Festival no Gelo celebra a rápida recuperação de Hokkaido após grande terremoto de 2018

(Roberto Maxell)
(Roberto Maxell)

A noite cai, o vento bate frio e a termômetro marca 11 graus abaixo de zero. Não é estranho, na verdade, já que estamos em Sapporo, a capital de Hokkaido, província mais ao norte do arquipélago japonês. Ainda assim, as pessoas estão agasalhadas mais que o normal. Uma massa de ar frio atingiu o Japão nas primeiras semanas de fevereiro, justamente a época do ano em que Hokkaido recebe mais visitantes, por conta da realização dos festivais de inverno, em especial o Sapporo Yuki Matsuri, o Festival da Neve de Sapporo.
Ainda assim, o frio não espanta os turistas, que surpreendem as autoridades locais. 2019 marca mais um recorde na história do evento. Cerca de 2,73 milhões de pessoas encararam o frio acima do esperado. Quase ninguém se lembra que, há menos de 5 meses, a província foi atingida por um terremoto de magnitude 6,6 na escala japonesa, deixando 41 vítimas fatais, 691 feridos e mais de 5 milhões de pessoas sem luz. De setembro para cá, os danos foram consertados e a vida na província segue normalmente.
Mesmo com o frio fora do comum. Superação é uma característica de Hokkaido.O Yuki Matsuri é uma celebração da cultura da província. A neve, onipresente em Hokkaido de novembro a maio, é transformada em arte. Esculturas de diversos tamanhos representam elementos da cultura tradicional da região, do pop japonês e até amizade entre povos. As maiores obras chegam a alcançar 25 metros de altura. O destaque deste ano, por exemplo, foi uma reprodução em neve da Catedral de Helsinque.

Esculturas permanentes da Praça Odori ganham vida nova no inverno (Roberto Maxwell)
Esculturas permanentes da Praça Odori ganham vida nova no inverno (Roberto Maxwell)

Com 17 metros de altura e 24 de comprimento, a escultura homenageia o centenário das relações diplomáticas entre o Japão e a Finlândia. Esta e outras esculturas gigantes puderam ser vistas no Odori, um parque longitudinal que corta a cidade por 1,5 km. No parque ficam, além das obrasgigantes, uma pista de esqui com 24 metros de altura e 64 de comprimento. Na pista, rolam competições e demonstrações de atletas profissionais e amadores. Para os que chegam de supetão, a opção é uma pista de patinação no gelo de 20 x 17,5 metros e uma imensa árvore de Natal de enfeite. Não tem como ficar parado.
Atraindo visitantes de todo o planeta, o festival também organiza anualmente uma competição internacional de esculturas no gelo. Neste ano, nove times representando seus países e regiões participaram do concurso. Os improváveis vencedores foram da equipe tailandesa que produziu uma escultura chamada Betta Brilliance, com peixes betta nadando ao redor de uma esfera. Os betta, com suas belas e compridas nadadeiras, são comuns nos campos de arroz da tropical Tailândia e uma representação de elegância para o povo do país.
Com o aumento das esculturas e do festival em si, o evento ocupa outras áreas da região central de Sapporo. O Tsudome é onde ficam os diversos escorregadores de neve e uma série de outras atrações que agradam, especialmente, as crianças. Afinal, não é todo dia que se pode escorregar na neve e no gelo ou fazer snow rafting no centro de uma grande cidade. Espaços para fotos, competição de tiro ao alvo com bolas de neve e o footgolf, umamistura de futebol e golfe, num campo gelado. Sensacional!

Empresas não ficam de fora do festival. A Ribbon-chan é a mascote de uma marca de refrigerantes local (Roberto Maxwell)
Empresas não ficam de fora do festival. A Ribbon-chan é a mascote de uma marca de refrigerantes local (Roberto Maxwell)

Um festival jovem – Com tantas atrações, é fácil de entender porque o Festival da Neve de Sapporo ficou tão grande. Nada mal para um evento que começou em 1950 com apenas seis estátuas feitas por estudantes do ensino médio. Logo nesta primeira edição, a vocação do sucesso se manifestou. Cinquenta mil pessoas visitaram as estátuas e não levou muito tempo para que o festival ganhasse o coração dos moradores de Sapporo.
Cinco anos depois da primeira edição, a Força de Autodefesa do Japão se juntou aos locais e começou a produzir esculturas de maior porte. Já em 1959, o festival ganhou as manchetes nacionais e caiu no radar dos japoneses. Ao longo dos anos, se tornou um dos principais eventos de inverno do país e, também, ganhou fama na Ásia e no Pacífico. Em 1972, quando Sapporo recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno, o Festival da Neve da cidade ganhou atenção mundial.
Atualmente, o Snow Festival é uma das locomotivas do turismo em Hokkaido e, por consequência, da promoção do turismo na província. Aliás, com o Japão às portas de receber novamente os Jogos Olímpicos de Verão, em 2020, o evento faz parte do plantel do Governo Japonês na tentativa de distribuir pelo país o imenso contingente de turistas que visita o país, um número que passou dos 31 milhões em 2018. Grande parte desses visitantes se concentra na chamada rota de ouro que compreende o caminho quase que em linha reta entre Tóquio e Hiroshima, passando por Kyoto e Osaka.
Com o número recorde deste ano, o festival mostrou seu potencial não somente para incrementar o turismo interno no país mas, também, atrair estrangeiros. O número consolidado de turistas estrangeiros não foi divulgado mas analistas e autoridades acreditam que chineses aproveitando o feriado do Ano Novo Lunar foram um dos grupos mais numerosos nesta edição do festival….

