JCI Brasil-Japão promove bate-papo sobre liderança feminina

(Jiro Mochizuki)
(Jiro Mochizuki)

Em apoio ao movimento HeforShe da ONU, a JCI Brasil-Japão realizou no último dia 26, no Auditório José Bonifácio da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, bate-papo sobre liderança feminina com a cônsul geral do Consulado Geral do Japão em Manaus, Hitomi Sekiguchi, a então presidente do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, Harumi Goya (que deixaria o cargo no dia seguinte), e a ex-presidente da Japan House São Paulo, ex-superintendente do Shopping D&D, Ângela Hirata, que em 1º de maio assumiu a Curadoria Innovation do Center Norte.
O evento, que contou com apoio do deputado estadual Altair de Morais, reuniu algumas das principais lideranças da comunidade nikkei, entre elas o presidente do Hospital Santa Cruz, Renato Ishikawa – que no dia 27, portanto, um dia depois assumiu a presidência do Bunkyo –, o presidente do Nippon Country Club, Valter Sassaki, o ex-desembargador Kazuo Watanabe, entre outros.

Rodolfo Wada com as participantes Ângela Hirata, Harumi Goya e Hitomi Sekiguchi (Jiro Mochizuki)
Rodolfo Wada com as participantes Ângela Hirata, Harumi Goya e Hitomi Sekiguchi (Jiro Mochizuki)

Para o presidente da JCI Brasil-Japão, Rodolfo Wada, o movimento He For She, ou Ele para Ela, tem o objetivo de encorajar jovens e homens a tomarem iniciativas e medidas contra a desigualdade de gênero. “A JCI Brasil-Japão realiza ao longo do ano palestras e atividades voltadas à liderança. Ao trazermos estas três grandes líderes para contarem como superaram grandes desafios, geramos inspiração e estimulo para novas lideranças femininas e, assim, criamos um mundo com mais igualdade”, disse Wada, lembrando que, “em 37 anos a JCI Brasil-Japão teve oito presidentes mulheres, a primeira em 1994 (Marisa Shirasuna), e nos últimos cinco anos tivemos três (Camila Stück, Márcia Nakano e Patrícia Murakami)”.
“Foi uma honra receber e aprender com a cônsul Hitomi Sekiguchi, Angela Hirata e Harumi Goya. Com um olhar, postura e palavras firmes, fizeram e fazem história por onde passam. As inscrições para o evento se esgotaram em dois dias e esperamos em breve fazer novos bate-papos como esse”, destacou Wada.
O interesse pelo evento, que era para ser um bate-papo descontraído, acabou surpreedendo até mesmo as participantes. E a cônsul aproveitou para brincar com a situação, o que deixou a plateia mais à vontade. Primeira a falar, Sekiguchi contou sua trajetória diplomática e falou também sobre sua infância, boa parte dela vivida no Brasil – onde, aliás, tomou gosto pela língua portuguesa.
Hitomi iniciou sua carreira no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão – o equivalente ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil – há 31 anos, ou seja, no primeiro ano da era Heisei. Antes de ir para a região amazônica, onde está há um ano, trabalhou no Ministério em Tóquio, na Divisão de Estrangeiros, na Divisão da América do Sul e na Divisão da América Central. Depois, trabalhou na Embaixada do Japão em Brasília, nos Consulados Gerais do Rio de Janeiro, Recife, Belém, São Paulo e agora Manaus.

Assédio – “Conheço muito do Brasil. Conheço muitas peculiaridades e muitas curiosidades. E também tive muito sotaque. Sotaque nordestino, carioca, paulista…. “, brincou, afirmando que optou pela carreira diplomática depois de desistir de ser astronauta.
“Como não era nenhuma criança prodígio, não tinha nenhuma habilidade esportiva nem dons musicais, resolvi aplicar o que sabia: a língua portuguesa, a língua japonesa e o inglês na minha profissão. Aí pensei: Sou japonesa, fui criada no Brasil, conheço a a tradição japonesa e vivencio a tradição japonesa. E resolvi ligar esses dois países que foram a base da minha formação. Pensei em ser tradutora ou intérprete, mas por alguns acasos do destino que a vida sempre reserva ingressei no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão”, disse, explicando que, a “matriz”, em Tóquio, conta com pouco mais de 220 missões diplomáticas entre Embaixadas, Consulados Gerais e organismos internacionais.
Segundo ela, no início de sua carreira, nos anos 90, ainda não haviam muitas mulheres nos Ministério. “Elas estavam começando a conquistar seus espaços. Até por isso mesmo – e acredito que isso não só no Ministério – não existia o termo assédio moral ou assédio sexual. Se existia era pouco comum”, comentou, acrescentando que , “no funcionalismo público, nós somos tratadas em condições de igualdade com os homens”. “Até por isso acho que tivemos mais vantagens do que em empresas de iniciativa privada”, explicou, garantindo que não se sentiu prejudicada pelo fato de ser mulher.
“Acho que existiam alguns comentários ou algumas atitudes mas que nunca me deixaram deprimida. Aprendi a ser forte e a lutar por um lugar, fazendo aquilo que eu deveria fazer: trabalhar e produzir. Não valia a pena ficar aborrecida com essas coisas. Pelo contrário, encontrei homens que me apoiaram e que me deram muita força no início da minha carreira. Me ensinaram que existem coisas que as mulheres podem fazer melhor ou percebem mais que os homens, que a diplomacia da mulher pode sensibilizar mais”, disse Sekiguchi, que acredita ter tido “sorte” por ter encontrado pessoas assim.

