NIPPAK RURAL: Inovação e tecnologia: Agricultura brasileira entra na era da Ciência de Dados

A agricultura de precisão pode ser aplicada em qualquer cultura, de sistema irrigado a florestas (divulgação)

*Mariuza Rodrigues

Em se tratando de inovação tecnológica na área agrícola, o Brasil conversa de igual para igual com as grandes potências tecnológicas do mundo graças a introdução, há 20 anos, da agricultura de precisão. De acordo com Ricardo Inamasu, agrônomo e líder da Rede de Agricultura de Precisão da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) a Agricultura de Precisão (AP) é um sistema de gestão da lavoura que leva em conta a variabilidade espacial para aumentar o retorno econômico e reduzir os efeitos ao meio ambiente.
O sistema é capaz de analisar diversas variáveis como condições de umidade, maior acúmulo de matéria orgânica, áreas com melhor drenagem e assim por diante, para traçar um plano de lavoura e aproveitamento do solo. “É uma agricultura que, por se basear em informações detalhadas da lavoura, gera uma quantidade gigantesca de dados. A agricultura na era digital depende de dados. Não há agricultura digital sem os dados. Por outro lado, o poder de processamento da “era digital” eleva a agricultura de precisão também a um outro patamar”, informa Ricardo Inamasu para a coluna Nippak Rural.
Dois pesquisadores norte-americanos, Kenneth A Sudduth, especialista em Agricultura de Precisão (AP), e a cientista de solo Kristen Veum, visitaram o Brasil em, em julho, para conhecer as tecnologias da Embrapa na região Sudeste e sistemas de cultivo no Centro-Oeste do País. Os cientistas demonstraram grande interesse nas pesquisas que analisam a matéria orgânica, textura, pH, e conteúdo de macro e micronutrientes dos solos com o emprego da técnica baseada em laser, conhecida como LIBS, sem tratamento químico nas amostras. Um projeto conjunto permitirá validar o LIBS, desenvolvido pelos brasileiros para as análises de solos, no estado de Missouri, nos Estados Unidos.
Acompanhados por Inamasu, os pesquisadores visitaram os laboratórios da Embrapa Instrumentação, a infraestrutura e tecnologias do Laboratório de Referência Nacional em Agricultura de Precisão (Lanapre), inaugurado em 2013 para pesquisar e desenvolver equipamentos, sensores, componentes mecânicos e eletrônica embarcada, os pesquisadores conheceram robôs, drones, sensores, entre outras ferramentas de AP. Pesquisas envolvendo agricultura 4.0, Internet das Coisas (do inglês, Internet of Things – IoT), entre outras, foram o foco da visita dos norte-americanos à Embrapa Informática Agropecuária. Na Embrapa Pecuária Sudeste, eles conheceram o sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o GreenFeed, o GrowSafe e o Sistema de Leite, acompanhados do pesquisador Alberto Bernardi e do analista Wilson Malagó Junior.

Salto para o futuro

Inamasu, agrônomo e líder da Rede de Agricultura de Precisão (divulgação)

A agricultura de precisão começou a ser praticada no Brasil há 20 anos, mas a partir da introdução de sistemas de informação como o GPS (Sistema de Posicionamento Global) e a eletrônica embarcada, ela ganhou um novo impulso. “Pode-se aplicar a agricultura de precisão em todas as culturas, desde a fruticultura e até em florestas, além da pecuária e em sistemas irrigados. Os avanços estão sendo realizados em diversas frentes, mas talvez, com o poder de processamento aumentando de forma impressionante, ferramentas baseadas em inteligência artificial devem despontar como um dos principais avanços no momento”, explica.
As pequenas lavouras devem ser muito beneficiadas pois o sistema permitirá melhor aproveitamento das terras disponíveis. “A adoção da técnica em fruticultura, viticultura/vitivinicultura – sistema global de produção de uvas e de vinhos – e lavouras de maçã faz parte de exemplos já consolidados. As imagens de satélite que hoje temos disponíveis, apenas conectando-se à internet ou mesmo os celulares com capacidade intermediária, favorecem aos produtores com poucos recursos” destaca o agrônomo.
Devido à disponibilidade de máquinas, as lavouras de grãos foram as pioneiras em uso de GPS e Sistema de Informação Geográfica. Um exemplo eficiente é o da SLC Agrícola, que desenvolve grandes culturas empregando os diversos sistemas disponíveis. Atualmente, segundo o engenheiro, o Brasil vem avançando rapidamente em lavoura de algodão, principalmente na região de Mato Grosso, devido ao forte apoio do Instituto Matogrossense do Algodão (IMAmt) – a  instituição de pesquisa privada foi construída por produtores sob a gestão da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa).
Inamasu destaca o papel da Embrapa nesse processo a partir do desenvolvimento de metodologias que beneficiam os produtores na lavoura. “As empresas desenvolvedoras beneficiam-se, à medida que ajudamos a amadurecer o mercado”, ressalta.
O uso da agricultura de precisão deverá impactar também a economia das grandes cidades, como São Paulo, ao gerar novas profissões e empregos no setor de tecnologia (TI), mas será preciso desenvolver novas habilidades.
“Essas novas profissões que estão surgindo para atender ao crescimento do campo exigem uma visão holística. Deve-se conhecer em profundidade a lavoura, dominar conhecimentos de informática e das máquinas como ferramentas. Mas ainda são poucos os cursos que oferecem tal visão”, lamenta.
Essa lacuna tende a atrair o interesse de startups, que assumem papéis fundamentais na geração de novos produtos, no entanto é fundamental que esses produtos sejam integrados e cheguem ao campo em uma ferramenta única. Este é um novo ciclo que está apenas começando: “Devido ao avanço das tecnologias, ainda haverá muitos saltos. Mas com certeza, poderemos esperar uma agricultura muito mais sustentável com forte integração entre a natureza e o homem”, diz Inamasu.
O engenheiro nikkei faz questão de ressaltar que tanto a agricultura praticada no país como a Embrapa devem ser, antes de tudo, um “orgulho” para todos os brasileiros. E homenageia as contribuições de imigrantes de vários países que contribuíram para om que é a agricultura do país hoje. “Sinto que estamos fazendo parte dessa construção de um país que pode dar uma grande contribuição ao mundo em termos de segurança alimentar e paz mundial. Os imigrantes japoneses podem se orgulhar também ao ver seus filhos participando dessa construção”.

Semana sim, semana não, o Jornal Nippak passa a publicar – a partir desta edição–, a coluna Nippak Campo assinada pela jornalista Mariuza Rodrigues. E-mail: mariuzarodrigues2020@outlook.com.br.

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