CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O Duelo Silencioso de Kurosawa

Antes mesmo de ser descoberto pelo ocidente, no pós-guerra o diretor Akira Kurosawa usava uma linguagem que, influenciado pelos diretores americanos, iria inaugurar uma temática um tanto diferente daquelas que tinham a preferência do público japonês. De fato, os americanos tinham vencido a guerra e, os japoneses de alguma forma, reformularam os seus valores, um fato evidente na filmografia de Akira Kurosawa. Isso também foi motivo de crítica dos próprios japoneses, que poderiam achar de que o cinema de Kurosawa fosse muito racional para os padrões japoneses.

Ao contrário disso, os japoneses se achavam mais emocionais, contemporizando-se com um final mais realista, e assim, menos idealista do que a arte cinematográfica dos americanos. Ser americano era ser ocidental, uma tendência no mundo moderno e capitalista. O cinema devia ser visto também como uma mercadoria, sem negar, por outro lado, a sua natureza estética.

Em 1949 Akira Kurosawa lançou dois filmes: O duelo silencioso (Shizukanaru Ketto) e Cão danado (Nora Inu). Vamos tratar neste artigo do primeiro, tendo como protagonista Toshiro Mifune, com quem este diretor irá trabalhar em outros filmes. Ele é também o ator principal de Cão Danado.

Em O duelo silencioso, que Kurosawa dirigiu, também é o roteirista junto a Senkichi Taniguchi. A narrativa remonta o final da guerra em algum país do sudeste asiático, ocupado pelos japoneses, de clima tropical, assolado pela doença e chuva torrencial. Lá existe um hospital com as condições de higiene possível, em que a cirurgia ocorre em meio ao calor, que para amenizá-lo, um ajudante abana um leque japonês. A tarefa de salvar os soldados acometidos pela enfermidade cabe ao dr. Kyoji Fujisaki.

O diretor Kurosawa constrói o personagem Fujisaki conforme o que deveria ser um médico. Alguns se tornaram médicos, outros simples soldados, outros ainda alguém tão comum que se confunde com a multidão. Fujisaki tem pela frente um grande desafio: o duelo silencioso. Por negligência dele mesmo, durante a operação cirúrgica, livra-se das luvas por alguns minutos. Tempo suficiente para ser contaminado pela sífilis. Um médico com aquela doença, algo incomum, assim se pensava, terá que enfrentar os seus próprios dilemas.

Ele tem uma noiva, com que deverá se casar com o final da guerra. Acontece que neste momento, ele se acha impuro, incapaz de manter uma família padrão com esposa e filhos. Não terá mais direito a isso. Nunca falou diretamente sobre este assunto com Misao, que desconhece as reais intenções daquele rompimento. Mas um dia, resolve contar ao pai, o médico obstetra, no papel de Takashi Shimura. Nada poderia ser mais vergonhoso, admitir ter sido contaminado pela sífilis. Quase sempre, a sífilis era adquirida através das relações sexuais com as prostitutas. Não se referia a Fujisaki, pelo contrário, a contaminação foi realizada ao atender um paciente com a doença.

O próprio pai que o condenou pela doença, sinal de vergonha, reconsiderou logo que conheceu os motivos reais da contaminação. Em nenhum momento, Fujisaki renunciou ao seu ofício de médico, atendendo os pacientes, não cobrando quando isso não era possível, salvando vidas e almas, inclusive tirando da rua uma prostituta e contratando-a para ajudar na enfermagem.

Não seria muito humano não se revoltar pela condenação imposta pelo destino, sem direito a uma família, sempre atuando em favor dos outros. Fujisaki explode num destes momentos, pois ele próprio não se considera tão bom assim. Mas Kurosawa impõe ao seu ator preferido um papel que avança além, como um sacerdócio, renunciando a si próprio em benefício alheio. Talvez o Japão necessitasse deste exemplo, pois passara menos de 4 anos do fim da guerra, a desolação pela derrota, as bombas atômicas, tudo isso deveria ser vencido. O médico Fujisaki fazia o seu papel, que remontaria a tipo como poucos, de um lado pelo ideal socialista, de outro por um personagem franciscano ou um monge mendicante do budismo.

Enquanto os devaneios chegavam para assombrá-lo, Fujisaki não tem tempo para dar atenção, pois nas mesas de cirurgia os pacientes estão esperando pela sua ajuda. A todos ele ajuda com o seu ofício. Mas ninguém poderá ajudá-lo, senão a si próprio. Nesta batalha do “duelo silencioso”, cabe unicamente a ele enfrentá-lo a cada momento de sua vida. Como uma maldição por ter a doença. Como uma benção por poder operar e assim salvar. Pode ser que Akira Kurosawa acreditava de que a arte tinha a capacidade de transformar o que chamamos de realidade. Mais do que isso, ele acreditava no poder do homem se transformar; talvez alguns como Fujisaki. Ainda que fosse um, era melhor do que nada.

Simplesmente admitir de que o homem é corrupto e nada fazer para a mudança, ou ainda achar que somente o outro é corrupto, cairemos na armadilha do cinismo e da total irresponsabilidade. Nisso, Kurosawa merece os nossos respeitos.

Comentários
Loading...