‘Nossa função é projetar a Enkyo para os próximos 60 anos’, diz presidente da entidade, Akeo Yogui

Fachada do Enkyo no bairro da Liberdade, em São Paulo (divulgação)

Fundada em 28 de janeiro de 1959 por um grupo de 32 representantes da comunidade japonesa com o intuito de oferecer assistência aos imigrantes do pós-guerra, ajudando-os em seu desembarque no Porto de Santos e acolhendo os membros fragilizados na Casa do Imigrante, a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo – Enkyo – comemora este ano seu 60º aniversário de fundação. A celebração teve como ponto alto a Sessão Solene realizada no dia 12 de agosto na Câmara Municipal de São Paulo e que contou com a presença do presidente e do vice-presidente da The Japan International Cooperation Foundation, respectivamente, Susumu Akiyama e Teruaki Watanabe. No dia 13 a Diretoria realizou um Jantar restrito em sua sede, no bairro da Liberdade, para recepcionar os convidados japoneses, e que contou a presença do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi.

Mais que um momento festivo, a Enkyo quer aproveitar a data para agradecer e pensar no futuro. Agradecer a todos que ao longo dessas seis décadas se dedicaram e ajudaram para a consolidação da entidade. “Como dirigentes atuais da Enkyo, comemorar esses 60 anos é bastante importante, pois são 60 anos de existência de uma caminhada que teve início com apenas 32 pessoas. Hoje nós temos mais de 2 mil funcionários, fora os médicos – que são todos Pessoas Jurídicas – e o pessoal terceirizado – da segurança e limpeza. Nesses 60 anos nós crescemos bastante e isso, claro, não foi em função de uma pessoa. Existiu e existe uma equipe que trabalhou para que pudéssemos chegar até aqui e por isso nós temos muito carinho e respeito por aquelas pessoas que na fase mais dificil se sacrificaram para trazer a Enkyo até os dias hoje”, disse Yogui, que agradeceu, em especial, o ex-presidente da The Japan International Cooperation Foundation, Ryoichi Jinnai (1926-2017), que realizou várias doações em prol da entidade, totalizando mais de US$ 10 milhões.
“Foi uma ajuda muito importante para o complexo do Hospital Nipo-Brasileiro. Mas o mais importante é que ele ajudou quando ninguém acreditava nesse sonho. E hoje, graças ao trabalho de muita gente o hospital é uma referência na área de saúde. Se hoje estamos bem, não devemos nos esquecer de pessoas como ele”, destacou Yogui, afirmando que “ao mesmo tempo que nós reverenciamos o passado, nós também projetamos as próximas décadas”.

Desafios – “A função da atual Diretoria é projetar a Enkyo para daqui 60, 100 anos”, diz Yogui, destacando que “a sociedade é um organismo vivo, toda hora está mudando”.
“Coisas que há 50, 60 anos eram feitas de uma maneira, hoje são feitas de outra. E essa mudança será ainda mais veloz. E se a nossa entidade quiser sobreviver terá que acompanhar esses novos tempos”, conta, acrescentando que uma das preocupações refere-se ao envelhecimento da população brasileira.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2060 um quarto da população será de idosos, com mais de 65 anos, passando dos atuais 9,2% para 25,5%. “Isso quer dizer que nós precisamos projetar nossas unidades assistenciais. Vamos trabalhar no sentido de receber mais pessoas nos próximos anos”, diz Yogui, lembrando que hoje a Casa de Repouso Akebono, em Guarulhos (SP), tem capacidade para 50 idosos com média de idade de 90 anos. “É uma satisfação saber que as pessoas estão vivendo mais, mas temos que estar preparados e para isso, o papel da família é fundamental”, explica Yogui, observando que, “se a família não se preocupar e cuidar de seus idosos, dificilmente entidades como a Enkyo vão conseguir absorver tanta gente”.