E adaptado aos novos tempos – Comparando com outros eventos semelhantes no Japão, o Sapporo Yuki Matsuri, em sua 70ª edição, é relativamente jovem. De certo modo, ele aponta para a própria história da ocupação de Hokkaido, a última das quatro ilhas principais do arquipélago japonês a receber assentamentos de grande porte. Antes de ser ocupada por japoneses da etnia Yamato, Hokkaido era ocupada majoritariamente pelo povo Ainu. De acordo com o Yukar Upopo, uma série de lendas que conta a saga desse povo, os Ainu viviam na região “muito antes da chegada dos Filhos do Sol Nascente”, que seriam os japoneses da etnia Yamato. Pesquisas acreditam que os Ainu sejamdescendentes dos povos Jomon que viveram no arquipélago japonês há mais de 15 mil anos.
Desde o século 9 existem registros da existência de Hokkaido e os Ainu e os Yamato entraram diversas vezes em conflito por conta da ocupação da região. Mas é somente no século 19, já no final do xogunato Tokugawa (1603-1867), que os japoneses decidem controlar diretamente a ilha, em especial pelo receio de uma futura invasão russa. Hokkaido, foi ainda, um dos últimos focos de resistência à queda do xogunato quando um grupo leal aos Tokugawa liderado por Enomoto Takeaki decidiu ocupar a ilha. Os rebeldes foram logo derrotados e o governo agora sob a liderança do Imperador Meiji decidiu
finalmente colonizar Hokkaido, dando à ilha seu nome atual. De uma população de menos de 60 mil habitantes em 1869, a província chegou à marca atual de mais de 5 milhões. Sapporo, que não existia até 1868, é hoje a quinta maior cidade do Japão, com mais de 1,1 milhões de habitantes. O crescimento rápido do Sapporo Yuki Matsuri reflete, de algum modo, a própria história da província.Uma das receitas do sucesso do festival é inovar sempre. Se, no início, eram apenas esculturas de neve em escala humana, a entrada das Forças de Autodefesa trouxe ambição do festival.

Cantora virtual Hatsune Miku vira atração com escultura gigantesca de gelo e video mapping (Roberto Maxwell)
Cantora virtual Hatsune Miku vira atração com escultura gigantesca de gelo e video mapping (Roberto Maxwell)

Atualmente, cada uma das grandes esculturas leva cerca de 1 mês para ser construída, do projeto à finalização, um processo digno de uma obra de porte médio. O evento também investe pesado em atrações. Além dos espaços lúdicos e desportivos, são dezenas de patrocinadores e associados, dentre eles marcas de grande sucesso, como a cantora virtual Hatsune Miku (cuja empresa criadora é sediada em Hokkaido) e a franquia Star Wars. Personagens da cultura pop fazem sucesso entre os jovens e mantêm o festival interessante para pessoas de todas as idades. Recentemente, o espetáculo se aproximou da arte digital e as projeções em video mappingno gelo ganham destaque no evento.

Barracas no festival fazem jus à bem conceituada gastronomia de Hokkaido (Roberto Maxwell)
Barracas no festival fazem jus à bem conceituada gastronomia de Hokkaido (Roberto Maxwell)

Comida para aquecer o corpo e alma – Conhecida e adorada pelos japoneses, a gastronomia local também não fica de fora. São dezenas de stands oferecendo o melhor da culinária de Hokkaido, conhecida por ingredientes como o caríssimo zuwai-gani, o caranguejo-da-neve, e o uni, o ouriço-do-mar. Além, é claro, das inúmeras espécies de peixe que, no inverno, ganham sabor especial e do lámen que, na sua versão de Sapporo, ganhou a pasta de soja missô como base para ocaldo, aumentando a família que já era composta por sopas com base de porco (tonkotsu) e molho de soja shoyu.
O miso ramende Sapporo leva, ainda, milho, manteiga, broto de feijão, fatias de carne de porco marinada e alho. Frutos do mar também podem aparecer ocasionalmente, dependendo da receita. É um lámen encorpado, bastante adequado para o rigoroso inverno da província.Esporte, neve, cultura pop, gastronomia, arte: são tantas as atividades e referências que não é difícil de entender porque gente de todo mundo está enfrentando temperaturas negativas para conhecer o Festival da Neve de Hokkaido. Não tem como não se manter quente com tanta coisa interessante para fazer. Ainda assim, 11 graus negativos é um frio que passa distante do entendimento da maioria dos brasileiros. Por isso, antes de partir para Hokkaido, não se esqueça de fazer as malas com bastante cuidado. Afinal, a gente viaja para morrer de amores, não de frio.
(Roberto Maxwell viajou ao festival a convite da JETRO)

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