‘O 22º Festival do Japão será exatamente como foi o de 2018’, garante o ‘maestro’ José Taniguti

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

Faltando pouco menos de um mês para o início daquele que é considerado o principal evento da cultura japonesa do mundo, o Festival do Japão – que este ano chega a sua 22ª edição nos dias 5, 6 e 7 de julho, no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, em São Paulo, o presidente da Comissão Organizadora, José Taniguti, enfatiza: “Uma coisa posso garantir. Esse festival será exatamente como foi do ano passado e como tem sido os festivais anteriores porque gente capacitada para ajudar não vai faltar”. A afirmação foi dada durante entrevista ao Jornal Nippak no último dia 26 de maio, na Associação Cultural e Assistencial Mie Kenjin do Brasil, na Vila Mariana, durante mais uma reunião dos voluntários com a Pesquisadora da Cultura e Etiqueta Social e Empresarial Japonesa, Lumi Toyoda, e o coordenador Roberto Sekiya.
Apesar de ter assumido o comando do Festival do Japão logo após a edição passada, que, aliás, foi marcada por abrigar também a cerimônia oficial dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil com direito à visita de Sua Alteza Imperial, a princesa Mako – Taniguti conta que já aprendeu uma lição.
“Uma coisa que fui conhecendo com o tempo é que o Festival do Japão não é feito por meia dúzia de pessoas. Existem mais de mil pessoas ajudando. No dia, tem até dois mil voluntários. É muita gente. E todos estão lá para fazer o festival acontecer. Não é uma coisa que eu tenho que me desdobrar para que o festival possa acontecer. O que tenho que fazer é simplesmente assumir o meu papel e coordenar, ou seja, ser o maestro de uma grande orquestra. Essa é minha função. É claro que compareço em todas as reuniões importantes e todas as decisões importantes preciso dar meu parecer, mas todos os membros da comissão opinam e de lá tiro o consenso do grupo. E tem o Ichikawa (Toshio, que presidiu o Festival do Japão por três anos) que ajuda a definir qual o melhor caminho, que até aqui tem sido sem grandes percalços”, explica Taniguti, acrescentando que foi sondado para assumir o cargo, pela primeira vez, em fevereiro de 2018.
“O Toshio Ichikawa veio ter uma conversa particular, disse que queria almoçar comigo junto com o Yasuo Yamada, presidente do Kenren. Eu já desconfiei que a conversa seria sobre a sucessão, mas fiquei na minha. Lá o Yamada deu a primeira insistida. Disse que o Ichikawa tinha presidido o Festival do Japão por três anos, já tinha dado sua contribuição e que estava procurando um sucessor e, dentro do leque de possibilidades, eu seria a pessoa mais indicada. Naquele momento fiquei excitante. Quis consultar se a mulher concordava. Chegando a resposta não foi positiva. A dona Rosa disse que seria uma loucura e que acabaria o meu sossego. Teria que abrir mão de tudo aquilo que gostava e, além disso, já estou com 76 anos anos”, lembra Taniguti, afirmando que chegou a pedir para que procurassem outro nome.

Ovacionado – “Mas na primeira reunião com os presidentes das 47 associações, em julho, logo após o festival de 2018, o Yamada disse que eu seria o próximo presidente, sem me consultar. Naquele momento fiquei pasmado mas já era tarde. Todo mundo ovacionou e eu não tinha como recuar. Tem um ditado que diz assim: Quando você não decide, alguém decide por você. E foi o que aconteceu. Acho que tinha que ser eu mesmo. Sou uma pessoa muito feliz. Sou aposentado, recebo uma aposentadoria digna e não estou doente. Então, o minimo que eu tenho que ter é gratidão. Presidi a Associação Pró-Excepcionais Kodomo-no-Sono, onde adquiri um cabedal de conhecimento que me tornou uma pessoa diferente. Até então não era uma pessoa sociável. Era tímida porque até então na minha vida profissional nunca precisei me relacionar com pessoas”, diz Taniguti, que é formado em Engenharia Civil pela Politécnica.

