Idealizado por Hatiro Shimomoto, movimento busca fortalecer comunidade nipo-brasileira

Hatiro Shimomoto durante apresentação, ladeado pelo cônsul Yasushi Noguchi e Yasuo Yamada

Preocupado com os resultados das últimas eleições e. ao mesmo tempo, fortalecer a comunidade japonesa através de representantes políticos valorizando, desta forma, os próprios políticos nikkeis perante às entidades da comunidade, o “sempre deputado” Hatiro Shimomoto organ izou, no último dia 29, em uma das salas cedidas pelo Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil) – no 5º andar do Edifício Bunkyo (à Rua São Joaquim, 381) – no bairro da Liberdade, em São Paulo, o Simpósio “Movimento Político Nikkei”.

A reunião contou com a presença do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, do presidente do Kenren, Yasuo Yamada e do deputado estadual eleito, Coronel Nishikawa (PSL), dos vereadores Ota (PSB) e George Hato (MDB), do vice-prefeito de Guaratinguetá, Régis Yasumura, do ex-deputado estadual Hélio Nishimoto (PSDB) e da ex-deputada federal, Keiko Ota (PSB), além dos assessores Júlio Matsuyama (representando o ex-deputado federal e atual presidente da Jucesp – Junta Comercial do Estado de São Paulo – Walter Ihoshi), Olimpio Kosonoe e Oridio Shimizu (representando o vereador Aurélio Nomura).

Tanto Aurélio Nomura como Walter Ihoshi justificaram suas ausências alegando compromissos assumidos anteriormente. O deputado estadual Márcio Nakashima (PDT), de acordo com informações do próprio Hatiro Shimomoto, teria ido no primeiro local da reunião (marcado inicialmente para o Hotel Nikkey Palace Hotel).

Compõem ainda o Movimento o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) e o ex, Junji Abe (MDB), o vereador de Mogi, Cláudio Miyake (MDB) – que obteve 21.669 votos a deputado estadual – o ex-prefeito de Andradina, Jamil Ono e o vice de Mogi das Cruzes, Juliano Abe (MDB).

Shimomoto, que contabiliza 50 anos dedicados à carreira política – 30 dos quais como deputado estadual (de 1971 a 1999) – estabeleceu como critério chamar apenas parlamentares nikkeis que obtiveram “em torno de 20 mil votos ou mais na última eleição”.

Trata-se na verdade, do desdobramento de uma primeira reunião realizada em dezembro do ano passado em uma churrascaria paulistana e que reuniu os ex-deputados federais Junji Abe, Walter Ihoshi e Keiko Ota, o ex-prefeito de Andradina, Jamil Ono, e os vereadores paulistanos Aurélio Nomura e Masataka Ota.

Idealizador e coordenador também daquele primeiro encontro, Hatiro Shimomoto, disse, na ocasião, que o evento teve como objetivo discutir a importância da representação política dos parlamentares nikkeis e fazer uma análise da conjuntura nacional.

 

Entidades – Desta vez foram definidos o nome do novimento, que mudou de “Movimento de Fortalecimento de Políticos Nikkeis” para “Movimento Político Nikkei” e também foram marcadas as próximas reuniões, que serão realizadas a cada dois meses e meio – junho (14), agosto (16) e novembro (22). Também ficou acertada a participação de representantes de entidades nikkeis nas reuniões futuras, faltando definir como ocorrerá essa participação.

 

Era Reiwa – O cônsul Yasushi Noguchi, que fez a abertura do evento, disse admirar os esforços do ex-deputado  para unir a comunidade nikkei. Segundo ele, trata-se de um trabalho “muito digno”. “É muito importante que os políticos nikkeis compartilhem suas experiências, o que estão pensando, e hoje é uma boa oportunidade para trocar opiniões”, explicou o cônsul que, no restante do evento preferiu permanecer apenas como ouvinte.

Noguchi citou algumas “características do nikkei, como a coletividade, a colaboração, a cooperação e a harmonia”. “Desta maneira podemos aumentar nossa presença no cenário político e contribuir ainda mais para melhorar a sociedade brasileira”, disse ele, acrescentando que “estamos vivendo um momento muito especial”.

“Todos sabem que este ano o atual imperador, Akihito, vai abdicar no dia 30 de abril e o seu filho, Naruhito, vai assumir no seu lugar no dia 1º de maio, dando fim a Era Heisei e início a uma nova era – Reiwa, anunciada nesta segunda pelo governo japonês. Mesmo com essas mudanças, espero que Brasil e Japão estreitem  seus relacionamentos cada vez mais”, destacou o cônsul, que ficou até o final do encontro.

