Gratidão e homenagens marcam os 100 Anos da Imigração em Cocuera e Mogi das Cruzes

(Wanderley Sasaki)

A Associação Cultural de Mogi das Cruzes (Bunkyo) e a Associação dos Agricultores de Cocuera (AAC) realizaram uma bonita festa no último dia 15 para comemorar a chegada dos primeiros imigrantes no município. E o palco do Festival 100 Anos de Imigração Japonesa em Cocuera e Mogi das Cruzes não poderia ter sido mais adequado: a sede da AAC, localizado no distrito de Cocuera, onde tudo começou. O evento, que teve como ponto alto a homenagem a 83 pessoas do município que prestaram relevantes serviços à comunidade nipo-brasileira, contou com a presença do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi; do prefeito de Mogi das Cruzes, Marcus Melo; do vice, Juliano Abe; dos deputados estaduais Marcos Damásio e Luiz Carlos Gondim, do ex-deputado federal Junji Abe, e do presidente da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), Walter Ihoshi, além do diretor de operações do Grupo Diário, Renato Cocenza e do vice-presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Roberto Nishio, entre outros, totalizando cerca de 400 pessoas entre convidados, homenageados e familiares.

Foto oficial com todos os homenageados, convidados e diretorias do Bunkyo de Mogi e de Cocuera (Aldo Shiguti)

A programação teve início por volta das 8h30, com a celebração de um culto budista seguido de uma missa católica.

Frank Tuda (Aldo Shiguti)

Presidente do Bunkyo de Mogi das Cruzes, Frank Tuda abriu a série de discuros lembrando que a festa começou a ser planejada há seis meses pelo Bunkyo e pela AAC. “É um momento histórico para a nossa região”, destacou Tuda, que agradeceu, em especial, seus pais, Ronald e Rosa Tuda, “que sempre trabalharam em prol da comunidade e são uma referência para mim”.
Tuda, que sucedeu na Presidência do Bunkyo um dos grandes líderes da comunidade nikkei de Mogi das Cruzes, o saudoso Kiyoji Nakayama – falecido em 2017 – disse que os primeiros imigrantes deixaram como herança, “a garra, a coragem e a determinação”.

Legado – Segundo ele, o legado dos pioneiros pode ser visto na agricultura, no comércio, na indústria, na arte, na música e na gastronomia. “Não é à toa que Mogi tem hoje uma das maiores concentrações de nikkeis do Brasil. Nossos ancestrais criaram muitas oportunidades para Mogi e trouxeram desenvolvimento para o municipio. Nesses 100 anos de história de imigração japonesa, muitas pessoas tiveram um significado importante e foi por isso que nós, juntamente com a Associação dos Agricultores de Cocuera, decidimos reunir todos vocês aqui, para agradecer às pessoas que tanto se dedicaram à comunidade nipo-brasileira”, explicou Tuda, acrescentando que, “Cocuera para mim é lembrança dos melhores momentos da minha infância”. “Passei a infância e a juventude neste kaikan e na escola Sentaro Takaoka”, afirmou ele, que finalizou agradecendo à Prefeitura de Mogi das Cruzes, por apoiar o projeto por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e os patrocinadores, que ajudaram a realizar este grande evento”.
Presidente da Associação dos Agricultores de Cocuera, Antonio Waragaya falou sobre o início da colonização em Mogi, onze anos depois do navio Kasato Maru ter atracado no porto de Santos trazendo os primeiros 781 imigrantes.

Antonio Waragaya (Aldo Shiguti)

Vocação agrícola – O início, contou, foi com os Suzuki – Shiguetoshi e Fujie –, que serviram de referência para centenas de outras famílias que vieram do Japão em busca de trabalho e oportunidade no Brasil e encontraram na zona rural de Mogi das Cruzes solo fértil em condições propícias para começar a vida.
“A maioria logo se familiarizou com a agricultura, o que levou a cidade a ganhar destaque e ser reconhecida, anos mais tarde, como cinturão verde do Estado de São Paulo”, disse Waragaya, destacando que a união de forças e o espirito de solidariedade “sempre garantiram melhorias, como a construção de escolas de língua japonesa e do ensino regular brasileiro – já que o estudo dos filhos sempre foi prioridade para os imigrantes – , a abertura e manutenção de estradas para escoamento da produção rural, fundações de associações representativas da comunidade, kaikans, centros esportivos, cooperativas agrícolas e até mesmo instalação de energia elétrica, mais tarde telefonia e mais recentemente, internet.
Segundo ele, a dedicação ao campo e o constante desenvolvimento de novas técnicas adotadas pelos produtoes rurais fizeram de Mogi das Cruzes a maior produtora de caqui, com 35% da safra do país, e de nêspera, com 75% da produção brasileira, além de líder no cultivo de cogumelos comestiveis, com 60% da colheita do país, e hortaliças, 560 mil toneladas/ano.
“Nos últimos tempos, o municipio também ganhou o título de capital nacional das orquideas, cultivando 12 milhões de vasos e 2,5 milhões de flores. “Foi o trabalho no campo que garantiu os estudos dos mais jovens nas mais diversas áreas. Hoje é forte a atuação dos filhos de imigrantes em importantes setores, com destaque para a indústria, o comércio, prestação de serviços, na politica, nas áreas da saúde, engenharia e direito, entre tantas outras, contribuindo significativamente para o desenvolvimento de Mogi das Cruzes”, disse Waragaya, afirmando que, por isso, são “inúmeros os motivos para comemoramos esses 100 anos que se passaram desde a chegada dos primeiros imigrantes”. “Nunca devemos nos esquecer o passado, a origem de tudo e o que nos trouxe ao momento presente e que sempre nos conduzirá rumo a um futuro cada vez mais próximo”, lembrou.

