Excepcionais Kodomo-no-Sono – e os membros do Conselho Fiscal.
O anúncio da eleição, que teve chapa única, foi feito pelo presidente da Comissão Eleitoral, Nelson Miyahara, por volta das 10h30. Antes, foram apresentados e aprovados o Relatório de Atividades, Balanço Patrimonial e Demonstrações Financeiras da Diretoria.

Renato Ishikawa com membros da diretoria, do Conselho Deliberativo e do Conselho Fiscal (Jiro Mochizuki)
Renato Ishikawa com membros da diretoria, do Conselho Deliberativo e do Conselho Fiscal (Jiro Mochizuki)

Em seu último discurso ainda como presidente do Bunkyo, Harumi Goya, que ficou dois mandatos no cargo – agradeceu o apoio que recebeu de uma “numerosa equipe de colaboradores comprometida com a entidade”.
“Há exatamente quatro anos, quando fui eleita para ocupar a presidência do Bunkyo, o fato de ser mulher chamou a atenção de todos, afinal a direção desta entidade foi exclusivamente masculina.
Posso dizer que os homens se comportaram bem, senti em todos eles uma atitude positiva para unir esforços em prol da entidade”, disse Harumi, acrescentando que “esses anos frente à diretoria do Bunkyo foram uma experiência inesquecível, que certamente marcará o resto de minha vida”.

Toque feminino – Em relação ao tradicional “toque feminino”, ela explicou que “uma das medidas foi realizar uma série de mudanças nas instalações do prédio e do escritório da entidade visando melhorar o fluxo das energias do ambiente e torná-lo mais aconchegante aos funcionários e público em geral”.
E destacou algumas das que considerou significativas, organizando-as em três itens básicos, classificando-as como “ações internas”, “obras” e “atuação coletiva”. Lembrou que, “apesar de as duas gestões transcorrerem num período de crise político-econômica, os diretores, apoiados pelos voluntários de cada uma das comissões, conseguiram dar continuidade às atividades planejadas”.
Como exemplo, citou a adoção, desde 2014, do sistema de Comitês, visando otimizar a atuação de cada uma das 34 comissões. Segundo elam foram estabelecidos três comitês: Administrativo, Cultural-Social e, o terceiro, Relacionamento, que passaram a reunir as comissões afins.
“Em 2016, aprovou-se a adoção de um novo comitê, o dos Jovens, que, além da Comissão de Jovens incluiu em suas atividades o Bunka Matsuri e o FIB – Fórum de Integração Bunkyo – e mais recentemente o Cursos e Palestras. Acreditamos que a atuação desse comitê trará frutos preciosos para o fortalecimento do futuro da entidade”, observou, afirmando que “esses quatro anos foram marcados por uma situação financeira cada vez mais preocupante”.
“Sem ativos para vender e socorrer o caixa, foi necessário recorrer à boa vontade dos amigos apoiadores da entidade”, revelou Harumi.

Crise – Disse ainda que, durante 2017, a Comissão de Planejamento Estratégico, liderada por Henrique Nakagaki e assessorada por Camilo Shimabukuro, empreendeu um “profundo e abrangente” estudo e análise da situação global da entidade e que, entre as diferentes alternativas propostas, uma delas foi assumida pela diretoria: aumentar o número de associados pessoas física e estabelecer nova classificação de contribuições buscando melhorar o aporte financeiro para a entidade.
“Certamente, a atividade de locação dos espaços para eventos continua sendo essencial para a manutenção da entidade. Mas, numa época de crise que estamos vivendo, a procura por esses espaços tem sido baixa. Ao mesmo tempo, nem todos os eventos promovidos pelas comissões têm obtido bons resultados financeiros. Foi o momento de buscar os associados e argumentar sobre a importância e o significado de garantir a manutenção de uma entidade como o Bunkyo”, justificou. De acordo com Harumi, os resultados obtidos nesta primeira fase “nos deixou bastante animados e consideramos esta iniciativa como legado para as próximas gestões”.
Ainda nesse tema de “ações internas”, ressaltou a mudança do responsável pela condução do processo do INSS, sob responsabilidade agora do advogado Marcelo Moleiro, membro da Comissão Jurídica, “cujos resultados finais têm se mostrado animadores”.

