MANGÁ: Areyo Hoshikuzu: um novo olhar para uma memória não muito agradável

Mangá Areyo Hoshikuzu (Reprodução)

*Henrique Teixeira Reis

O velho ditado diz que aqueles que não conhecem seu passado estão fadados a repeti-lo, e Areyo Hoshikuzu (KADOKAWA Enterbrain, 2014) de Yamamda Sansuke trata-se justamente disso: um novo olhar para uma memória não muito agradável.
Lançado em 2013 pela revista mensal Beam Comics, o Manga já era destaque em publicações especializadas mesmo antes de sua finalização em 2018. O autor, cujo histórico contava apenas com publicações independentes voltadas para o público adulto, conseguiu nesta estreia chamar a atenção de críticos e leitores recebendo neste ano dois grandes prêmios da indústria: o primeiro na categoria “Novos Autores” no 23º Prêmio Osamu Tezuka e o segundo na categoria “Melhor Obra” na 48ª Premiação da Associação de Cartunistas do Japão.
Sua história tem início no submundo de uma Tóquio em ruínas logo após o término da Segunda Guerra Mundial. E é neste cenário que conhecemos Kawajima Tokutarou. Militar reformado após a derrota de seu país, ele passa seus dias entre gerenciar uma tenda de ensopados e afogar as memórias em sakê. Eis que ao interferir numa confusão em sua tenda Tokutarou reencontra Kuroda Kadomatsu, um velho companheiro de guerra cujo porte físico e aparência lhe renderam a alcunha de “urso” por amigos e conhecidos. Ainda que a contragosto de Tokutarou os dois passam a morar juntos, e ao passo que tentam sobreviver esse cenário pós-guerra relembram acontecimentos de quando serviam no conflito sino-japonês.

Areyo Hoshikuzu (Reprodução)

Escrito a partir de pesquisas feitas pelo próprio autor, o Manga recria um período até então pouco explorado em obras do gênero, trazendo não apenas o conteúdo como também a visualidade e o estilo da época através de referências linguísticas, visuais e até mesmo musicais. Sincero ao retratar personagens numa época rodeada de polêmicas, Areyo Hoshikuzu deixa de lado o julgamento ético de seus personagens para ao invés disso jogar luz sobre como nossas memórias vão, muitas vezes inconscientemente, moldar quem somos e como vivemos o presente.

*Henrique Teixeira Reis é estudante do Departamento de Mangá da Universidade de Kyoto Seika

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