Walter Ihoshi (Aldo Shiguti)

Referência – Parceiro da comunidade de Mogi das Cruzes e com atuação destacada nos projetos da região, o ex-deputado federal e hoje presidente da Jucesp, Walter Ihoshi, afirmou que “Mogi das Cruzes é uma referência na nossa comunidade nipo-brasileira”. “E muito por conta dos primeiros imigrantes, que construíram os pilares que temos hoje. Aqueles pioneiros que para cá vieram e trabalharam com dedicação e com suor deixaram um legado que pessoas como os empresários Fumio Horii, Antonio Shibata e Nobolu Mori estão dando continuidade”, disse Ihoshi, lembrando que em 2008 teve o privilégio de poder representar a comunidade nipo-brasileira na Câmara dos Deputados por ocasião das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil e participou da recepção ao então príncipe herdeiro Naruhito, atual imperador do Japão. “Foi um momento inesquecível para todos nós”, disse, acrescentando que, como integrante da equipe do governador João Doria, recebeu como missão “trabalhar para modernizar a Jucesp”.

Cônsul Yasushi Noguchi (Aldo Shiguti)

Orgulho – Já o cônsul Yasushi Noguchi destacou que, antes de alcançar o sucesso e a prosperidade, os pioneiros japoneses tiveram que enfrentar inúmeros obstáculos. “Apesar de todas as dificuldades, os japoneses lograram prosperidade, prestígio, dignidade e confirança do povo brasileiro. É um grande orgulho constatar essa contribuição”, afirmou Noguchi, que friou a contribuição dos japoneses no campo da agricultura, que mudou o cardápio da mesa dos brasileiros. “Os japoneses contribuíram muito não só na agricultura como em muitos outros campos, como na medicina, educação, engenharia, artes e esportes. E graças a essa contribuição os japoneses conquistaram credibilidade junto à sociedade brasileira”, disse o cônsul que, em contrapartida, também agradeceu os brasileiros pela acolhida aos imigrantes japoneses. “Estamos começando uma nova era, a Reiwa, e espero que nos próximos 100 anos as novas gerações tenham a mesma prosperidade e cultivem a mesma amizade entre os dois países”.

Sonho – O deputado estadual Marcos Damasio, que destinou emenda parlamentar no valor de R$ 200 mil para o Akimatsuri de 2020, lembrou que a participação dos japoneses na questão agrícola “sempre foi muito expressiva”. “Mogi das Cruzes foi o maior produtor de hortifruti do pais e fazia parte do cinturão verde do Estado de São Paulo. Nós temos uma das maiores zonas rurais do Estado de São Paulo e a presença da comunidade japonesa sempre foi muto importante para o crescimento econômico da nossa cidade. Se Mogi das Cruzes hoje é o que é, nós devemos muito ao trabalho da comunidade japonesa. São cem anos de uma rica história, cem anos de uma contribuição inigualável que nós temos que reconhecer e agradecer”, enfatizou o parlamentar, que destacou o papel do agronegócio como importante ferramenta para recuperação do crescimento econômico do país.
Por fim, o prefeito Marcus Melo destacou a visita que fez ao Japão este ano, quando visitou executivos da NGK e da Nachi, duas empresas japonesas com filiais em Mogi.

Marcus Melo (Aldo Shiguti)

“Posso afirmar que fiquei mais uma vez encantado com os japoneses. O que a gente encontra hoje no Japão é um sonho para os brasileiros. O que nós podemos observar do ponto de vista de disciplina e de organização é um sonho para nós brasileiros.”, disse o prefeito, que também lembrou seus laços familiares com a comunidade japonesa – é casado com neta de japoneses.

Romantizar – Entrevistado pelo Jornal Nippak, o vice-prefeito Juliano Abe disse que o momento é um “reconhecimento e um agradecimento por tudo que a cidade conquistou ao longo desses cem anos”. “Em celebrações como essas a gente tende sempre a dar uma romantizada na história e nessa romantizada a gente acaba esquecendo as dificuldades e os desafios que os primeiros imigrantes enfrentaram. Falamos sempre das consequências, das vitórias, do êxito e do sucesso que foram alcançados, mas acho que temos que falar também das causas, porque são essas causas que acabam refletindo claramente de uma maneira muito objetiva nos principios e valores que nortearam essas consequências, que são a persistencia, a inteligência, a dedicação, o senso de trabalho, a organização e a união. Tudo isso foram as causas para chegarmos nesses cem anos e podermos celebrar e olhar para trás e dizer que nós temos muito orgulho de sermos descendentes de japoneses”.
Após as homenagens, foi servido um almoço e os convidados foram brindados com uma bela apresentação da cantora Karen Ito, que ajudou a embalar o tradicional parabéns para você, com direito a bolo. No final, Frank Tuda estava com a sensação de dever cumprido. “Acredito que foi uma homenagem justa a todos os pioneiros e acho que conseguimos passar um pouco dessa mensagem”, afirmou.

Comentários
Loading...