Pavilhão – Também citou, como campanha vitoriosa, a obtenção, em 2017, do AVCB – Auto de Verificação do Corpo de Bombeiro – que reconhece a segurança das instalações da entidade, permitindo sua ocupação bem como a realização de eventos no local.
No item das “ações internas”, destacou ainda a revitalização de várias atividades desenvolvidas por diferentes comissões como a Feira de Livros Usados, que nas últimas edições tem chegado a cerca de 800 visitantes, com considerável presença de não-descendentes de japoneses, e o Bunkyo Cinema, que retornou às atividades em outubro de 2017 graças à parceria com a Fundação Japão e o apoio da Panasonic.
Em relação ao capítulo obras, lembrou a restauração do Pavilhão Japonês, cuja atividade foi incluída na programação oficial comemorativa dos 120 Anos do Tratado de Amizade Brasil-Japão, e o Espaço Cultural Bunkyo, no subsolo da entidade. Orçado em dois milhões de reais, o local possui cerca de 1.800 m², e deverá sediar uma série de atividades culturais, além de área expositiva do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil.
“As obras estão em fase final de acabamento, mas quero destacar que, nesse local, o Espaço Gastronômico está em condições de uso, com todos os equipamentos já instalados. Estivemos realizando atividades de confraternização dos funcionários e considero que poderia vir a ser ocupado por atividades de ensino de culinária, que foi o objetivo quando projetamos esse setor”, disse Harumi, que enalteceu também as obras de revitalização do espaço expositivo do Museu Histórico e os resultados conquistados pela Comissão para Comemoração dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, que culminaram com a cerimônia oficial com a presença da princesa Mako e numerosas autoridades japonesas e brasileiras.

Ishikawa, Harumi, Kita, Kokei, Watanabe, Yamashita e Korosue (Jiro Mochizuki)
Ishikawa, Harumi, Kita, Kokei, Watanabe, Yamashita e Korosue (Jiro Mochizuki)

Godantai – “Além de prestar as justas homenagens aos nossos pioneiros, também foi possível arrecadar recursos destinados às obras da primeira fase do Projeto de Sustentabilidade do Centro Kokushikan, em São Roque (SP)”, disse, referindo-se ao legado idealizado pela Comissão 110 Anos, cujo objetivo é beneficiar tanto a comunidade nikkei como a sociedade brasileira.
Harumi Goya encerrou sua saudação destacando a importância do fortalecimento das atividades conjuntas do chamado “godantai”, ou seja, as cinco entidades: Bunkyo, Enkyo, Kenren, Câmara de Comércio e Aliança Cultural.
“Cada entidade tem sua missão própria, mas acredito que existem eventos que podem ser realizados em conjunto, estabelecendo-se uma sinergia capaz de dar maior abrangência a cada uma das realizações. Nesse sentido, podemos citar a bem-sucedida comemoração dos 110 anos da imigração japonesa. Ou ainda, o evento realizado no dia 30 de abril em comemoração à passagem para a Era Reiwa no Japão”, finalizou Harumi.

Férias – Na segunda-feira, 29, dois dias depois de deixar o cargo, ela aditiu que ainda estava se acostumando com a ideia de ser chamada de “ex-presidente”. Além de agradecer o apoio que recebeu de diferentes locais, entidades, empresas, pessoas, amigos e das entidades e representantes do interior paulista e de outros estados, Harumi fez um agradecimento especial à Diretoria Executiva e aos diretgores sem pasta que “me deram total apoio para que pudesse exercer minha função com dignidade”.
“Queiram ou não, fizemos tudo que estava ao nosso alcance pensando sempre no melhor para a comunidade e para a sociedade brasileira”, disse Harumi, confidenciando que, além da sensação de dever cumprido, também está se sentindo “mais leve”.
“Agora, pretendo tirar férias de verdade”, garantiu, afirmando que uma das coisas que a incomodava no cargo era o fato de não ter tempo para descansar. “Era de segunda a segunda. A gente sente falta dessa interrupção nos fins de semana”, afirmou.

Renato Ishikawa Diálogo e transparência (Jiro Mochizuki)
Renato Ishikawa Diálogo e transparência (Jiro Mochizuki)

