‘Precisamos buscar o protagonismo no cenário político’, diz Renato Ishikawa durante 2º Simpósio

Renato Ishikawa: “É bobagem falar que nikkei não vota em político nikkei” (Jiro Mochizuki)
Renato Ishikawa: “É bobagem falar que nikkei não vota em político nikkei” (Jiro Mochizuki)

Realizado último dia 14, no Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), o 2º Simpósio “Movimento Político Nikkei” apresentou como novidade as palestras com o cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi; o presidente do Kenren, Yasuo Yamada, e o presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Renato Ishikawa.
Idealizado pelo “sempre deputado” Hatiro Shimomoto com o intuito de valorizar os políticos nikkeis e as entidadades nipo-brasileiras, a segunda edição contou com a participação do deputado estadual Paulo Nishikawa (PSL) e do ex-deputado estadual Hélio Nishimoto (PSDB), que esteve acompanhado de sua esposa, Edneia. O vereador Aurélio Nomura (PSDB) também esteve presente, mas teve que se retirar por causa de compromissos assumidos anteriormente.

Hatiro Shimomoto (Jiro Mochizuki)
Hatiro Shimomoto (Jiro Mochizuki)

Shimomoto abriu o Simpósio destacando o pioneirismo do movimento. “Não tem outro igual”, disse ele, acrescentando que estudará novas adesões, como a de vereadores que o tem procurado. para participar do movimento.
Para ele, apesar do número reduzido de participantes – em parte por causa das manifestações convocadas por várias centrais sindicais – Shimomoto explicou que esta segunda edição “avançou um pouco mais” em relação ao primeiro encontro, realizado no dia 29 de março. “Mesmo não tendo a participação de todos, é um movimento que conta com o apoio e solidariedade de todos os membros. Todos gostaram da ideia e desejam participar. Tenho certeza que o movimento crescerá à medida que todos participarem”, disse, lembrando que o movimento foi criado há pouco tempo.

Coube ao cônsul Yasushi Noguchi a tarefa de falar sobre os politicos do Japão, tema que ele considerou “dificil” por não ser politico e pouco conhecer sobre políticos japoneses. Disse que são “mais ou menos parecidos com os politicos brasileiros” porque também os políticos japoneses fazem campanha para serem eleitos. “Eles também tem distrito eleitoral e sempre estão na condição de ouvir as preocupações de seus eleitores. E se empenham para transmitirem esses pedidos para os níveis municipal, estadual ou federal”, explicou Noguchi, acrescentando admirar os esforços de “unir os politicos nikkeis aqui em São Paulo e a comunidade japonesa porque a comunidade japonesa precisa do apoio dos políticos nikkeis e os políticos nikkeis, por sua vez, precisam do apoio das entidades nikkeis”.

Consulado – Noguchi aproveitou seu tempo para falar também sobre as atividades do Consulado Geral do Japão em São Paulo, que afirmou ter três prioridades: “Primeiro, obviamente, é estreitar as ligações cada vez mais com a comunidade japonesa nos Estados de atuação do Consulado [São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul]”, afirmou, lembrando que, desde a visita do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe ao Brasil, em agosto de 2014, o governo japonês intensificou seu apoio à comunidade japonesa no Brasil”.

Cônsul Noguchi (Jiro Mochizuki)
Cônsul Noguchi (Jiro Mochizuki)

Festival do Japão – Ressaltou, também que nos últimos cinco anos o número de voluntários da Jica no país praticamente duplicou. “Hoje são cerca de 100 atuando como técnicos de beisebol, judô, sumô, professores de língua japonesa e na área da saúde”, frisou Noguchi, que destacou a importância dos Festivais do Japão realizados não só na capital paulista como também em outras localidades.
“O maior, sem dúvida, é o realizado pelo Keren aqui em São Paulo, que no ano passado atraiu cerca de 215 mil visitantes ao Expo São Paulo e desta maneira a cultura japonesa é tão querida pelo povo brasileiro. A maioria dos visitantes são brasileiros, não necessariamente nikkeis, e com isso podemos divulgar a cultura japonesa entre os brasileiros. Por isso o governo japonês apoia muito a realização de eventos como esses não só através do Ministério dos Negócios Estrangeiros mas também de outros Ministérios como o da Agricultura, Turismo, Economia e da Indútria”, disse Noguchi, lembrando que visitou também outros eventos relacionados à cultura japonesa como de Campinas, Osasco, Garça, Araçatuba, Bastos, Lins, Presidente Prudente e Álvares Machado, entre outras regiões.