Conselheiro – Para o pacato cidadão tupãense, foi uma virada e tanto. Mas ele acredita que já estava sendo “preparado” para isso. “O Ichikawa tinha uma Comissão, ele, eu, a Monica Uezono (Kagoshima) e o Minoru Nishiyama (Saga). Nós o ajudávamos. Eu sempre estava junto com ele em tudo que podia. Talvez por essa minha disposição, de estar sempre presente e ao lado dele, fez com que ele fosse observando e chegando a conclusão que a pessoa certa seria eu. Isto é, aconteceu naturalmente, não que eu seja a pessoa talhada para essa função. Sou uma pessoa que faço as coisas que as pessoas me pedem. Dificilmente falo não. Tem muitas coisas que fiz na vida sem conhecer. Essa é mais uma delas. Pensei como vou fazer um evento daquela magnitude? Não saberia nem como começar. Mas fui ouvindo as pessoas e o Ichikawa disse para ficar tranquilo que ia me ajudar. O Yamada também. Então me vi cercado de amigos que iam me ajudar”, disse Taniguti, que também presidente o Kenjinkai de Wakayama.
Para contar com a experiência de Ichikawa, acabou “criando”, um cargo que até não existia, o de “conselheiro”. “Temos uma comissão composta de 5 ou 6 pessoas, todos presidentes de Kenjinkais. E o Ichikawa é nosso conselheiro. Na hora de alguma dificuldade ele pode nos ajudar. E desta maneira temos conduzido até aqui, sem dificuldades”, afirma.
Para Taniguti, “tudo é mais ou menos previsível, incluindo a presença de público”. “A única coisa que não tenho certeza é a questão do fechamento do balanço financeiro porque nós temos uma despesa enorme e temos também, para fazer frente a essas despesas, algumas empresas que nos ajudam e algumas entidades que contribuem. Então esse jogo tem que empatar”, explica, lembrando que o trabalho de captação de recursos teve início tão logo terminou o festival de 2018.

Para este ano, a expectativa é que cerca de 200 mil visitantes visitem o Festival do Japão (Arquivo/Aldo Shiguti)
Para este ano, a expectativa é que cerca de 200 mil visitantes visitem o Festival do Japão (Arquivo/Aldo Shiguti)

Finanças – Segundo ele, as dificuldades já eram “mais ou menos esperadas”. “Na verdade, achava que seria até mais fácil. Isso no final do ano passado, porque após a vitória do Bolsonaro havia uma euforia geral, uma expectativa enorme de que esse novo governo fosse corrigir o Brasil, de que ele fosse resolver logo a questão da divida pública, que a reforma da previdência fosse aprovada”, conta, afirmando que, nessa época, as empresas estavam “na maré alta”.
“Com o tempo, começamos a perceber que o governo comecou a patinar e, em consequência disso algumas empresas estão sofrendo em função deste marasmo. E aí tem uma outra que desistiram. Mas os grandes permaneceram com a gente”, comentou Taniguti, que até a data desta entrevista revelou que o Festival do Japão deste ano tinha, “ 90%” do que precisa para fechar o orçamento deste ano.

Público – “Os 10% que ainda estão indefinidos esperamos fechar nos próximos dias e, fechando, tenho certeza que nós vamos ter um pequeno lucro. Mas o maior propósito do Festival não é visar o lucro, o maior propósito é divulgar a cultura japonesa, principalmente para os não descendentes, que hoje são 60% do público do festival”, diz Taniguti, que este ano espera um público estimado em cerca de 200 mil visitantes, acompanhando a tendência de crescimento de cerca de 5% nos últimos anos.
“Em 2018, com os 110 Anos, tivemos um total de 215 mil pessoas. Em 2017, sem os 110 anos e sem a visita da princesa Mako, o público foi de 180 mil. De 180 mil pulou para 215 e acredito que esse salto tenha sido em decorrência da influência dos 110 anos, naturalmente. Mas quem veio exclusivamente para os 110 anos, veio para a cerimônia oficial da princesa, dentro da arena, que comportava 5 mil pessoas. Se você fizer uma conta rápida, de 215 mil tira 5 mil, vai dar 210 mil. Dando um desconto, diria que 200 mil foram por conta do festival. E é com expectativa que estamos trabalhando para este ano”, diz Taniguti, destacanco que, “se você fizer direitinho, do jeito que o público gosta, eles retornam mesmo”.
“E cada vez mais tende aumentar. Agora, se você fizer algo ruim, você também terá o efeito contrário. E o festival até agora, tirando alguns transtornos na praça de alimentação, como constatamos no ano passado, as pessoas acabam voltando”.
Para o presidente, no ano passado, a Comissão Organizadora constatou que muitas pessoas queriam comer e sofreram com as filas e o tempo de espera. “E quando conseguiam comprar, não tinham lugar para sentar. Ou seja, foi um trasntorno muito grande. Este ano nós estamos tentando minimizar essa questão”, conta, antecipando que o público que for ao Festival deste ano terá praticamente o triplo de quantidade de mesas e cadeiras na praça de alimentação.
“O problema é onde vão ficar ficar. Por um erro de estratégia, este ano acabamos alugando um espaço bem menor do que o ano passado, isso por uma decisão coletiva dos presidentes do kenjinkais. E começamos com os pavilhões 4, 5, 6 e 7, mas depois de três meses chegamos a conclusão que estava pequeno e quando tentamos alugar o 3 já não foi possível. Por isso, para 2020 já estamos pensando numa estratégia de alugar também o 3.

