ERIKA TAMURA: Ser estrangeiro, ser imigrantes, ser humano

Vi na internet, um vídeo em que o jogador de baseball e ídolo japonês Ichiro Suzuki, fala sobre solidão.
Quem viu? Está nas redes sociais, e quem não sabe quem é Ichiro, é o maior jogador de baseball do Japão, o esporte mais popular por aqui. Além de ídolo japonês, Ichiro, que aposentou esse ano, foi ídolo nos Estados Unidos também, onde atuou como jogador durante muitos anos.
No vídeo, o repórter pergunta qual foi o maior sentimento de solidão que o jogador já passou na vida, e Ichiro, com lágrimas nos olhos e depois de uma pequena pausa diz: “Maior solidão foi ter sido estrangeiro… Porque nos Estados Unidos, eu era um estrangeiro!”.
Somente essa frase, compacta, mas tão abrangente consegue resumir o que todos os brasileiros passam quando chegam no Japão.
E olha, gostaria muito que, todos os japoneses vissem e entendessem o que o Ichiro quis dizer. Pena que os japoneses não absorvem o recado, eles irão assistir e deixar passar, simples assim…
Notaram que o sentimento de solidão de um estrangeiro, de um imigrante, de um dekassegui, independe do lugar geográfico onde ele se encontra e tem mais a ver com o coração? Sim, porque o Ichiro estava nos Estados Unidos, como um jogador consagrado de sucesso, um ídolo no esporte, adorado e admirado por muitos, e mesmo assim, a solidão o pegou. O que demonstra que, independe do fator econômico também…
Quando eu vi o vídeo, chorei. Pois foi exatamente assim que eu me senti quando cheguei no Japão: sozinha! E é uma solidão amarga, pois além da saudade dos entes queridos, dos amigos, temos o isolamento devido o desconhecimento do idioma, desconhecimento cultural, geográfico, físico, matemático, enfim, tudo o que puder ser definido como solidão, sentimos muito.
Engana-se quem pensa que ela passa, ela não passa, ela muda. As vezes para melhor e as vezes para pior, mas está lá, bem no âmago de cada estrangeiro.
No vídeo, o ídolo japonês disse: “Por ter sido estrangeiro, entendi melhor o sentimento das pessoas, imaginei as dores das pessoas. E comecei a ver, o que até hoje não sentia. E essa experiência para mim, mesmo que você leia livros ou busque informações, se não vivenciar isso, nunca saberá o que é esse sentimento. Senti essa solidão…
Tive alguns sofrimentos, porém, essa experiência me deixou mais forte e com base para daqui para frente, agora, eu acredito nisso. É claro que queremos fugir das dificuldades e do sofrimento, mas enquanto tivermos força, temos que bater de frente. E eu acredito que, como ser humano, isso tudo foi importante!”.
Ele sofreu… assim como eu sofri, como todos que vieram ao Japão sofreram, como todos os imigrantes sofrem até hoje. Mas é isso que nos torna seres humanos resilientes.
O Brasil é composto de imigrantes, será que é por isso que o povo é tão flexível e suscetível à adaptação? Não sei… pode ser.
Gostaria muito que todos os japoneses entendessem essas palavras do seu grande ídolo…

Comentários
Loading...