Jica, Abjica e Consulado dão um importante passo para a questão da educação dos filhos de dekasseguis

Akira Auriani “Passo importante para criar algo que possa fazer a diferença na vida dos dekasseguis”

Preocupada com a questão da educação dos filhos dos trabalhadores brasileiros no Japão, a Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão), Abjica (Associação Brasileira dos Ex-Bolsistas Jica) e o Consulado Geral do Japão em São Paulo promoveram, no último dia 14, na Japan House São Paulo, o Seminário “Os desafios da educação dos filhos dos trabalhadores brasileiros no Japão – Os impactos culturais e a adaptação escolar no Japão e no Brasil”. O evento contou com a participação de especialistas. Participaram a professora e pesquisadora Kimiko Nii; a psicóloga Kyoko Nakagawa; a psicóloga Mary Yoko Okamoto; a psicanalista e psicoterapeuta intercultural Sylvia Duarte Dantas e o ex-bolsista do Gaimusho Kenshusei e vereador do Rio Grande da Serra (SP),  Akira Ono Auriani. Uma seleta plateia formada por profisisonais com atuação na área acompanhou o debate.

O objetivo foi aprofundar o entendimento sobre o assunto junto ao público e também promover reflexões em prol das crianças que enfrentam esta situação. Trata-se de uma questão que já vem sendo discutida há quase três décadas, desde o surgimento do fenômeno dekassegui. Na opinião dos especialistas as dificuldades de comunicação muitas vezes acaba dificultando a adaptação ao ambiente das escolas japonesas,  o que contribui para aumentar a evasão escolar, uma das grandes preocupações dos governos brasileiro e japonês.

Outra questão abordada foi o fato de muitas crianças serem diagnosticadas, erroneamente, como portadores de distúrbios ou “suspeitas de atraso de desenvolvimento” e acabam sendo enviadas para as salas especiais.

Para o presidente da Abjica, Flavio Nakaoka, é hora de colocar o dedo na ferida. “São mais de 20 mil crianças que estão passando por este problema. Quando ficamos sabendo da quantidade de crianças consideradas autistas sociais, ou seja, que não conseguem  se adaptar nem no Japão nem no Brasil, achamos que estava na hora de expor o problema”, explicou, acrescentando que “um, dois ou trê seminários são poucos”.

“A gente ainda precisa fazer muito para disseminar essa informação. Só expondo o problema poderemos encontrar as soluções”, disse Nakaoka, explicando que as palestras serão editadas e enviadas para o Japão, além de serem transmitidas para as mídias nikkeis. “Espero que essas informações transformem a vida dos pais que estão batalhando lá no Japão”.

O cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, considerou o evento “muito significativo”, principalmente depois que o governo japonês aprovou uma lei que permite a entrada de novos trabalhadores estrangeiros. “Acredito que a experiência dos trabalhadores nikkeis brasileiros, a partir da década de 90 será muito importante nesta fase”, disse Noguchi.

 

Pesquisa – Pesquisadora na área de educação para crianças estrangeiras no Japão, Kimiko Nii apresentou os resultados de um levantamento realizado desde 2016 nas províncias de Aichi e Shizuoka sobre crianças estrangeiras com suspeitas de problemas de desenvolvimento.

Ela disse que o sistema japonês de instituições de cuidado infantril é “muito complexo”. Segundo Kimiko, com a falta de pesquisas e estatísticas de forma global, não existe conhecimento preciso da situação de escolarização da educação infantil “mesmo em se tratando de crianças japonesas”. “As informações são ainda mais escassas em relação às crianças estrangeiras. Existem muitos municípios que desconhecem os números de crianças estrangeiras que frequentam as instituições autorizadas tradicionais como Yoshi-en, Hoiku-sho e Nintei Kodomo-en”, explicou, acrescentando que existem dados apenas a partir de escolas primárias e não da pré-escola.

Distribuídas para 840 instituições de ensino (Yochi-en,  Hoiku-sho e Nintei Kodomo-en) das províncias de Aichi e Shizuoka, os questionários tiveram como público-alvo crianças de 3 a 5 anos de idade.

Chegou-se à conclusão que os percentuais de crianças, tanto japonesas como estrangeiras, diagnosticadas medicamente como transtornos, em média, foram de 2 a 3% e que o percentual das crianças estrangeiras, cujos pais ou responsáveis suspeitam de algum problema de de desenvolvimento, apesar de não diagnosticado, é duas vezes maior que as crianças japonesas. Outro dado constatado pela pesquisa foram as divergências apresentadas pelos municípios no que diz respeito à escolarização de educação infantil das crianças estrangeiras.

