‘Rei da Cebolinha’, Walter Saito fala sobre empreendedorismo, carreira e trabalho voluntário

Walter Saito na Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil em evento da JCI Brasil-Japão
Walter Saito na Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil em evento da JCI Brasil-Japão

Empreendedor de sucesso no Japão – onde é chamado de “O Rei da Cebolinha” –, Walter Toshio Saito “brindou” o público brasileiro, em especial o paulista, com duas apresentações em São Paulo nos dias 7 e 8 deste mês. O primeiro encontro foi um bate-papo realizado pela JCI Brasil-Japão, no dia 7, na Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil e que contou com a presença do presidente do Hospital Santa Cruz, Renato Ishikawa, além de membros da organização.

A segunda apresentação aconteceu no dia seguinte, no Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) em evento coordenado pela Comissão do Bunkyo Rural, Comissão Empresarial, Comissão do Prêmio Kiyoshi Yamamoto e Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate) e que reuniu cerca de 50 pessoas. No dia 10 ele também esteve na 25ª Festa da Dália, em Suzano, onde partipou de outro bate papo.

Mais do que suas técnicas de cultivo de cebolinha e mandioca, chamou a atenção sua trajetória e vivência no Japão, além do trabalho voluntário que desenvolve. Chamou tanto a atenção que fez com que o recém-empossado presidente da Associação Nipo Brasileira de Goiás (ANBG), o advogado Marco Túlio Toguchi saísse de Goiânia epecialmente para assistiir a palestra no Bunkyo.

“Conheci o Walter Saito no Japão, em fevereiro deste ano, durante minha participação no programa de intercâmbio ‘Juntos’, criado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão e que reuniu representantes nikkeis de nove países diferentes com temática voltada para a assistência a nikkeis”, conta Toguchi, lembrando que uma das atividades envolveu justamente uma visita a Toshio Saito, em Saitama.

“Ele é um exemplo de sucesso no Japão e serve de inspiração para todos nós”, disse Toguchi.

O engenheiro agrônomo e presidente da Comissão do Prêmio Kiyoshi Yamamoto, Kunio Nagai, não precisou vir de tão longe, mas igualmente considerou a palestra “muito produtiva”. “Isto mostra que, para a agricultura dar lucro, é preciso ter uma visão empresarial. Ou seja, ele fez sucesso numa área que não tinha experiência justamente porque não tinha vícios. Ele buscou alternativas”, disse Nagai.

 

Negócios – A vida de Walter Saito poderia ser idêntica a de muitos brasileiros que se arriscam no Japão. Natural de Terra Boa (PR), Toshio Saito foi para o Japão em 1990 e encontrou na agricultura uma oportunidade. Após trabalhar durante cinco anos como operário, montou uma empresa de recrutamento de mão de obra terceirizada voltada para atender a comunidade brasileira no Japão. Mas em 2008 viu seu empreendimento ruir em consequência daquela que foi considerada a pior crise enfrentada pelo Japão desde a Segunda Guerra Mundial.

Foi então que decidiu apostar na produção de legumes, verduras e hortaliças na cidade de Kamisato, na província dse Saitama. Em menos de 10 anos, sua empresa, com mais de 40 hectares plantados, se tornou a maior produtora de cebolinha da província, o que lhe garantiu o título de “rei da cebolinha” – colhe atualmente de 7 a 8 toneladas /dia.

Mantém ainda outros negócios, como o Instituto Educacional Ts Recreação, escola para brasileiros residentes no Japão, o TS Sport Center (centro esportivo) e imobiliária, além da Fundação TS, que mantém um programa de bolsa de estudos para estrangeiros, entre outros empreendimentos

A Fundação TS é, segundo ele, uma forma de retribuir tudo o que conquistou no Japão. “Se cheguei onde cheguei foi graças a ajuda dos meus conterrâneos”, explica Toshio Saito, que prefere usar o termo “filhos de brasileiros” ao invés de “dekasseguis”.

 

Vaidade – Para ele, algumas regras são essenciais para alcançar o sucesso: “honestidade”, “confiança” e “ser o número 1”.  “Vaidoso”, conta que, se sentir bonito contribui para aumentar a autoestima. “Melhorando a minha autoestima, o meu potencial vai crescer, diz ele, afirmando que também é persistente. “Quando coloco alguma coisa na cabeça, vou até o final”, ensina Toshio Saito, lembrando que, antes de ser conhecido como o “rei da cebolinha”, tentou outros cultivos, como brócolis e acelga. “Mas sempre indo até o final do ciclo”, destaca o paranaense, que também está conquistando espaço com produção de mandioca que, segundo ele, “caiu no paladar do japonês.

Ao Jornal Nippak, disse que sentiu um interesse muito grande por parte do público brasileiro e recebeu muitos elogios. Explica que gosta de fugir das palestras convencionais e tenta mexer com o público. “O maior orgulho que terei, no entanto, é se a minha palestra servir de exemplo e incentivo para que as pessoas possam ser iguais ou melhores que eu”, diz Toshio Saito, que, na época da tragédia de 2011 conseguiu arrecadar três toneladas de arroz e levou para a região afetada pelo “tsunami” e terremoto.

“No dia seguinte, quando acordei, só via água e mais água. Não via pessoas”, lembra, afirmando que uma das cenas que mais o comoveu foi o de crianças remexendo nos destroços em busca de alimentos. Jamais imaginou que o Japão, sendo um país tão rico, pudesse chegar a tal situação. Viu, naquele momento, uma oportunidade de retribuir sua gratidão. Ligou para o governo da província de Miyagui e foi informado que a doação de arroz seria bem-vinda.

No mesmo dia, conseguiu mobilizar amigos da região e arrecadou três toneladas de arroz. Para transportar o produto, o único meio de transporte disponível, com pneus adequados para enfrentar a neve, era o ônibus que usava para transportar seus funcionários. Não teve dúvidas. Tirou os bancos e seguiu viagem.

 

Ônibus de Deus – No caminho, com o combustível racionado, contou o apoio e solidariedade de donos de postos de gaoslina. Chegou ainda no domingo ao seu destino. “Fui a primeira pessoa de fora a chegar com ajuda”, disse,  lembrando que fez um caminho diferente, indo para Saitama e depois para Niigata até cruzar as montanhas em direção a Miyagui. Demorou entre 13 e 14 horas quando normalmente faria o mesmo percurso entre 3 e 4 horas.

Seu ato – ajudou também a transportar pessoas – lhe rendeu um documentário na televisão japonesa, em rede nacional, cujo título da reportagem, com uma hora de duração, era “O ônibus de Deus”. “Fiz sem pensar em retorno, mas quando você faz o bem parece que alguém lá em cima está olhando”, diz Toshio Saito, que retorna no próximo dia 24 para o Japão.

(Aldo Shiguti)

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