‘Meu objetivo é tornar o Bunkyo uma entidade reconhecida e respeitada na sociedade brasileira’

(Jiro Mochizuki)

Quarta-feira, dia 04 de dezembro. Renato Ishikawa encontra uma brecha em sua atribulada agenda para atender a reportagem do Jornal Nippak para um balanço sobre seu primeiro ano à frente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social).
Foi um ano “cheio”. E nem poderia diferente, afinal, foram os primeiros oito meses de uma gestão que promete tornar a entidade “um novo Bunkyo”. Desde que assumiu, em abril deste ano, sucedendo Harumi Goya – a primeira mulher a presidir a principal entidade representantiva da comunidade nikkei – Ishikawa mostrou o seu estilo, o mesmo que o consagrou à frente do Hospital Santa Cruz e de empresas como a Nec do Brasil. Apesar do pouco tempo, já é possível notar algumas mudanças. Como uma participação mais efetiva dos jovens, não só na Diretoria como também na coordenação de eventos.
Mas engana-se quem imagina que é tudo um mar de rosas. Segundo ele, presidir o Bunko é mais complicado do que possa parecer. “Precisaria ter umas 36 horas para a gente dar conta de tudo”, explica Renato Ishikawa, que completou 81 anos de vida no dia 20 de dezembro.
Nesta entrevista ao Jornal Nippak – que foi acompanhada pelo secretário geral administrativo do Bunkyo, Eduardo Goo Nakashima, e pela jornalista Célia Abe Oi – Renato Ishikawa faz um balanço de seus primeiros oito meses à frente da entidade.
As ações e planejamento para 2020, incluindo as atividades para as comemorações dos 65 anos do Bunkyo, foram publicados na edição de 19 a 25 de dezembro do Jornal Nippak.

Jornal Nippak: Qual o balanço que o senhor faz destes primeiros oito meses?
Renato Ishikawa: Acho que nós revitalizamos o Bunkyo no que diz respeito aos eventos, principalmente os eventos conduzidos e coordenados pelos jovens, que são o Bunka Matsuri, o Sakura Matsuri e a nova administração do Pavilhão Japonês, com o Claudio Kurita, além da Comissão Empresarial, que também está sendo conduzida por um grupo de jovens coordenado pelo Gioji Okuhara. Colocamos sangue novo e está dando resultado positivo.

JN: Resultado em termos de público ou financeiro?
R.I.: Os dois. Por exemplo, no Bunka Matsuri nós tivemos 18 mil pessoas, um recorde em termos de visitantes. No FIB – Fórum de Integração Bunkyo – apesar de não estar presente, fui informado que foi muito bom [Eduardo Goo Nakashima, que participa da entrevista comenta: Quando o FIB começou era uma coisa, mas nos últimos seis anos passou a ter mais impacto, não só pelo conteúdo como também pelo número de participantes]. O que estou fazendo é visitar pessoalmente os Bunkyos e as associações nikkeis principalmente fora do Estado de São Paulo (Eduardo Nakashima: E fora do Brasil também].

JN: O senhor tem ideias de quantas entidades o senhor já visitou?
R.I.: Promissão, Marília, Pompeia, Presidente Prudente, Álvares Machado, Lins, Araçatuba, São Gotardo, Maringá, Campo Grande, Porto Alegre, Brasília, Tomé-Açu, Belém e Manaus. [Eduardo Nakashima: Em Brasília nas comemorações dos 111 anos da imigração japonesa, o Renato Ishikawa fez um discurso no Plenário da Câmara dos Deputados, algo que não acontecia há pelos menos 30 anos. O Kokei Uehara esteve lá em função do Centenário, mas não discursou]. Ainda sobre visitas, participei da Copani [Convenção Pan-Americana Nikkei], em São Francisco, nos Estados Unidos, e continuei viagem para Tóquio, onde discursei no 60º Kaigai Nikkeijin Kyokai perante o casal imperial, o imperador Naruhito e a imperatriz Masako, em nome dos nikkeis do mundo todo. E depois assisti a Cerimônia de Entronização, no dia 22 de outubro, e participei do jantar oferecido pelo primeiro-ministro Shinzo Abe e depois do almoço oferecido pela família imperial no dia 24.