 

Aprendizado – Único parlamentar nikkei eleito na última eleição, Coronel Nishikawa lembrou que é sua primeira legislatura e colocou seu Gabinete à disposição da comunidade. “Apesar de a gente ter participado de vários cargos políticos, nunca fui político – eu estou político agora – e para mim, é um aprendizado. Fui me envolver com política aos 70 anos de idade e nem sei como será minha vida política. Em princípio, quero desenvolver um trabalho voltado para a sociedade no geral. Sei que as preocupações, hoje, na nossa colônia, é igual a de todo mundo, ou seja, na área da segurança, na área da educação e na área da saúde, além das demadas específicas. Estarei sempre à disposição”, afirmou Nishikawa, que, mais uma vez, reiterou o fato de não ter sido eleito por nenhum segmento.

“Fui eleito, sim, pelas redes sociais, tenho perfil no Facebook e toda minha equipe toda trabalhou graciosamente. Tive votos em 466 munícipios, sei que não foram muitos votos, mas o partido ajudou –  a Dra Janaina Paschoal obeteve mais de 2 milhões de votos e me puxou. Mas vamos trabalhar. Agradeço a oportunidade para que gente possa elaborar planos de trabalho, ajudar o Consulado e ajudar a nossa colônia porque, queira ou não sou nissei de origem – meus pais eram japoneses e ainda tenho dois irmãos japoneses – um falecido e uma irmã que mora no Japão e nem português sabe falar”, explicou Nishikawa

 

Novato – Única “cara nova” presente, o vice-prefeito de Guaratinguetá, Régis Yasumura fez uma breve autoapresentação. Ingressou na política em 2012, sendo o vereador mais eleito do município. “Viajei quase 200 quilômetros para participar desta reunião tão especial e me sinto honrado. Nós, japoneses, trazemos no nosso sangue algo que é muito diferente, que é a honra. Na minha cidade há muitos anos não é eleito nenhum político oriental e atualmente sou o único”, disse Régis, que, ao Jornal Nippak explicou que nasceu em Brasília e o pai, Adilson Takeshi, é militar da Escola de Especiaistas de Aeronáutica.

Blá-blá-blá – “Minha família está enraizada em Guaratinguetá, mas tive oportunidade de viajar bastante porque meu pai faz parte do corpo diplomático militar e foi auxiliar de adido. Por isso posso dizer que, quanto à nossa origem japonesa, somos muito respeitados onde quer que vamos”, disse Yasumura, que sugeriu dividir a reunião – em antes, com os participantes do Movimento para uma discussão prévia do tema – e depois,  com a participação de membros de entidades, já com a pauta definida.  “Isso evita muito blá-blá-blá, que atrapalha as nossas reuniões politicas. Acredito que, desta forma, a gente consegue atender todos os posicionamentos, os quais nós respeitamos muito”, disse ele, afirmando que “a participação das entidades é importante porque quem não é visto não é lembrado”.

Frase, aliás, repetida pela ex-deputada federal Keiko Ota ao justificar que é preciso trabalhar e também divulgar o trabalho. “Não adianta trabalhar muito e não ser lembrada na hora da eleição”, afirmou Keiko, que destacou a importância de reuniões como essa organizada por Hatiro Shimomoto. “Nessas reuniões nós podemos ver nossos erros e acertos”, disse Keiko, afirmando que “toda eleição tem sua peculiaridade. “Nessa última foram as redes sociais”, explicou ela.

 

Maus políticos – O marido e vereador Ota comunga da ideia e acrescenta: faltou mais união da comunidade nikkei. “Você pega qualquer outra raça, como a libanesa, por exemplo, existe muito mais união”, reclamou o vereador, que vê o futuro com preocupação caso a situação não mude. “Se continuar do jeito que está nem a gente [atuais vereadores nikkeis] volta. Porque hoje você faz um trabalho mas amanhã as pessoas não reconhecem mais. A política é difícil, veja o exemplo da minha esposa, que, apesar de ter feito um bom trabalho não conseguiu se reeleger. Ele fez cinco leis mas ninguém sabe. As pessoas acabam se lembrando somente dos maus politicos”, desabafou Ota, que agradeceu a iniciativa do ex-deputado Hatiro Shimomoto.

 

MBL – George Hato foi além. Ele afirmou que a classe política é alvo de rejeição e chegou a comparar os políticos com “traficantes”. “Todos nós que estamos aqui somos políticos e praticamos política no nosso dia a dia, seja a política da boa vizinhança, na nossa famíla ou no nosso condomínio. É triste essa discriminação”, disse o vereador, justificando que não ficou “chateado” com essa eleição. “O resultado foi um baque para todos os políticos de forma geral, não só para os descendentes. Todos políticos tradicionais tiveram problema”, destacou George, acrescentando que, apesar da falta de quórum neste primeiro encontro,  é “importante que esse movimento cresça, a exemplo do MBL [Movimento Brasil Livre], e honre a nossa cultura e nossa tradição”.