Inexplicável – Uma, se despedindo, com sensação de alívio, e o outro ainda tentando explicar o motivo de ter aceito o desafio. Empresário bem-sucedido – preside também a construtora e incorporadora CNL Empreendimentos Imobiliários e é dono da Fazenda Aliança, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, onde, entre outras coisas, cultiva café gourmet de “primeira qualidade”, Renato Ishikawa conta que aceitou assumir a presidência do Bunkyo “nessas alturas do campeonato” não por vaidade, mas por algo que nem ele mesmo consegue explicar.
“É uma questão de foro íntimo de cada um. É uma vontade de ser útil à sociedade, retribuindo tudo que consegui. Ficarei feliz se puder contribuir para preservar essa cultura para as futuras gerações”, disse o novo presidente, afirmando que teve que convencer sua esposa, dona Olga.
Indagado pela reportagem do Jornal Nippak logo após ser anunciado como n ovo presidente do Bunkyo qual seria sua primeira medida à frente da entidade, Ishikawa disse que pretende convocar uma reunião nos próximos dias com todos os diretores para traçar um objetivo “pelo menos para este ano”.
“Gostaria que cada um dos sete vice-presidentes ficassem com uma responsabilidade principal. Claro que nós vamos trabalhar como um time, mas cada vice-presidente irá contribuir dentro de sua área, onde é mais forte”, disse Ishikawa, revelando que, até setembro continuará dividindo sua agenda entre o Hospital Santa Cruz e o Bunkyo. A ideia é dar expediente no HSC pelo menos uma vez por semana, “mas a prioridade agora será o Bunkyo”. “Até lá [setembro] quero estar no Bunkyo pelo menos dois dias em período integral”, disse ele, lembrando que, assim que assumiu o HSC, em 2012, o hospital enfrentava uma série crise. “Passei os dois primeiros anos trabalhando forte. E é isso que precisamos fazer também no Bunkyo”, antecipou, explicando que sua gestão será marcada por “muito diálolgo” e uma “administração transparente”.

Recursos – “Assumir a presidência do Bunkyo é uma responsabilidade muito grande porque não conheço a entidade. Sei que o Bunkyo não é uma empresa. Conheço bem uma empresa, mas vou trazer para o Bunkyo muito – ou bastante – o conceito de admistrar uma empresa porque, no fundo, no fundo, tudo é questão de recursos. Se não tivermos recursos, não podemos fazer melhorias nem buscar inovações. Acredito que o primeiro passo é buscar uma forma de equacionar financeiramente. Não sei ainda como vamos fazer, mas acredito se você fizer um trabalho bem feito, transparente, terá adesão de outras pessoas. No fundo nós temos que ter alguma fonte de recursos que garanta as operações do Bunkyo, um custo operacional fixo. Os eventos virão depois. No HSC foi a mesma coisa. Quando viram que a administração era boa, os investimentos começaram surgir. Para isso, credibilidade é fundamental”, explicou Ishikawa, afirmando que também pretende conversar com todos os Bunkyos regionais.

Renato Ishikawa com a nova Diretoria Executiva do Bunkyo (Jiro Mochizuki)
Renato Ishikawa com a nova Diretoria Executiva do Bunkyo (Jiro Mochizuki)

Afastados – “Já comecei a viajar o interior paulista. A próxima parada será São Gotardo, em Minas Gerais, com o Bunkyo Rural. Depois tenho programação para Ribeirão Preto e Adamantina e em setembro devo ir para Belém, no Pará, para participar das comemorações do 90 anos da imigração japonesa na região. Acredito muito que, num primeiro momento, você tem que ir, depois pedir para que eles venham. Também estamos programando chamar os Bunkyos Regionais para participar do Festival do Japão em julho”, disse o novo presidente, esclarecendo que em suas primeiras incursões, sentiu os Bunkyos dos interior “afastados”.

Jovens – “Os comentários são parecidos, de que o Bunkyo não vai até eles e que eles não são valorizados. Pretendo quebrar isso e trazê-los para participarem porque, na realidade o Bunkyo tem que ser uma coisa só”, disse Ishikawa, afirmando que também pretende trabalhar com as principais entidades nikkeis, como o Kenren e a Acal, além de órgãos governamentais japoneses e brasileiros. Outra preocupação é estimular a participação dos jovens e para isso, quer contar com apoio de entidades como a JCI Brasil-Japão, da qual já está próximo.
Além do “núcleo” formado por sete vice-presidentesm secretário geral e tesoureiro, Renato Ishikawa conta que tem mais uns 15 nomes que ainda serão definidos para os cargos de diretores. Os nomes, explica, serão os que já orbitam na entidade. “Não vou trazer pessoas de fora”, garante, afirmando que também leva em consideração o fato de o Bunkyo ser uma entidade que conta, e muito, com a ajuda de voluntários.

Pragmático – Renato Ishikawa, que se considera “pragmático”, é da opinião que “sem autonomia você não trabalha”. “Claro que vou respeitar estatuto, a consituição e a opinião de todos, mas tenho que avaliar as coisas para decidir”, disse, afirmando que isso não signifca um “rompimento” com uma estrutura já existemte. “Vou dar continuidade ao trabalho que já vem sendo feito. O meio, talvez, seja um pouco diferente, mas o objetivo é o mesmo”, garantiu.

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