 

Pesquisa – Idealizadora do projeto Kaeru, que tem como objetivo oferecer um trabalho de intervenção psicológica, social, psicopedagógica, de acompanhamento e de reforço escolar às crianças do ensino fundamental da rede pública de educação que, em decorrência dos processos migratórios, mais precisamente, do movimento dekassegui, apresentam dificuldades de (re)adaptação à sociedade brasileira, a psicóloga Kyoko Nakagawa abordou o tema “Crianças brasileiras com suspeitas de distúrbios de Desenvolvimento no Japão e no Brasil”. Ela destacou que desde 2014 o projeto vem recebendo crianças diagnosticadas no Japão e que desde então tem ido com frequência para lá.

Kyoko informou que, no Japão, uma entidade chamada Sabja (Serviço de Atendimento aos Brasileiros no Japão) – organização sem fins lucrativos (NPO) fundada em 1998 – entidade que presta serviços relacionados à saúde, educação e assistência social aos brasileiros residentes no Japão –  está realizando uma pesquisa, com apoio da Embaixada do Brasil, sobre crianças brasileiras autistas nas escolas japonesas

Iniciada em 31 de outubro do ano passado, a pesquisa abrange as cidades de Toyohashi e Toyota (em Aichi); Hamamatsu (em Shizuoka); Oizumi (em Gunma); Echizen (em Fukui) e Izumo (em Shimane). Kyoko informou ainda que o distrito de Minato-Ku, em Tóquio, fará parte por ter um número alto de brasileiros residentes, embora sejam considerados de renda média e alta.

“Do nosso lado estamos desenvolvendo grupos de discussão com entidades que atendem crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) – ou autismo – em São Paulo, como Apae, Ama, Lugar de Vida e Pipa, além de abrir canais de discussão com profisisonais japoneses e firmar parceria com a Fundação Japão”, destacou.

 

Fragilização – Já a psicóloga Mary Yoko Okamoto, que falou sobre “Os aspectos familiares e a segunda geração de dekasseguis”; comparou o processo de imigração ao Brasil com o fenômeno dekassegui. Segundo ela, da mesma forma que os imigramtes que vieram para cá não tinham objetivo de fixar residência no Brasil, também os dekasseguis eram considerados trabalhadores temporários.

A partir da década de 2000, no entanto, esses dekasseguis passaram a ser vistos como “residentes e não mais como trabalhadores temporários e passaram a ser considerados imigrantes, ou seja, brasileiros no Japão”.

Mary destacou que, dos pouco mais de 185 mil brasileiros nessa condição (segundo dados de 2018 do Consulado Geral do Brasil em Tóquio) cerca de 27 mil (ou 15% da população) são brasileiros dekasseguis em idade escolar (6 a 18 anos).

Para ela, o processo migratório acaba fragilizando a família e a falta de planejamento acaba trazendo conquência para o futuro profissional e pessoal dos filhos.

A psicanalista e psicoterapeuta intercultural Sylvia Duarte Dantas, que abordou o tema “Crescer entre Brasil e Japão: um quebra-cabeças recorrente”, contou um pouco sobre sua experiência vivida no Japão. Apesar dom pouco tempo em que esteve n o país, foram 15 dias apenas, notou que “voltou falando mais baixo, mais contida e gesticulando menos com as mãos”.

 

Passo importante – Último palestrante do dia, o ex-bolsista do Gaimusho Kenshusei, Akira Ono Auriani, falou sobre as instituições de apoio educacional aos trabalhadores estrangeiros no Japão. Destacou os trabalhos da ABC Japan e da Sabja. Sobre o seminário, Akira Auriani disse que, “trata-se de uma discussão antiga, porém, com um tema novo”. Acho que agora é a hora de juntar os esforços de todas as entidades da comunidade nikkei e deixar de lado alguns egos que atrapalham na coordenação de projetos e unir todo mundo que queira realmente contribuir para levar algo de bom para os brasileiros que vivem no Japão. Acho que esse tema, principalmente da questão do autismo, das dificuldades que os brasileiros passam – que já é muito antigo – é momento de a gente se juntar enquanto sociedade japonesa brasileira e fazer um trabalho positivo pensando nos que vivem lá. Acho muito oportuna essa discussão que a Jica juntamente com a Abjica trazem à tona”, disse Akira, que também é diretor de Educação, Cultura e Assuntos Nikkeis da Abjica. “Até coloquei que é necessário chamar o Consulado, o Itamaraty, enfim, o governo brasileiro, e fazer com que a politica realmente favoreça os brasileiros que hoje vivem no Japão”, disse, explicando que “acredito que hoje demos um passo muito importante para que possamos criar algo que faça diferença na vida das pessoas. É o que eu espero de coração”, finalizou Auriani.

(Aldo Shiguti)

 

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