ERIKA TAMURA: Violência doméstica entre brasileiros no Japão

Esse foi o tema, da qual fui convidada para assistir à uma palestra, essa semana na Universidade de Nagoya.
É um tema pesado, mas precisamos falar…
É tão difícil ajudar uma mulher que passa por violência doméstica, mais difícil ainda no Japão. Um país culturalmente diferente do nosso, com valores distintos, onde a prioridade com certeza, não é a empatia e compaixão, principalmente se o pedido de ajuda vier de estrangeiros.
É triste/ sim, mas é a realidade.
O Japão é um país com qualidades imensuráveis, mas só quem vive aqui, sabe as dificuldades do dia a dia. E eu, trabalhando na ONG, me sinto muitas vezes tão impotente diante das situações dos casos que atendemos, que sempre penso em desistir.
Mas já que o mundo está falando do empoderamento feminino, vamos lá, vou falar sobre o aumento de casos de violência doméstica, na comunidade brasileira que vive no Japão.
Os pedidos de ajuda têm aumentado significativamente, o que nos faz pensar que, ou somente agora estão criando coragem para buscar ajuda, ou a realidade violenta tem aumentado mesmo.
E é tão simples para algumas pessoas, que já ouvi: “Só separar ué! Está junto ainda por quê?”. A resposta também é simples, o grande motivo das mulheres ainda se submeterem a certas situações, é a dependência financeira do marido. Pode parecer retrógrado, e um motivo banal, mas não no Japão. Onde a maioria está sozinha, sem nenhum familiar próximo, com um ou mais filhos pequenos, sem ter quem possa ajudar a cuidar dos filhos enquanto trabalha, e outro viés machista no Japão, é o fator salarial, a mulher ganha menos!
Para quem está no Brasil e ouve os relatos da comunidade aqui no Japão, pode achar absurdo algumas situações, mas somente quem vive aqui sabe o quão é difícil o cotidiano. As horas de trabalho são intensas, as horas de lazer são escassas, tudo é muito massacrante, tanto para o homem, quanto para a mulher, mas mais ainda para as crianças.
Enfim, muitos casos de violência doméstica que temos ajudado, chega um momento em que a mulher que está recebendo ajuda, some, e aí sabemos que ela sumiu por um motivo triste, reatou com o companheiro agressor. Mas essas recaídas, também fazem parte do processo. E o caminho é longo, muito longo.
A dor de quem passa por uma situação de violência doméstica, é muito mais do que uma dor física, é a dor da alma! Porque tudo está machucado, a ferida, as marcas pelo corpo é o de menos, o que dói mais é o amor próprio, o ego, o psicológico, a dor mental, a dor social, a dor moral… Tudo contribui para um ambiente de escuridão, por isso é tão difícil ajudar, mas a mão estendida sempre está ali.
Aqui no Japão, não temos delegacia da mulher, não temos medida protetiva, não temos lei Maria da Penha. Temos policiais despreparados, cultura machista, profissionais que humilham ao invés de ajudar. O governo japonês até ajuda, tem toda uma estrutura para a mulher ser amparada, oferece abrigos, ajudas financeiras, e tudo mais, o problema é chegar até aí! Tem todo um procedimento, que chega a ser tão desgastante, para uma pessoa que já está sofrendo, que muitas acabam desistindo no meio do caminho.
Mas também não podemos ficar falando que a polícia não age, que não dá para contar com o apoio policial, pois isso pode desencorajar as vitimas a buscarem ajuda.
Buscar ajuda é necessário, mas para nós que estamos do outro lado, o lado do amparo, entendemos que cada uma tem o seu tempo para ser ajudada. O processo consiste muito mais que uma simples cicatrização de ferida, é a cura da alma, do ser humano no todo. E estou sempre em busca do impossível para que todas que chegam até mim, sintam-se protegidas.
A questão que coloco aqui, nada tem a ver com críticas ao Japão, muito pelo contrário, estamos sempre aprendendo, o mundo é muito rico culturalmente, portanto cada problema é um aprendizado. Mas não dá para fechar os olhos diante de uma situação de violência doméstica na qual o policial simplesmente ignora o que está acontecendo, e ainda acha engraçado, subestimando o ocorrido. Não consigo entender essa sociedade.
Mas enfim, a luta por aqui não termina nunca.

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