Centro-dia – “O que nós projetamos já está em estudo. Nós vamos trabalhar no sentido de implantar Centro-dia de atendimento para idosos. Isso quer dizer que nós vamos cuidar dos idosos durante o dia e as famílias buscam à noite. Isso minimizará os custos e poderemos atender mais gente”, explica Yogui, afirmando que outra sugestão é criar um novo modelo de atendimento envolvendo parcerias com associações nikkeis.
“Nós sabemos que hoje existem diversas associações ociosas”, conta. A ideia, explica, é criar um modelo de parceria com essas associações em que a Enkyo dê suporte não só de organização e funcionamento, mas também de assistência. “Fica como um embrião, mas claro que nós vamos investir em novas unidades”, assegura Yogui. “O que não podemos nos esquecer é que os idosos, mesmo que não reconheçam mais as pessoas, têm sentimentos e o envolvimento da família nessa hora é muito importante no sentido de oferecer calor humano”, diz ele, destacando que outra preocupação é quanto ao aumento do número de pessoas dependentes.
“A pessoa entra nas unidades independente mas rapidamente torna-se dependente. Embora natural e seja uma tendência, o número de pessoas dependentes está aumentando bastante e criando dificuldades porque existem exigências, como a contratação de enfermeiro padrão. O que nós queremos é separar as unidades. Hoje, na Casa de Repouso – Santos Kosei Home, por exemplo, têm seis ou sete que estão em situação de dependentes. Temos o Akebono que já está lotado, então, precisamos pensar. Precisamos criar novas vagas no mesmo local ou em unidades estanque”, conta Yogui, afirmando que existe um projeto de uma nova unidade próxima à Akebono.
Segundo ele, novos investimentos na assistência social só é possível graças ao Hospital Nipo-Brasileiro, que vai muito bem, obrigado.

O presidente do Conselho Deliberativo, Yoshiharu Kikuchi (Aldo Shiguti)

Saúde – “Todos nós sabemos que a saúde tem um papel fundamental porque a área de assistência social é altamente deficitária. Hoje conseguimos manter a assistência social graças ao Hospital Nipo-Brasileiro, que gera recursos suficiente para suprir essa parte deficitária. Isso é normal. Temos consciência disso mas também sabemos que nada é eterno”, explica Yogui.
E a Diretoria da Enkyo quer aproveitar esse bom momento do HNB e criar condições para que, em um eventual período de baixa, “nós possamos continar atendendo”. “Se não criarmos condições nessa época que estamos bem para que possamos continuar atendendo, aí toda a estrutura corre risco. Nossa responsabilidade, nesse momento é o de criar condições para que perpetue esse atendimento. E estamos investindo muito no HNB. Toda parte de equipamento é de última geração para proporcionar conforto não só para as pessoas que vão utilizar mas também para os médicos”, observa Yogui, acrescentando que outra preocupação é quanto ao atendimento.

Diferenciais – “É sabido que grandes corporações estrangeiras estão investindo muito e comprando hospitais não só em São Paulo como no Brasil todo. Isso porque, depois de 2015, quando foi aberto a possibilidade de estrangeiros investirem na saúde, muito capital americano tem chegado no Brasil. Isso traz muitas dificuldades para um hospital particular como o nosso porque não temos como competir com essa força. Precisamos, então, ter diferenciais. Diferenciais de atendimento, diferenciais de calor humano”, destaca Akeo Yogui, esclarecendo que a busca pela qualidade e segurança do atendimento tem sido prioridade na gestão hospitalar.

Diretoria organizou jantar restrito para recepcionar convidados do Japão; evento contou com a presença do cônsul geral (Aldo Shiguti)

Certificações – “Desde 2013 contamos com a certificação de nível 3 de Excelência (ONA), mas não paramos por aí. Precisamos evoluir e há dois anos iniciamos a busca de uma certificação internacional, o Qmentum, de origem canadense. Em outubro virá uma equipe para o Brasil verificar in loco como está o nosso procedimento. Estamos bastante otimistas, trabalhando há dois anos porque o processo é muito minucioso, o que é muito bom pois isso gera mais segurança. O usuário talvez não saiba, mas nosso índice de mortalidade e de infecção hospitalar são muito baixos em relação a qualquer hospital. Nós estamos muito seguros em relação a isso e se tiver outras certificações nós vamos buscar porque nós queremos evoluir cada vez mais. Não temos medo de investir em termos de segurança e melhorias para pacientes”, diz Yogui, explicando que “temos uma certa limitação de espaço físico, mas isso não impede de termos uma tecnologia de ponta e procedimentos modernos”.

Ampliação – Outra meta que deve ser concluída em breve é a construção de uma nova torre, de 16 andares que será instalada ao lado do prédio principal construído em 1988. Segundo Akeo Yogui, as obras estão um pouco atrasadas, mas o lançamento da pedra fundamental deve ocorrer ainda este ano, dentro das comemorações dos 60 anos da Enkyo.

