ERIKA TAMURA: O Japão e a cultura do bullying

Bullying em japonês é ijime. Então vou me referir sempre assim, pois quero relatar o que tenho presenciado aqui no Japão.
O ijime entrou na minha vida, quando soube que meu filho estava sofrendo ijime na escola. Já escrevi um artigo sobre isso, na época foi um sofrimento imensurável, momentos de incerteza que abalam toda a estrutura familiar.
Pois bem, decidi falar sobre o assunto, porque na ONG em que trabalho, recebemos dezenas de relatos de ijime, acompanhados de pedido de ajuda. Não é fácil, na verdade, cada caso é um caso, por isso não existe uma regra geral do que se fazer, pois envolve sentimentos, vidas e muito trabalho. Mas consigo ver uma causa para tantos atos negativos por parte dos japoneses.
Lembrando que, não estou criticando os japoneses, apenas quero relatar o que eu observo e o que vivo aqui no Japão.
Quando meu filho estava passando por esse problema, fui falar com os professores dele, e tive a seguinte resposta: “Ijime, faz parte da cultura do Japão, eu passei por isso, o outro professor também passou, o diretor passou, o meu pai passou, e não vai ser com o seu filho que as coisas irão mudar só porque você veio aqui conversar…”. Triste, porém real!
E é isso, está tão enraizado na cultura japonesa que fica difícil eles perceberem que podem agir diferente para mudar essa realidade. A pergunta é, será que os japoneses querem mudar?
Eu, como mãe, peço por favor, que mudem. E que olhem os seus filhos com mais amor…
Os programas da televisão japonesa tem um apelo para o ijime. Nunca tinha percebido, mas comecei a prestar atenção e vi o quanto algumas situações me faziam mal, e os japoneses acham engraçado e riem muito da situação. São programas com pegadinhas, mas as brincadeiras são humilhantes, que para mim, passou do ponto de ser engraçado e se tornou humilhação. Sei que no Brasil, ou em qualquer outro lugar do mundo, existem esse tipo de programas, mas no Japão acho muito mais apelativo.
O próprio sistema japonês propicia ao ijime. Esse negócio de senpai e Kouhai (veterano e iniciante, respectivamente), é uma situação hierárquica, mas que dá brecha para o ijime existir. E não é somente na escola, é na vida! Vida acadêmica, vida social, vida corporativa, etc. Acredito que se deva ter respeito a hierarquia sim, mas dentro de um limite, sem humilhações.
Me entristece ver jovens brasileiros sem o brilho no olhar, sem sonhos, sem objetivos e pior, falando em suicídio. E falo com conhecimento de causa, temos vários casos assim…
Não vou detalhar os casos, pois é uma questão de ética e sigilo profissional, mas não posso ver tudo isso acontecendo e ficar calada. Já que tenho uma coluna nesse jornal, posso usá-la para relatar os fatos verídicos.
Sabe quando é a maior incidência de suicídios entre jovens no Japão? Em setembro, que é quando começam as aulas, depois da férias de verão. Porque a maioria que sofre ijime, não quer voltar para a escola, devido ao sofrimento com o ijime.
O Japão é um país lindo e seguro para se viver? Sim! Nunca contestei isso. Mas é também cruel em alguns pontos. E o fator humano, no Japão, ainda está longe de ser o mais evoluído.
Mais uma vez, antes que me falem coisas desnecessárias, não estou criticando nada, apenas relatando o que tenho visto todos os dias no meu trabalho.
Uma pena…

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