Aplicativos – Uma medida adotada pelos organizadores com o intuito de minorar as filas na praça de alimentação são as compras através de aplicativos. Um deles é o PayAqui que deve reduzir as filas nos caixas dos kenjinkais. “Esses aplicativos estão começando a entrar e acho que vieram para ficar, assim como a venda por cartão de crédito. Há cinco ano, não havia essa cultura de cartão de crédito, era só dinheiro vivo. E a gente ficava preocupado, mas o cartão veio para facilitar, assim comos esses aplicativos”, afirma Taniguti, destacando, no entanto, que apenas cinco ou seis estarão com o serviço disponível neste ano.

José Taniguti (Arquivo/Aldo Shiguti)
José Taniguti (Arquivo/Aldo Shiguti)

No século passado – “Ainda estamos desenvolvendo essa tecnologia. Muitos kenjinkais ainda trabalham no século passado, sem estrutura e por isso não acompanham as mudanças. Outro problema é que muitos não estão conseguindo nem reunir mais voluntários para fazer comida. Todos estão ressentindo deste problema. Então, de que adianta aumentar a quantidade de público se vamos acabar gerando mais problemas uma vez que estamos no limite de capacidade atendimento? Tem kenjinkais que ainda estão saudáveis e, para eles, a saída será aumentar o espaço. Mas isso também é uma coisa que precisa ser implantada com bastante cautela, conscietizando os kenjinkais”, diz Taniguti, explicando que este ano Kyoto e Kanagawa, que pediu uma “licença sábatica”. estarão ausentes.
“Estamos pensando de que maneira vamos suprir essa falta porque não podemos deixar os boxes vazios. Até pedi permissão para ver se eles permitem usar a marca deles e colocar um profissional que faça a comida que eles quiserem. Mas como eles já comunicaram a província mãe e os associados que não iriam participar este ano, então o presidente não se sentiu bem em autorizar. Uma sugestão é usar o nome do Kenren e procurar alguém que faça comida, porque comida vai até faltar. A nossa preocupação nesse momento não é o de ganhar dinheiro, mas de poder atender aquele público que chega duas, três horas da tarde e procura as barracas e muitas já estão sem comida. Infelizmente isso não pode acontecer, mas é o que tem acontecido”, lamenta ele, antecipando que, para o ano que vem a comissão estuda colocar restaurantes para atender a “classe A”, “que não se incomoda de pagar um pouco mais caro em troca de um pouco mais de conforto”.

Área cultural – Outra novidade para este ano será a disposição da área cultural, que no ano passado ficou no corredor externo. “No ano passado, foi uma experiência porque não havia muita alternativa. Foi feito decoração para atrair o público mas uma coisa que percebemos é que ali o pessoal só passa na hora de ir embora pois lá é como se fosse um corredor de saída. E quando as pessoas estão indo embora, elas não param, só ollham e vão embora. Este ano colocamos essa área para dentro, mesmo sem o tamanho ideal para os expositores, mas mesmo assim eles ficaram satisfeitos porque se sentem totalmente integrados ao evento. No ano passado foi uma ideia interessante, mas não atingiu a expectativa que nós esperávamos”, afirmou Taniguti, destacando que, além das atrações permanentes, como a culinária, cultura, exposições, shows, artes marciais, Miss Nikkey Brasil, Concurso Cosplay, Espaço Criança e Área da Tereceira Idade, a programação terá convidados internacionais, como acontece todos os anos, como, por exemplo, trazidos pela Fundação Japão.

O 22º Festival do Japão será realizado nos dias 5, 6 e 7 de julho, no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, em São Paulo. Sexta, das 11 às 21 horas, sábado, das 9 às 21 h e domingo, das 9 às 18h. Informações: www.festivaldojapao.com

Comentários
Loading...