JN: Uma das questões discutidas na Convenção foi em relação à identidade nikkei, tema que também esteve presente durante este ano no Bunkyo….
R.I.: Sem dúvida. Os jovens estão fazendo um workshop em várias localidades do Brasil para identificar qual é o verdadeiro papel do nikkei. Trata-se do projeto Geração, que ainda não fechou. Esperamos divulgar os primeiros resultados até junho de 2020, sobre qual o legado nikkei. Queremos divulgar no Dia Internacional do Nikkei [a ser comemorado todo dia 20 de junho]. A ideia é fazer um grande evento juntando o Dia Internacional do Nikkei e o Dia Nacional da Imigração Japonesa (18 de junho).

JN: Sobre o Pavilhão Japonês, que o senhor citou, houve uma mudança na Comissão de Administração, com o Cláudio Kurita no lugar do Lé Ota. Qual o motivo da troca nesse momento?
R.I.: Nós achávamos que tinha que modernizar o Pavilhão e também o conceito de adminstrar porque aquilo para mim é um tesouro, um patrimônio único que não existe nem no Japão. Nós modenizamos e o Claudio Kurita, que está tocando hoje, está com várias ideias que serão colocadas em prática em 2020. Esperamos que haja uma revitalização e que o Pavilhão também se torne autossuficiente financeiramente. Esperamos que em 2020 tenhamos boas novidades para divulgar em relação ao Pavilhão Japonês.

JN: Por falar em autossustentável, além do Pavilhão Japonês, o Bunkyo administra também o Museu…
R.I.: O Museu você sabe, está revitalizado graças a ajuda de empresas japonesas, principalmente da Toyota, que encabeçou e puxou a fila para que as demais empresas pudessem doar para a reestruturação do Museu. Vamos continuar modernizando o Museu porque o museu não pode ser uma área morta, só de exposição. Tem que ter pesquisa sobre imigração, tudo isso faz parte do Museu Hsitórico da Imigração Japonesa. E vamos continuar investindo para que ele seja uma referência no mundo inteiro. Visitei o museu de Yokohama, no Japão, e o de Lima, no Peru, e nada se compara ao que temos aqui. Temos um acervo muito maior porque a comunidade aqui é bem maior. A história da imigração japonesa no Brasil é realmente muito mais rica que em outros países, não subestimando a imigração em nenhum outro país. Agora, neste final de ano, a Lidia Yamashita [presidente da Comissão de Administração do MHIJB] propôs na Convenção dos Nikkeis Residentes no Exterior a realização dos museus da imigração japonesa na América Latina e todos concordaram e faremos isso provavelmente em novembro do ano que vem.

JN.: E tem também o Kokushikan…

(Jiro Mochizuki)

R.I.: [Eduardo Nakashima: O Sakura Matsuri bateu recorde] [risos]. Brincadeiras à parte, o Kokushikan é um assunto bastante complexo e sério e a cada hora surge uma novidade para ser posta em discussão. Temos que tornar o Kokushikan pelo menos autossustentável. E para isso nós temos risco de segurança e de manutenção. Estamos construindo um pavilhão [denominado Kazuo Harasawa], que é de primeiro mundo, muito bonito, com uma arquitetura fantástica e com material utilizado mais ainda. Então, isso é bom por um lado mas por outro traz problemas como, por exemplo, de manutenção, além de outras coisas.

