Para palestrantes do 3º Simpósio do MPN, comunidade precisa estar mais ‘engajada’ na política

(Aldo Shiguti)

“Nos dias atuais ocorrem muitas mudanças de paradigmas e a comunidade nikkei precisa ter alguém que defenda os seus interesses porque outras comunidades têm. Vamos pegar o exemplo das comunidades sírio-libanesa. Elas têm seus representantes. Os judeus têm, os italianos têm e porque os japoneses não podem ter? Tem que ter. Ninguém vai defender os interesses de outra comunidade. O seu bairro sim, mas em termos de comunidade não. Então, nós temos que ter nossos representantes”.
O recado, direto e objetivo, foi dado pelo presidente da Associação Toyama Kenjinkai do Brasil e conselheiro do 22º Festival do Japão, Toshio Ichikawa, no 3º Simpósio do Movimento Político Nikkei (MPN), realizado no último dia 16, no Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), no bairro da Liberdade em São Paulo.
Ichikawa, que teve como tema “Participação dos associados dos kenjinkais na integração politica dos nikkeis no Estado de São Paulo”, “tocou na ferida” ao comentar sobre os estatutos sociais das entidades e associações nikkeis que, segundo ele, “são parecidos no que se referem aos itens básicos sem envolvimento em política e assuntos religiosos e sem demonstrar apoio aos políticos; nenhum apoio nas campanhas eleitorais”.
“Isso persiste até hoje. Está correto? Acho que não, mas está no estatuto”, disse Ichikawa, lembrando que isso aconteceu, principalmente, porque “os imigrantes não queriam se envolver em política”. “Muito por causa daquela fase de vencedores e vencidos, que criou muita confusão. Só que, quando tinham necessidade ou precisavam fazer alguma benfeitoria que dependiam das Prefeituras locais, em comemorações ou quando vinham autoridades do Japão, essas mesmas associações e entidades precisavam de representantes. E nessa hora procuravam quem? Os vereadores e os deputados estaduais e federais. Ou seja, nessa hora, as associações só pedem, mas na hora que esses representantes precisam de apoio, elas se afastam. Acho que isso não é correto”, disse Ichikawa, explicando que “antes, os diretores não tinham habilidade política”.
“E hoje continua assim”, lamentou, acrescentando que, “por outro lado, os políticos nikkeis precisam conhecer quais as demandas das comunidades”. Citou o exemplo do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP). “Quando o Kim Kataguiri foi eleito fomos lá conversar com ele. Dissemos a ele que nós precisaríamos que nos representasse. Mas dissemos que não queríamos só pedir, que iríamos fornecer subsidios para que ele pudesse fazer um trabalho melhor a favor da comunidade” explicou Ichikawa, argumentado que “nós, das associações e de entidades, não temos habilidade de fornecer subsídios, só sabemos pedir”.
Para ele, que presidiu o maior festival da cultura japonesa do mundo – fora do Japão – afirmou que “os nikkeis precisam estar um pouco mais engajados”. “A política é que transforma a sociedade. São eles que podem criar mecanismos para beneficiar a comunidade. É errado fugir”, destacou Ichikawa.

Jovens – O outro palestrante do Simpósio, o gerente de Operações da Japan House São Paulo e um dos vice-presidentes do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Cláudio Hajime Kurita, concorda. “Sempre fui muito a favor do envolvimento político dos jovens. Fui presidente do Seinen Bunkyo e na Comissão de Jovens fizemos alguns debates com candidatos nikkeis. Temos que nos organizar. Temos sim, que ter representantes que nos defendam à altura dos interesses em comum”, disse Kurita, explicando que bancadas como a evangélica e a ruralista “estão cada mais fortes e organizadas”. “E por que não trabalhar para termos também uma bancada nikkein organizada?”, indagou Kurita, que falou sobre “Participação dos jovens da comunidade nipo-brasileira para o fortalecimento da comunidade e políticos nikkeis”.
Para ele, a comunidade nikkei tem um histórico de parlamentares que participaram e participam dessa discussão. “Precisamos nos organizar para termos representantes que possam levar os temas que sejam relevantes para a comunidade nikkei para a discussão no Congresso ou mesmo para defender alguns dos nossos valores. É preciso criar dispositivos e momentos e abrir as entidades e associações para participar dessas discussões, para que a comunidade possa entender os projetos e as propostas de cada um”, afirmou Kurita, destacando que, além de divulgar a cultura e valores, as entidades deveriam ser também locais para disseminar projetos e discussões.
“Temos que utilizar essa plataforma das entidades para criar essa discussão”, disse, acrescentando que o Movimento Político Nikkei “é um grande passo”. “Entendo também que agora a gente tem que evoluir, dar maior sustentação, maior força para esse movimento expandir. Fico muito contente que o pessoal do interior também está vindo participar dessas discussões”, observou Kurita, referindo-se ao vice-prefeito de Guaratinguetá, Regis Yasumura, e ao vereador de Bastos, Yutaka Kimura, que estiveram presentes no 3º Simpósio.