Deputado estadual Altair de Morais com organizadores (Jiro Mochizuki)
Deputado estadual Altair de Morais com organizadores (Jiro Mochizuki)

Evolução – “Mas o mundo evolui, e a sociedade também. Portanto, o que era tabu antigamente hoje é normal. O que era considerado antes impossivel hoje ninguém contesta. Na sociedade cada um tem seu papel, sua missão, não importa se é homem ou mulher. As dificuldades sempre existirão, em diversos graus e níveis. E acho que o importante é não deixar que isso freie seus passos. E outra grande diferença que sinto é que hoje podemos ter acesso a muitas informações. Existem muitas pessoas que podem nos ajudar, compreender e também temos mais oportunidades de sermos compreendidas, de podermos compartilhar as mesmas dificuldades”, disse a cônsul, destacando que o governo japonês tem uma pol~itica de incentivo para que mais mulheres possam atuar na sociedade, “principalmente as que têm filhos”. E no caso do nosso Ministério, no mundo todo, por enquanto são quatro embaixadoras e cinco cônsules gerais como eu. Sou a primeira cônsul mulher aqui no Brasil, mas temos muitas mulheres diplomatas competentes que vão chegar à chefia de missões com bastante habilidade”, acredita.
Harumi Goya, que passou a presidência do Bunkyo para Renato Ishikawa no último dia 27, falou sobre sua trajetória de vida, as qualidades importantes de um líder e citou frases que norteiam sua vida.

Evento reuniu lideranças da comunidade nikkei (Jiro Mochizuki)
Evento reuniu lideranças da comunidade nikkei (Jiro Mochizuki)

Falar em público – Agente fiscal de imposto de renda – ajudou a criar e implantar o Departamento de Tecnologia da Informação no governo Mário Covas sob gestão do professor Yoshiaki Nakano – Harumi Goya também foi a primeira mulher – e até agora a única – a presidir a Abjica (Associação dos Ex-Bolsistas Jica – São Paulo). Formada em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia de Barretos, é contemporânea de Akeo Yogui (atualmente presidente do Enkyo – Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo) na Associação Okinawa Kenjin do Brasil, onde aprendeu a falar em público”. “Falar em público não é fácil. E pra gente assumir algum cargo de liderança tem que saber falar em público, tem que se comunicar”, ensina Harumi que chegou à presidência do Bunkyo – principal entidade representativa da comunidade nipo-brasileira – por incentivo do professor Kokei Uehara, que sonhava em ver uma mulher ocupando o cargo.
Ela finalizou sua participação citando algumas frases que norteiam sua vida, entre elas uma de autoria de Eiki Shimabukuro (ex-presidente da AOKB): “Aqueles que sobrevivem não são os mais maiores nem os mais fortes, mas aqueles que conseguem se adaptar às mudanças da época”.

(Jiro Mochizuki)
(Jiro Mochizuki)

Equipe – Última palestrante da noite, a ex-presidente da JHSP, Ângela Hirata, falou sobre a internacionalização das Havaianas e, é claro, sobre sua passagem pelo centro cultural. Nascida “no meio da Segunda Guerra Mundial”, guarda do seu avô a frase: “Seja brasileira, mas não esqueça que você tem origem japonesa”. Formada em Admistração de Empresas, com especialização em Comércio Exterior, sempre gostou de marketing. Conta que decidiu participar da licitação para a Japan House São Paulo para “entender o processo licitatório”. Não só ficou entre os três finslistas como acabou sendo contemplada.
Na inauguração, em 2017, lembra que o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, a parabenizou e disse que se ela conseguisse colocar 150 mil pessoas em um ano, ficaria muito feliz. “Disse que faria o possível”, conta. No primeiro ano, a JHSP recebeu cerca de 900 mil visitantes e nos primeiros 15 meses, mais de um milhão de pessoas passaram pela casa.
“Foi nesse momento que decidi pedir demissão, porque acredito que tinha cumprido minha proposta. Sempre tive na minha forma de ser que, quando se está no topo é o melhor momento para você sair para que seu sucessor tenha motivação para fazer melhor que eu fiz. Foi essa minha intenção e acho que estou sendo muito bem correspondida”, disse Ângela, afirmando que presidir a JHSP foi uma “experiência inédita”.

(Jiro Mochizuki)
(Jiro Mochizuki)

Recado – “Sou brasileira, mas no meu interior tem essa coisa do Japão muito forte. Isso aflorou muito a ponto de querer conhecer mais e mais sobre o Japão. Foi um grande mestrado sobre o Japão”, revelou, Ângela, que no final deixou um recado para os jovens:
“Não existe dificuldade, você tem que buscar solução. Gosto de trabalhar em equipe e nunca digo ‘eu fiz’. A equipe fez comigo porque você não faz nada sozinho. Gosto de criar uma boa equipe, com boa liderança e dar responsabilidades para as pessoas fazerem melhor que eu. Quero ter pessoas trabalhando para mim melhor que eu. Você soma com eles. Essa é minha forma de fazer a minha vida profissional”, explicou.

(Jiro Mochizuki)
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