JN.: Em relação ao pavilhão como legado dos 110 anos, surgiram opiniões contrárias?
R.I.: Acho que não. Quando foi votado eu não estava aqui mas acho que não. Agora não é hora de se discutir, tem que tocar para viablizar o Kokushikan, essa é a nossa meta: viabilizar o Kokushikan, Temos discutido e trabalhado muito fortemente nisso para viabilizar o Kokushikan. Hoje não temos outra solução. Aquilo foi uma doação da Universidade Kokushikan e temos que continuar tocando. Dá dor de cabeça, é verdade, mas futuramente vai se tornar um tesouro. Não sei quanto tempo ainda vai demorar, mas com a duplicação da [Rodovia] Bunjiro Nakao o acesso vai melhorar. Em 2020 estamos pensando em realizar dois eventos, o Sakura Matsuri e o Haru Matsuri – Festa da Primavera – em setembro, mas futuramente queremos realizar também o Akimatsuri, fora outros eventos que precisamos criar para arrecadar recursos e usar o espaço.

JN.: Qual foi a grande mudança do Sakura Matsuri para que ele desse lucro?
R.I.: Nós fizemos em dois finais de semana, sendo que antes era realizado em apenas um. Tem gente já falando em três, mas aí acho que não dá. Tivemos que fazer em dois finais de semana e apresentar um atrativo maior para chamar o público. E as pessoas corresponderam, apesar de ter chovido em um final de semana e de ter ficado muito próximo do Festival do Japão.

JN: Ficou alguma coisa que o senhor gostaria de ter feito e por algum motivo ainda não conseguiu realizar?
R.I.: Tem. Por exemplo, a reforma deste prédio. Essa é uma outra grande preocupação que eu tenho. Muitas áreas precisam de reformas, outras de manutenção… Como não conseguimos fazer isso em 2019 vamos fazer em 2020 para realmente criar uma forma de utilização melhor dos espaços que nós temos.

JN: Quais, por exemplo?
R.I.: O Espaço Multiuso, o Grande Auditório, que estamos usando mas que acho que ainda está subutilizado e para isso temos que melhorar o palco e construir um camarim melhor, até para que possamos atrair artistas renomados. Temos o Pequeno Auditório também. Ali também está subutlizado. Acho que o prédio precisa de uma gestão melhor para poder utilizar cada espaço de uma forma mais efetiva. Isso ajuda a melhorar o nome do Bunkyo e ajuda financeiramente.

JN: Outra questão que sempre preocupou foi a saúde financeira do Bunkyo. Como o senhor está lidando com esta questão?
R.I.: Acho que, segundo a previsão que foi feita pelos diretores, vamos fechar em azul, não em vermelho. Vamos ter superávit de R$ 100 mil. [Eduardo Nakashima: Nos últimos anos tem melhorado e isso se deve também às gestões anteriores]. Esse resultado positivo é um reflexo da melhora do Bunka Matsuri e do Sakura Matsuri, ou seja, os grandes eventos do Bunkyo já deram um resultado positivo.

JN: Tanto financeiramente como em termos de público?
R.I.: Exatamente. Tanto na palestra 5.0 como no concerto com o Coro da Osesp o auditório ficou lotado. Tudo isso demonstra a credibilidade que o Bunkyo está tendo.

JN: Outro fato importante nestes primeiros oito meses foi a parceria com entidades como a JCI Brasil-Japão…

(Jiro Mochizuki)

R.I.: Ah, sim, estamos trabalhando muito forte e a JCI tem nos ajudado a muito a divulgar os nossos eventos.

JN: Mas está vindo um público diferente daquele que estanos acostumados a ver no Bunkyo?
R.I.: Sim, sem dúvida, muitos jovens. E também não nikkeis, o que para nós é muito gratificante . Não nikkeis que são fãs da cultura japonesa.

JN: Além das respostas positivas do Bunka Matsuri e do Sakura Matsuri o que mais foi feito para atingir esse superávit?
R.I.: Nós cortamos muitas coisas, como o patrocínio, por exemplo.

JN: E aí entra também a experiência que o senhor teve à frente do Hospital Santa Cruz ou é muito diferente?
R.I.: Entra um pouco sim. Mesmo aqui no Bunkyo, nós temos pessoas com experiência em empresas, isso faz uma diferença. O Gioji Okuhara foi presidente de várias empressas, tem uma vasta experiência em empresas top. E temos o Herberto Yamamuro, que presidiu a NEC e me ajudou no hospital Sabta Cruz.