Toshio Ichikawa, Hatiro Shimomoto e Claudio Kurita durante realização do 3º Simpósio do MPN (Jiro Mochizuki)

Hipocrisia – A preocupação demonstrada por Toshio Ichikawa e Claudio Kurita vem de encontro com a ideia defendida pelo presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, um dos palestrantes do 2º Simpósio, realizado em junho. Na ocasião, Ishikawa disse que era “hipocrisia” o fato de os estatutos das entidades e associações não permitirem participação no processo politico. “Não podemos nos afastar totalmente da política porque na nossa vida precisamos dos políticos”, disse ele, que deu como exemplo a dificuldade do Bunkyo para obter o Cebas – Certificado de Entidades Beneficentes de Assistência Social.

Mudança – Para Toshio Ichikawa, o primeiro passo para uma mudança das associações e entidades, passa pela renovação de suas diretorias. “Cabeça de issei é uma coisa, cabeça de nissei é outra coisa. E se os jovens têm cabeça que percorre todas as gerações, isso seria bastante interessante na direção. O jovem não quer saber só de atividades sociais, eles querem aprender. Mesmo em termos de voluntários é preciso que eles tenham algum ganho.Em sete anos como presidente de Kenjinkai conseguiu, gradativamente, trazer os jovens para participarem. Eu mesmo não sei como consegui fazer isso. Talvez consiga descobrir e usar isso como uma ferramenta para os demais, mas é criar mecanismos para a participação dos jovens, é preciso dar alguma coisa de valor para a vida profissional e pessoal deles”, disse Ichikawa.

Formadores de opinião – Para Claudio Kurita, os jovens precisam ter essa consciência. “Temos que fazer essa mudança dentro das entidades, precisamos trabalhar para que as entidades possam se envolver cada vez mais, fazer discussões como essas. Já temos uma eleição no ano que vem e precisamos ver aqueles candidatos que realmente fizeram acontecer e aqueles que tem trabalho para que a gente possa apoiar. Tenho certeza que a comunidade nikkei tem esse respeito, somos formadores de opinião e temos que utilizar esse legado que os primeiros imigrantes deixaram, de respeito, de trabalho árduo, de confiança e levar isso adiante. Temos que fazer valer a ideia que somos formadores de opinião para que, já na próxima eleição, possamos eleger políticos que efetivamente possam representar a comunidade nikkei de forma digna”, concluiu Kurita.
No final, Hatiro Shimomoto, idealizador do Movimento – cujo objetivo é valorizar e fortalecer os políticos e as entidades nikkeis – pediu para que as discussões do Simpósio fossem divulgados também pelos canais de comunicação do Bunkyo e do Kenren
Claudio Kurita disse que pretende usar o 11º FIB – Fórum de Integração Bunkyo – que acontece em outubro, na sede da entidade, na capital paulista, para informar os seus participantes.

O vice-prefeito de Guaratinguetá, Regis Yasumura e o vereador de Bastos, Yutaka Kimura, que participou pela primeira vez (Jiro Mochizuki)

Repercussão – Tanto Regis Yasumura, que participou pela segunda vez, como o vereador Yutaka Kimura, gostaram do Simpósio. Para o vice-prefeito de Guaratinguetá, “acredito que saímos da fase do engatinhar para darmos passos mais largos”. Segundo Yasumura, “o grande objetivo dessas reuniões é, sem dúvida nenhuma, fortalecer a nossa cultura”.
“O Brasil é um país maravilhoso, mas ainda pecamos muito na parte cultural. Se a gente conseguisse, aos poucos, colocar a cultura japonesa, os valores como o respeito aos mais velhos e o respeito às regras – que no Japão isso é impecável – a gente com certeza teria um país mais evoluído. Então, vejo numa crescente muito positiva a introdução de politicos nikkeis na vida pública. É um desafio muito grande, mas nós temos que fazer a nossa parte. Acredito que, quando as pessoas de bem ficam caladas o mal prevalece”, explicou Yasumura.
Yutaka Kimura, que considerou o Simpósio “ótimo”, a intervenção de Toshio Ichikawa foi muito, oportuna. “Aprendi muito com ele e gostaria que ele detalhasse mais o tema. É isso que a gente procura, ou seja, a integração das associações com a política”, disse Kimura, destacando que “a comunidade tem que aprender a votar”. “Muitas vezes votam em pessoas que não retribuem em nada para o seu bairro, para o seu benefício, para o seu Estado e para o país. Acho que trabalhos como esses deveriam continuar”, afirmou.

Próximo Simpósio – E o próximo Simpósio está marcado para 6 de dezembro. Lembrando que agora o MPN aceita também a participação de vereadores do interior do Estado que estejam na ativ.
As adesões devem ser feitas pelos telefones: 11/2856-7290 / 2856-7220 (falar com Juliana)

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