Gestão Pesqueira 01- SOBRE A PESCA E O HOMEM

Tipos de pesca, características e escalas: industrial, artesanal, esportiva, científica

*Por: Sergio Luiz Tutui e Ingrid Cabral Machado
A atividade pesqueira pode ser realizada em diferentes escalas e com diferentes objetivos tendo, em função disso, características distintas.
A pesca comercial ou profissional, realizada como atividade produtiva para a geração de renda ou sustento, pode ser de grande ou pequena escala ou ainda de subsistência.
A pesca de grande escala também denominada como pesca industrial, e opera com as embarcações de grande porte, sendo elas motorizadas, e com equipamentos sofisticados, com automação e eletrônica. Os proprietários desses barcos (armadores de pesca), muitas vezes não operam a embarcação e empregam uma mão de obra estável (mestre) e com perspectiva de carreira, normalmente com compromisso de tempo integral no trabalho com a pesca. O poder de captura das embarcações industriais é elevado, bem como o investimento necessário para a sua operação. Trata-se de uma pesca formal, totalmente integrada à economia, em que a comercialização da produção geralmente se dá em mercados organizados. O produto tende a ser industrializado para consumo humano, embora em muitos locais parte da produção possa ser destinada ao consumo não humano, como na fabricação de rações.
A pesca de pequena escala é realizada com embarcações de menor porte, com motores pequenos, internos ou externos, praticando artes de pesca mecanizadas ou manuais, e utilizando material totalmente ou parcialmente industrializados, montados pelo operador. O proprietário geralmente é um dos operadores da embarcação e envolve uma pequena tripulação, que pode ser contratada ou em sistema de partilha da produção. O compromisso da tripulação com o tempo no trabalho pode ser integral ou parcial. O poder de captura das embarcações é proporcionalmente menor do que das embarcações industriais. É uma pescaria parcialmente integrada à economia, na qual a comercialização da produção é feita também em mercados organizados, mas em escala local ou regional. A produção é destinada ao consumo humano, fresco ou processado com técnicas pouco sofisticadas.
A pesca de subsistência é realizada exclusivamente com embarcações de pequeno porte, boa parte não motorizada, praticada com artes de pesca manuais e utilizando materiais artesanais, e montadas pelo operador. O proprietário atua como operador e o trabalho realizado de várias formas, podendo ser sozinho, com seu núcleo familiar, com um grupo comunitário ou ainda com um camarada de pesca, com partilha da produção. As artes empregadas são principalmente não mecanizadas e o investimento, bem como a produção, é baixa. O compromisso de tempo nesta atividade é geralmente parcial, com o pescador dividindo a sua atenção entre diversas tarefas produtivas, em um sistema de complementação de renda. A produção obtida é consumida pelos pescadores, sua família e comunidade e utilizada para escambo e venda local, com pouco ou nenhum processamento. É, muitas vezes, uma atividade informal, não integrada à economia. Além desse aspecto, a pesca realizada nesta categoria tende a reunir elementos culturais tradicionais e de conhecimento ecológico, considerada como patrimônio cultural a ser preservado, e podem ser utilizados para apoio à pesquisa, à gestão e à ação de conservação dos recursos pesqueiros.
A pesca amadora é aquela praticada com objetivo de lazer, podendo envolver o consumo ou a soltura do pescado, mas nunca a sua comercialização. É regulamentada por meio de uma legislação específica sendo praticada embarcada ou desembarcada, usando linhada de mão, puçá, anzóis simples ou múltiplos empregados com caniço simples, carretilhas ou molinetes, com isca natural ou artificial, além da pesca subaquática. Nessa categoria se destaca a pesca esportiva, cuja prática não implica no abate do pescado e seu principal objetivo é a prática do esporte, onde o pesque-e-solte é a prioridade. Movimenta ampla cadeia produtiva, em função dos bens e serviços que o pescador amador consome para realizá-la. Apesar da inexistência de informações consolidadas a respeito dessa atividade, estima-se que movimenta diretamente mais de 1 bilhão de reais/ ano. Seu principal atrativo é o bom estado de conservação dos recursos pesqueiros, que por sua vez dependem da boa qualidade ambiental como um todo.
A pesca científica consiste na atividade pesqueira realizada por instituições de pesquisa e/ou universidades com objetivo de gerar dados que, depois de analisados, gerarão informações confiáveis sobre a atividade. Pode envolver o teste de artes ou material de pesca, a coleta de amostras para análise em laboratório, e utilizada para a quantificação de estoques, conhecimento do ciclo de vida de uma espécie, de aspectos reprodutivos, alimentares, cadeia trófica, etc. Esses dados são importantes para a gestão da atividade da pesca, ou seja, para definição de quando, onde, o que, e como se pode pescar. Embora a pesca científica seja importantíssima, igualmente útil é o uso de informações oriundas da pesca não científica (comercial ou não), onde as amostras, dados ou informações são obtidos pelo pesquisador diretamente do pescador.
Cada um desses tipos de pescaria possui suas peculiaridades, que podem impactar, de formas distintas, o meio ambiente e a sustentabilidade do recurso pesqueiro alvo. Entender essas peculiaridades e as formas de impacto são fundamentais para uma gestão pesqueira adequada. Esse é o papel das Ciências Pesqueiras, grupo de disciplinas que buscam o conhecimento necessário à gestão das pescarias, incluindo os aspectos biológicos, sociais e econômico, além das questões afeitas à tecnologia de captura.
Nos próximos artigos serão tratados como a Ciência se desenvolve para gerar o conhecimento necessário à gestão pesqueira adequada.

Sergio Luiz Tutui: Doutor em Zoologia pela UNESP. Especialista em Gestão Pesqueira pelo Instituto de Pesquisa Pesqueira da Provincia de Mie/Japão. Com trabalhos na área de Recursos Pesqueiros, Dinâmica da Atividade e Ecologia de peixes marinhos.

Ingrid Cabral Machado: Doutora em Ciências pela UFSCar, com trabalhos na área de Ecologia Humana e Etnoecologia Pesqueira.

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