JN: Então, pelo jeito está sendo mais fácil que o senhor imaginava?
R.I.: Não, ao contrário, está sendo mais difícil

JN: Mais difícil em que sentido?
R.I.: Demanda muito mais tempo. Precisaria ter 36 horas para atender todos os compromssos. E não tenho mais finais de semana, acabou. Eu diria que é muito complexo.

Renato Ishikawa: “Quero retribuir à comunidade nipo-brasileira o que a vida me proporcionou” (Jiro Mochizuki)

JN: Então qual a satisfação em ser presidente de uma entidade como o Bunkyo?
R.I.: Primeiro, é interessante falar porque eu aceitei vir para cá. Primeiro porque eu gosto de desafios e segundo, porque eu penso que tive sorte na minha vida. Sorte porque sempre tive saúde. E consegui bons resultados na minha carreira profisisonal. Entendo que eu tenho que devolver isso para a sociedade e nada mais justo que devolver para a comunidade nikkei com quem eu não tinha grandes relacionamentos. Trabalhei na Ericsson, uma empresa sueca, e depois na NEC que, apesar de ser uma empresa japonesa eu não tinha esse relacionamento com a comunidade. Isso me levou a refletir e cheguei a conclusão que tenho que retribuir à comunidade, esse foi o principal motivo que me fez aceitar ser presidente. Agora, a satisfação eu vou ver daqui a dois anos, caso eu consiga realizar tudo que planejei, ou seja, criar um ‘novo Bunkyo’. Sem desmerecer todos que passaram por aqui pois todos que me sucederam cumpriram seu papel maravilhosamente bem, mas agora temos que modernizar o Bunkyo, torná-lo mais conhecido e mais respeitado não só na comunidade como também fora dela. Um dos meus objetivos é que a sociedade brasileira como um todo reconheça o Bunkyo efetivamente como uma entidade representativa da comunidade nikkei. Por exemplo, se alguém dos Estados Unidos quiser falar com alguém da comunidade nikei, que procure então o Bunkyo por que aqui nós congregamos basicamente toda a comunidade nikkei. O Bunkyo tem que ser uma entidade respeitada, que tenha orgulho dos nikkeis e que se faça representar para a sociedade como um todo tanto a brasileira como no Japão.

JN: O senhor que viaja muito pelo exterior viu alguma entidade parecida e com esse potencial?
R.I.: Tem, o Gioji Okuhara, por exemplo, esteve recentemente em Nova York vistando a Japan Society, que é uma espécie de Bunkyo de lá e tem uma representatividade maravilhosa dentro da sociedade americana. Mas só que tenho que fazer uma ressalva porque a cultura americana é diferente da nossa. No entanto, quando se tem uma entidade com credibilidade, com trabalho sério, eles doam valores e valores grandes para manter essa instutuição. Essa Japan Society tem prédio próprio que foi doado pela Fundação Rockefeller, quer dizer, essa cultura nós não temos aqui. Recentemente estive no Peru visitando uma instutuição chamada APJ – Associação Peruana Japonesa, que também congrega todas as atividades da comunidade nikkei de lá mas com uma estruturação diferente da que temos aqui. Aqui, por exemplo, temos o Kenren, que é independente, o Hospital Santa Cruz na área da saúde e o Nippon Country Club na área de esporte. Se pudéssemos trabalhar cada vez mais em sinergia, o Bunkyo ficará cada vez mais fortalecido.

JN: Para finalizar, o senhor poderia deixar uma mensagem parea os leitores do Nippak?
R.I.: De trabalho, trabalho e trabalho. Não tem outra forma. Desejo muita saúde porque saúde é a base de tudo e que nos dá condições de podermos trabalhar em prol do beneficio daqueles que mais precisam.

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