CANTO DO BACURI: Os irmãos da família Toda

Temas que tinham por assunto principal a família e os seus dilemas na passagem das gerações foi assunto preferido de Yasujiro Ozu em seus filmes pela distribuidora Shochiku. Ainda que a repetição do mesmo tema fosse constante em sua produção, nunca se esgotou, seja na preferência do público, bem como por parte da crítica. Em 1941, antes mesmo da declaração de guerra contra os Estados Unidos, ele lançou Toda ke no kyodai, traduzido por Os irmãos da família Toda. Antes, por dois anos, Ozu teria servido como cabo de infantaria, na Manchúria, território chinês durante a ocupação japonesa. Nem era a guerra o assunto a ser explorado, conforme a preferência.
Mas Ozu acaba transparecendo a fase da história japonesa, que culminaria com a guerra. Sendo a família seu assunto a ser explorado, seu olhar é cinematográfico, que foca as lentes da câmera como fosse também os olhos da platéia. Nada intelectual. Sem interferir na cena, é a própria cena que invade os olhos, em quadros amplos, como acontece no início deste filme. A família Toda se orgulhava de seu passado de glória, Vivia da aparência de uma família bem constituída, com filhos bem casados, felizes, que se encontraram no dia do aniversário da mãe. Ela comemora 61 anos, algo senil, em se tratando daqueles dias da década de 40.
Nada é revelado ainda. Numa sala dos patriarcas dos Toda, a câmera se fecha em close durante a chegada da filha mais velha. O pai aparece ao lado de um neto e a mãe ao lado de uma neta. Depois, a cena é mais ampla, todos os elementos que constituem a cena são importantes e tem o seu lugar de destaque: as duas luminárias na transversal, criando um fundo em perspectiva; no lado esquerdo, quase saindo da cena uma chaleira; aos fundos, numa prateleira, duas imagens de Buda, não como simples detalhes, mas de tamanho considerável. Os Budas apenas contemplam.
Em seguida, numa outra cena, aquilo que deverá introduzir o público ao tema é o momento da fotografia. Isso acontece fora da casa. Haveria em tempos passados o costume da família ser fotografada, como pudesse congelar um momento especial os sentimentos de seus componentes. Tratava-se de uma representação através da imagem produzida com o auxílio de um guarda-roupa com sedas especiais. Claro, a maquilagem delicada deveria realçar os traços e ocultar as falhas. Mas em momento algum, a fotografia poderia revelar de fato o que estaria presente nas almas dos fotografados. Assim, brinca também Yasujiro Ozu.
Toda aquela pompa de exibicinismo e falso pudor acaba caindo por terra quando acontece o imprevisto: a morte do patriarca. Aquela família aristrocrática, em fase de decadencia é a situação do Japão antes da guerra. Todos usam kimonos caros e não trabalham. Cada membro da família possue os seus proprios dilemas, em suas próprias famílias. Como se trata de cinema, isso está presente, mas a poesia também dever marcar presença em cenas de grande percepção estética. O cinema de Ozu consegue explorar temas bastante complexos da famíllia, mas em nenhum momento torna-se num peso, quando ele utiliza toda a sua capacidade em produzir imagens carregados de ternura.
A vida não se mantém, tudo se transforma, conforme os ensinamentos budistas a respeito da impermanência, quando a juventude se esvai como o orvalho a explodir em partículas infinitas e desaparecer.. As crianças crescem, ficam adultas e perdem por completo a inocência. Alguns se tornam cínicos e interesseiros. Preocupam-se mais em repartir parte da herança do que cuidar da mãe viúva. São informados pelo advogado da família de que nada resta da fortuna, sendo que o falecido não informara a repeito de dívidas acumuladas após a falência da empresa que possuia. Dos despojos que ainda sobraram, utensílios domésticos como vasos e porcelana, alguns de valor, serviram para apaziguar a frustração pelo pouco das recompensas materiais que ainda poderia ser repartido.
Esta situação da família a se desintegrar deverá retornar em “Tokyo Monogatari”, de 1953, considerado uma das obras primas de Yasujiro Ozu. É como que a cada filme, de temática semelhante, houvesse uma tentativa de construir uma narrativa e uma estética que pudesse dar conta de um drama que incomodava ao diretor. Ao mesmo tempo que existe este incômodo, Ozu aceita igualmente as condições da existência humana, que é justamente adequar-se àquilo que o universo apresenta como inevitável. Não é preciso ocultar esta situação, a da velhice e abandono. Isso vai acontecer de alguma forma. Diante disso, alguns se sacrificam por vontade própria em cuidar dos pais velhos, deixando de lado seus próprios interesses, como buscar um noivo ou noiva para realizar o seu próprio casamento e assim constituir uma família.
Em “Os irmãos da família Toda”, dois são os filhos que se prontificam em cuidar da mãe. Antes disso, a mãe e uma das filhas tentaram viver na casa de uma, de outra, sem obter sucesso. Tornaram-se um incômodo. Com a realização da cerimônia memorial de um ano do falecimento do pai, as coisas parecem resolver. A vinda de um dos filhos, que tinha ido morar na Manchúria, desmascara a farsa das irmãs. Ele próprio está decidido em cuidar da mãe e da irmã, a única que ficou ao lado dela. Irá levá-las a morar na China, então parte do Império Japonês no oriente.

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