Japan House – A segunda prioridade do Consulado, comentou Noguchi, é a Japan House São Paulo. Projeto global do governo japonês com o objetivo de mostrar o Japão contemporâneo e também o tradicional, a JHSP foi inaugurada em 30 de abril de 2017 e desde então já recebeu mais de 1,5 milhão de visitantes, número que superou as expectativas iniciais do governo japonês.

“O governo japonês aprecia muito esse sucesso porque temos Japan House em Los Angeles e temos Japan House em Londres, mas elas não alcançam esse número de visitantes. Acredito que essa popularidade é atribuída à confiança dos brasileiros na cultura japonesa, confiança essa construída pelos imigrantes japoneses”, destacou o cônsul, afirmando que a terceira prioridade do Consulado é promover as relações comerciais entre os dois países, “Temos 700 empresas japonesas aqui no Brasil. São histórias de muito sucesso. Mas de vez em quando elas enfrentam algumas dificuldades ou condições adversas e o Consulado então ouve essas preocupações para transmiti-las depois ao governo barsileiro através da Embaixada do Japão em Brasília”, concluiu o cônsul.

Hipocrisia – Já o presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, foi bastante enfático em sua palestra. Disse que “estavávamos precisando deste tipo de movimento, para valorizar realmente nossos politicos nikkeis”. “Muitas vezes nos deparamos com o que poderíamos chamar de falsa hipocrisia de que muitas vezes no estatuto das empresas constam que elas não podem ser políticas. Então acabam se afastando do movimento político. Concordo, mas não precisamos nos afastar totalmente da politica porque na nossa vida precisamos dos políticos. Qualquer movimento é necessário o envolvimento politico. Então esse movimento é muito bem-vindo pois precisamos realmente incentivar, participar e fazer deste movimento a nossa bandeira para apoiarmos os políticos nikeis”, disse Ishikawa.
Segundo ele, o Brasil tem cerca de dois milhões de nikkeis, ou seja, aproximadamente 1% da população brasileira. “Só o Estado de São Paulo concentra 1,2 milhões de nikkeis. Onde estão nossos representantes? Acho que deveríamos ter muito mais do que nós temos hoje. Falta essa união. Falta esse apoio dos dois lados”, disse Ishikawa, que também considera uma “grande bobagem” falar que “nikkei não vota em políticos nikkeis”. “Temos sim que valorizar nosso sangue”, disse ele, que citou um exemplo bastante claro sobre a importância de se eleger representantes nikkeis.

Protagonistas – “Uma instituição como o Bunkyo precisa de um certificado de imunidade tributária, que é o Cebas – Certificado de Entidades Beneficentes de Assistência Social. Isso depende evidentemente de politicos. O Bunkyo cumpre todas as exigências, como manda a lei, mas precisamos do apoio político para conseguir esse certificado caso contrário o Bunkyo não consegue viver por que essas contribuições representam quase 10% da folha de pagamento”, explicou.
“Por isso temos que nos meter em política sim, mas sempre de forma reponsável. Sempre faço essa ressalva porque não pode ser política no sentido de politicagem mas política para eleger representantes dignos”, observou o dirigente, afirmando que “temos que ser protagonistas no cenário político. “E para isso a comunidade precisa se unir em torno de causas importantes”.
“Por isso essa iniciativa vem em boa hora, pois temos que estar preparados para as próximas eleições”, afirmou Ishikawa, arescentando que adotou como lema para o Bunkyo o discurso do primeiro Shinzo Abe: “Progredir juntos, liderar juntos e inspirar juntos. É isso que nós queremos fazer, fazer juntos e em harmonia, como a nova era, Reiwa, que significa bela harmonia”.

Hélio Nishimoto: “Devemos continuar contribuindo para a sociedade, não buscar favorecimentos”
Hélio Nishimoto: “Devemos continuar contribuindo para a sociedade, não buscar favorecimentos”

