ERIKA TAMURA: Palestra sobre autismo no Japão

Quem me acompanha por aqui, sabe que trabalho em uma ONG, que dá assistência psicológica para os brasileiros que vivem no Japão. Pois bem, semana passada, em pleno feriado de Golden Week, eu trabalhei,e tive o privilégio de ser convidada para assistir à uma palestra sobre crianças autistas no Japão.
O evento foi organizado por uma entidade chamada Tsunago, que atua nessa área de assistência às crianças com espectros autistas, e tivemos a apresentação de algumas profissionais da área, depoimento da mãe de uma criança autista, entidades, educadores, enfim, um evento completo que ocupou um dia todo. Mas o depoimento que mais me chamou a atenção foi a do vice cônsul do Brasil da jurisdição de Nagoia, Rômulo Godinho.
Rômulo, tem 36 anos e há apenas dois anos foi diagnosticado como portador da síndrome de Asperger (classificada pela OMS como autismo leve). O vice cônsul, relatou como conseguiu superar todas as dificuldades e se tornar funcionário do Ministério das Relações Exteriores, de forma bem leve e muito bem humorado, ele conseguiu nos descrever o seu mundo, e como ele lida com o nosso mundo. Foi incrível!
Eu saí da palestra encantada pelo relato do Rômulo Godinho, afinal, não foi nada fácil passar por bullying na infância, tarefas que para ele era uma tortura, aprendizado, relacionamento humano, convívio social, e muitas outras dificuldades… Mas eu pude observar o quão difícil estava sendo para ele estar ali, na frente de todos, com o microfone nas mãos, tentando relatar as suas experiências.
Mas sabe o que é o melhor de tudo isso? Ele conseguiu!!! E acho que não tem melhor sensação no mundo do que vencer todas as barreiras, dia a dia, etapa por etapa. Olhem só, ele é o vice cônsul! Não é o máximo?
Tenho certeza que, para os pais que ali estavam presentes, o exemplo do Rômulo foi inspirador. Afinal, a maior preocupação dos pais é a de que seus filhos não sofram. E pais de crianças autistas, vivenciam isso todos os dias, pois querem proteger os filhos prioritariamente, não que os outros pais não o faça, mas quem tem filho autista sabe o quanto o preconceito pode prejudicar a criança. E um dos maiores dilemas e indagações, é realmente sobre o futuro dos filhos.
E ver o Rômulo ali, palestrando, visivelmente nervoso e incomodado, mas todo solícito a ajudar, foi acolhedor.
E um importante ponto que tenho que ressaltar é que, a esposa do Rômulo estava presente! Sim, ele é casado! Elisa, a esposa, também é diplomata e trabalha no consulado brasileiro em Nagoia, e tenho certeza que o maior apoio que o Rômulo tem, vem de sua esposa.
Ouvi de uma mãe de um menino autista dizer ao Rômulo: “Muito obrigada por eu poder ver que meu filho pode cursar faculdade e pode se casar! Me sinto aliviada em saber que ele pode encontrar uma pessoa que irá amá-lo, meu coração está mais tranquilo depois da sua palestra!”.
Por isso que aquele papo sobre empatia, não pode ser apenas um modismo, e tem que ser colocado em prática todos os dias, ninguém sabe as dores que o outro carrega, e muitas vezes um sorriso é o disfarce de muitas angústias.
Passei o feriado trabalhando, mas valeu tanto a pena!
São experiências que vivo e aprendo mais a cada dia nesse Japão.

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