Tempo de permanência – Além de expandir a área física para oferta de serviços – o HNB passará dos atuais 245 leitos para cerca de 350 – e melhorar a qualidade de atendimento prestados aos pacientes, a ideia é trabalhar para reduzir o tempo de permanência dentro do hospital. “Antes o tempo de permanência era de 5 ou 6 dias. Hoje caiu para 4 a 5 dias e a tendência é reduzir ainda mais por causa dos avanços tecnológicos e das cirurgias invasivas. A prioridade é dar alta, mas sempre com segurança”, diz, afirmando que o Hospital de São Miguel Arcanjo também deve ter novidades.
Inaugurado em agosto de 2013, o HSMA surgiu com o objetivo de oferecer à cidade e sua região um atendimento 100% SUS. “Até recentemente nós projetamos ou construir um novo hospital ou administrar um novo hospital ou ainda comprar um novo hospital. Mas do ano passado para cá nosso foco é utilizar aquele que nós temos hoje. Temos em São Miguel Arcanjo um hospital com 50 leitos e uma área de mais de 10 mil2 de terreno. A princípio aquele hospital foi projetado para 100 leitos, mas como a cidade é pequena e não tinha a autorização de internação hospitalar, que é fundamental para nós, mesmo com 50 leitos é ocioso porque a média de ocupação é de 30 leitos. Estamos trabalhando junto ao governo do Estado e ao Ministério da Saúde a possibilidade de utilizar 30 leitos para unidades de cuidados prolongados, ou seja, idosos que necessitam de cuidado mas não necessariamente dentro de um hospital”, explica Yogui, afirmando que a Enkyo também está trabalhando para que o Hospital de São Miguel Arcanjo faça parte de uma rede de atendimento da região. “E nós vamos ficar responsáveis pelo setor de ortopedia”, revela Yogui esclarecendo que isso ainda está em fase de estudo e vai depender do que acontecer mais para frente.
Essa mudança passa pelo projeto de obtenção da autorização de internação hospitalar, que dobraria a capacidade de atendimento. “Estamos atentos e trabalhando com a perspectiva que uma nova nova lei seja aprovada e aí teremos que aumentar um pouco nosso atendimento SUS, mas de qualquer forma estamos antecipando uma coisa que achamos que vai acontecer”, afirma Yogui.
Certo mesmo, além da ampliação do Hospital Nipo-Brasileiro é a construção de um prédio de seis andares para atendimento do Projeto de Integração Pró-Autista (Pipa). As obras devem ser iniciadas até o final deste ano. “Queremos fazer um modelo de atendimento em que a Enkyo ofereça suporte para outras pessoas interesadas”, diz Akeo.

Fachada do prédio (divulgação)

Enkyo foi fundada por 32 representantes da comunidade

O Hospital Nipo-Brasileiro é unidade integrante da Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo (Enkyo), entidade filantrópica de utilidade pública sem fins lucrativos. Fundada em 28 de janeiro de 1959 por um grupo de 32 representantes da colônia com o nome de Associação de Assistência aos Imigrantes Japoneses, tinha como foco principal oferecer assistência aos imigrantes do pós-guerra, ajudando-os em seu desembarque no Porto de Santos e acolhendo os membros fragilizados na Casa do Imigrante. Em seguida, a Instituição estendeu o serviço assistencial àqueles que enfrentavam dificuldades diversas e também passou a oferecer assistência médica por intermédio de um consultório em São Paulo e da Assistência Médica Móvel (Junkai), a partir de 1960.
A Enkyo, crescendo sempre atenta às necessidades ditadas pelas mudanças sociais e, graças ao apoio e colaboração de inúmeras pessoas físicas e jurídicas, seja pelo trabalho voluntário ou por doações, tornou-se referência na comunidade pela qualidade de seu trabalho na área da saúde e de assistência social. Atualmente conta em sua estrutura de atendimento a Sede Social, Serviço Social, Associados e Assistência Médica Móvel. Na área da Saúde detém, além do Hospital Nipo-Brasileiro, o Centro Médico Liberdade, Hospital São Miguel Arcanjo, Pronto Atendimento São Miguel Arcanjo, Unidade Comunitária – Hospital Nipo-Brasileiro e Projeto de Integração Pró-Autista (Pipa).
Com grande destaque na assistência social, atualmente, a Enkyo mantém a Casa de Repouso – Santos Kosei Home, Recanto de Repouso Sakura Home, Casa de Repouso Akebono, Yassuragui Home e Centro de Ação Social Enkyo – Unidade Amami.

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