“Muitas coisas ainda precisam ser trabalhadas, mas a iniciativa do deputado Hatiro Shimomoto é louvável e poderemos ter avanços significativos. Para isso é fundamental que as entidades também participem destas discussões porque nós, parlamentares, precisamos saber quais as demandas para tentar ajudar”, disse.

Opinião semelhante a do ex-deputado Hélio Nishimoto, que parabenizou o interesse de Shimomoto de reunir lideraças nikkeis com o intuito de “não só fazermos um balanço, mas, principalmente, poder conversar sobre o futuro dos politicos nikkeis tanto do Estado de São Paulo como também do Brasil”.

Para ele, as ideias e propostas debatidas e lançadas durante o encontro “foram importantes para que a gente possa iniciar uma caminhada no sentido de melhorar essa representatividade nikkei dentro dos parlamentos e continuar colaborando com o legado que já deixaram nossos antepassados, isto é, algo bom para o Brasil. E eu tenho convicção que nós podemos fazer isso. Com a união das lideranças nikkeis do Estado de São Paulo podemos fazer muito ainda para contribuir com o país”, destacou Nishimoto.

 

Aurélio e Walter – Procurado pela reportagem do Jornal Nippak, tanto o vereador Aurélio Nomura como o ex-deputado Walter Ihoshi também elogiaram a iniciativa.

Para Nomura, “o Dr. Hatiro sempre foi uma pessoa entusiasta e durante todo periodo acompanhou a necessidade e a importância dos politicos nikkeis”. “Acho que, no fundo, todas as nacionalidades acabam torcendo para que tenham alguém para representá-los”, disse o vereador, lembrando seu trabalho para que o Pavilhão Japonês continuasse sob a administração da Bunkyo e a manutenção e conservação do Monumento em Homenagem aos Pioneiros da Imigração Japonesa, permanecessem sob a responsabilidade da Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil (Kenren).

“Tínhamos um certo entendimento mas facilitou o prefeito Bruno Covas ter sido casado com uma nikkei. Fosse uma outra pessoa e teríamos dificuldade para encaminhar esta questão”, disse Nomura, afirmando que é “difícil as pessoas entenderem quando há sentimentos envolvidos”.

“Mas acho também que hoje a ação é um pouco mais ampla, com as redes sociais, e se discute aspectos também mais amplos. Nessas últimas eleições, as pessoas mais votadas foram as  que estavam em algum movimento de grande repercussão dentro das redes sociais. Mas isso não nos dá a condição de simplesmente deixarmos outras questões para lá. Muito pelo contrário. Acho que a gente tem que estar atento porque esses movimentos, com relação a cultura japonesa e as ações dos nikkeis, são extremamente relevantes porque fazem parte não só da nossa vida, como também da própria sociedade brasileira, como no caso da nossa contribuição para a agricultura. Então, é um movimento que merece todo nosso apoio e acredito que teríamos que buscar um entendimento um pouco maior no sentido de envolver também a participação da sociedade”, destacou Aurélio Nomura.

Para Walter Ihoshi, “todos nós sabemos da importância da politica e da contribuição dos políticos nikkeis junto à socidade brasileira e que, ao longo dos anos, tem perdido sua representatividade”. “Então essa iniciativa de abrir o diálogo, de fortalecer o vínculo, sejam eles, vereadores, prefeitos, deputados estaduais ou deputados federais de origem niponica, merece todo nosso apoio”.

“Quero louvar a inciativa do deputado Hatiro Shimomoto, um experiente político nikkei que tem se dedicado a fortalecer os vínculos dos politicos nikkeis entre eles e também juntamente com a comunidade nipo-brasileira. Surge agora o movimento que ainda está se iniciando com uma forma embrionária, de estabelecer suas próprias diretrizes e seus vínculos junto à comunidade”, enfatizou Ihoshi.

 

Surpresa – Hatiro Shimomoto admitiu ao Jornal Nippak que ficou “surpreso” não só com a presença da maioria dos políticos convidados como também com a  qualidade do debate. “Fiquei realmente surpreso com o interesse que o assunto despertou nos participantes, trazendo subsídios muito importantes para o movimento. Acredito que vamos alcançar o objetivo maior, que é o de ajudar a construir  este país através da formação do povo, da educação, do civismo e do amor à pátria e também através de usos e costumes que sejam bons para cada cidadão, à sociedade e ao país. Desta forma, acredito que esse movimento vai prosperar fazendo com que haja de agora em diante a maior participação e interesse dos políticos e também deles ajudarem a comunidade e a comunidade, por sua vez, vai prestigiá-los à medida que os eventos forem acontecendo. Sabemos que os políticos são importantes para a comunidade e quanto maior for a representatividade política, mais forte ela será”, destacou Shimomoto.

(Aldo Shiguti)

Comentários
Loading...