Homenagens e clima de nostalgia marcam os 35 anos da Abrademi

Gabriella Hilário, Francisco Sato e Keizo Tokuriki, da Associação Nippon Kaigi do Brasil

A comemoração dos 35 anos da Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações) no último dia 17, na Associação Cultural e Assistencial Kenjin do Brasil (zona Sul de São Paulo), teve um “quê” de saudosismo e nostalgia. Estava lá parte da geração que participou da história da entidade desde a sua fundação, em 1984, bem como um espaço dedicado ao mangaká Tezuka Osamu – este ano completam 30 anos sem o “Deus do Mangá” – e outro com jornais e recortes destas três décadas e meia. A volta ao passado ficava ainda mais evidente com a exibição de vídeos históricos, como os momentos marcantes da MangáCon e de antigos seriados japoneses.

E, talvez, por essas coisas do destino, durante os preparativos para celebrar a data, Cristiane A. Sato contou que a Abrademi foi presenteada com um último pacote do mangá O Samurai, um dos últimos trabalhos do quadrinista, artista, fotógrafo, escritor e bonsaísta, Claudio Seto (1944-2008).

Aliás, Claudio Seto foi um dos homenageados da Abrademi com um dos primeiros desenhistas de mangá no Brasil. Além dele, foram homenageados também Minami Keizi (1945-2009) e Paulo Fukue. “Foram eles, que, numa época em que ninguém poderia pensar em viver de mangá, batalharam, derrubaram preconceitos e abriram caminhos para muitos outros que vieram depois”, explicou a apresentadora Gabriella Hilário.

Neta de Minami, Karina Keizi recebeu o retrato assinado por Guilherme Raffide, ilustrador e autor de “Nikkei: implacável Natureza Mestiça”. Nascido em Lins, Minami Keizi, entre outros trabalhos, criou o personagem Tupãzinho (inspirado em Astro Boy, de Tezuka Osamu) em 1964. Dois anos depois, ajudou a fundar a editora Edrel (Editora de Revistas e Livros), abrindo as portas para vários artistas.

Mesmo depois de se desligar da Edrel, continuou dando oportunidades para jovens artistas em outros editoras. Dos três homenageados, Minami Keizi foi o único que ainda não havia sido homenageado pela Abrademi anteriormente por não ter sido possível localizálo no período de 1996 a 2000, quando a Abrademi realizou o evento MangáCon, convenção nacional de mangá.

Mayumi Seto Takeguma, filha de Claudio Seto, foi chamada ao palco para receber a homenagem em nome do pai.  O último homanegado foi Paulo Fukue, ex-editor da Edrel (após a saída de Minami). Ele publicou vários títulos durante a ditadura militar, chegando a ser detido várias pela polícia. Depois fez carreira nos Estúdios Disney e na Editora Abril.

 

Restrito – O “toque moderno” ficou por conta da apresentação do cantor Diogo Miyahara, que contou com participação especial do grupo Toku Hero Cosplay.

Ao Jornal Nippak, Francisco Noriyuki Sato, um dos fundadores da Abrademi e seu atual presidente, destacou a importância da data. “Na verdade, a história da Abrademi é longa. Começamos numa época em que o mangá só era lido pelos japoneses que  sabiam ler japonês. Ou seja, poucas pessoas tinham acesso. Só que estas pessoas liam muito e emprestavam uns aos outros, fazendo com que a leitura fosse em maior quantidade e maior variedade.”, conta Sato, lembrando que, “no meio destas pessoas surgiram jovens e, principalmente, crianças que aprenderam a desenhar através do mangá”.

 

Preocupação – “Nossa associação começou reunindo essas pessoas que gostavam de desenhar principalmente  no estilo de mangá, mas não necessariamente. E nós procurávamos divulgar a qualidade do mangá”, explica Sato, que destaca alguns nomes como Roberto Kussumoto – hoje morando no Japão –, Wilson Iguti, vice-presidente da Abrademi, Marco Antonio e Guilherme Raffide como exemplos de artistas célebres que passaram pela Abrademi.

“Surgiram muitos profissionais . O problema é que, quando nós começamos não existia ainda um mercado para mangá. Íamos fazer um carimbo, por exemplo, o acento nunca saía. Eles confundiam com a fruta aí a gente tinha que mandar refazer e na terceira tentativa dava certo”, diverte-se Sato, que cita ainda a aula ministrada por Osamu Tezuka na Abrademi, no ano da fundação da entidade.

Ele conta que uma das preocupações da Abrademi sempre foi a de apresentar o mangá como uma manifestação cultural e não simplesmente como uma mera distração. Além da Convenção Nacional de Mangá e Animê (MangáCon) promovida pela Abrademi entre 1996 e 2000, em São Paulo, a entidade também ministrou o primeiro concurso de cosplay e a primeira aula de kirigami – com a professora Naomi Uezo – numa época que nem existia definição para o origami arquitetônico.

 

Lacuna – “De lá para cá muita coisa mudou, mas o que mudou bastante é que hoje o mangá se popularizou e o acesso está bem mais fácil. Quando começamos, ninguém sabia sequer o que era mangá e tentávamos preencher uma lacuna que hoje é ocupada pela televisão e pela Internet”, explica Sato, afirmando que, “antes, desenho e quadrinhos eram vistos como coisas para crianças”. “Hoje não, essa visão mudou. A gente percebe que atualmente muitos desenhos animados e quadrinhos são voltados muito mais para o público adulto do que propriamente para o infantil”, diz, destacando que,  a Abrademi sabe que seu público é formado por crianças e que “essas crianças vão crescer e vão fazer alguma coisa lá na frente”.

Para saber mais sobrte a Abrademi, acesse: www.abrademi.com

(Aldo Shiguti)

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