Coragem – Hélio Nishimoto elogiou o posicionamento do comandante do Bunkyo. Segundo ele, são palavras que demonstram “coragem” de se envolver com o movimento politico. “E a partir de um reconhecimento importante, que é necessário termos bons políticos. E é isso que percebo nesse movimento, seja como instituição seja como cidadão, precisamos ter representantes políticos em todas essas esferas, municipal, estadual e federal, que nos representem de forma digna”, disse ele, explicando que faz questão de acompanhar essas reuniões “porque também tenho interesse de ver melhorando a situação do país através de uma política correta”
Para Nishimoto, o receio de se envolver com política era comum principalmente no período pós-guerra. “Hoje, pensar em se afastar desse movimento é uma das piores coisas que a gente pode fazer, seria o pecado da omissão não querer se envolver com uma coisa que é fundamental para o bem do país e para o bem da sociedade que é o trabalho politico. Por isso talvez a gente colha frutos tão negativos de representantes que não são dignos da nossa confiança nos representando em todas as esferas. Isso vem prejudicando o Brasil há muto tempo”, observou o parlamentar, explicando que, “depois de 111 anos, nossa história daqui para frente deve ser o de continuar contribuindo para a sociedade brasileira e não buscar favorecimentos”. “Já fomos muito beneficiados com a oportunidade de vivermos numa boa terra e desfrutarmos de tudo aquilo que foi oferecido de oportunidade durante todo esse tempo para a gente se desenvolver no pais”, disse.

Respeito – Segundo Nishimoto, quando se fala em participação de politicos nikkeis nas várias esferas, “devemos sempre partir do princípio que, com representantes dignos, de confiança, a gente pode continuar contribuindo com esses valores que nós trazemos nas nossas raízes e com os usos e costumes que o Japão tem e que estão sendo pouco a pouco passados para o nosso país. Isso pode ser inserido na forma de legislação e também através de participações com nós vemos através das atividades culturais, sociais e através dos festivais que vem sendo realizados pelo país. É por isso que essa influência tem sido positiva nesses 111 anos e é essa íntenção que eu vejo nesse movimento. A contribuição que a nossa comunidade nikkei pode oferecer ainda é muito grande. Não devemos pensar em privilégio, mas pensar em oferecer algo mais para que o país melhore”, observou.

Nishikawa: “Estou político” (Jiro Mochizuki)
Nishikawa: “Estou político” (Jiro Mochizuki)

Desabafo – Para o deputado estadual Paulo Nishikawa, para quem “as demandas de toda a comunidade é a mesma demanda de todo mundo, ou seja, segurança, saúde e combate a corrupção”. “Toda entidade precisa ser apolítica no sentido partidário mas tem que ser política no sentido de a gente participar das decisões políticas”.
E fez um desabafo. “Tenho orgulho de representar a colônia, mas quando nós procuramos as entidades nikkeis, ninguém deu respostas. Não fui eleito pela comunidade nikkei. Tive votos em 466 municípios divulgado via rede social em meus três perfis no Facebook, não foi uma entidade especifica, nem pela Polícia Militar, apesar de ser o primeiro oficial do Corpo de Bombeiros eleito como parlamentar. Se falar que eu tenho obrigação, digo que tenho como cidadão que quer trabalhar pela comunidade, mas não retribuir aquilo que me deram antes. Eu estou político, não sou político. Nessa questão podem contar comigo”, frisou Nishikawa.

Guerra fria – O vereador Aurélio Nomura também considerou o movimento “algo importante”. “ A gente fala que o povo brasileiro é ruim da memória mas temos que lembrar um fato histórico muito importante que aconteceu dentro da história dos nikkeis aqui no Brasil. Quando a gente estava naquela guerra fria, antes da segunda guerra mundial, a gente via aquele processo que acontecia da proibição da imigração japonesa e que só não passou por um voto. E desde aquela época veio essa aspiração daqueles japoneses que estavam no Brasil da necessidade de se fazer representar. Começou dai e até hoje existe essa necessidade. E a gente, até pela descendência – assim como outros parlamentares com outras descendências, como a italiana, a alemã e judia, enfim, todos tem uma proximidade um pouco maior com sua comunidade até porque conhece efetivamente o estreitamento, a história e a importância desta comunidade que muitas vezes para outros não é relevante. Todas as ações que aconteceram nos 110 anos e no centenário tiveram partipação muito forte dos parlamentares nikkeis em todos os níveis. Acho que todos precisam ter uma consciência nesse sentido. Não digo de votar nesses candidatos. Estamos falando da importância e da permanência de termos sempre um representante. Isso é fundamental”, finalizou Nomura.

Agenda – Os dois próximos Simpósios já têm data marcada. Serão nos dias 16 de agosto e 22 de novembro. Interessados em participar devem entrar em contato com o escritório do organizador (Hatiro Shimomoto) pelo telefone: 11/2856-7290 ou 2856-7220 (falar com Jacira).

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