ERIKA TAMURA: Libertação de Carlos Ghosn

Achei que não fosse mais tocar nesse assunto, mas não resisti…
Primeiramente, porque gostaria de enfatizar que essa novela está longe de terminar. Carlos Ghosn, ex-CEO da Nissan foi libertado, perante pagamento de fiança no valor de 1 bilhão de ienes, cerca de 10 milhões de dólares mais ou menos. Pelo valor astronômico, podemos ter noção da proporção dos problemas que envolvem essa prisão.
O que teremos daqui para frente? Juro que não sei, mas estou ansiosa pelo que pode acontecer. Torço para que a Nissan enxergue o quão equivocada foi a sua atitude, mas quem sou eu para opinar sobre qualquer assunto relacionado a essa prisão, que para mim, já virou problema político envolvendo principalmente o Japão e a França.
O Japão promove o uso de bullying em todas as suas camadas de atuações. É na escola, no mundo acadêmico, no corporativismo… Não é fácil trabalhar no Japão. Eu que sei como é, pois já passei e ainda passo por muitas situações que considero bullying.
Não é a toa que o Japão possui um alto índice de suicídio. E, hoje, consigo entender o porquê.
O que a prisão do Carlos Ghosn nos ensinou? Principalmente nós, brasileiros que vivemos no Japão. Nos ensinou que, somos estrangeiros nesse país, e que temos que andar sempre 120% dentro das regras, um deslize pode ser fatal. E uma coisa que sempre disse, temos que ser excelentes todos os dias, e temos que provar isso! Todos os dias! Não adianta você ser excepcional hoje e amanhã não o ser. Será cobrado por isso.
Trabalhei como pesquisadora em um centro de pesquisa, e não importava se eu desenvolvi um mega chip super potente hoje, eu preciso fazer isso todos os dias! E nunca, jamais, errar. Pois um erro pode ser crucial, e tudo o que você fez no passado não conta.
Esse é o mundo do Japão! Claro que, quem vem a passeio no Japão, não vê dessa forma. Mas basta frequentar o mundo corporativo, os business, as reuniões, facilmente perceberão que esse mundo não é para amadores.
E a prisão do Carlos Ghosn deixa isso bem claro! Observem os detalhes de como aconteceu, da forma que foi conduzido tudo isso, e a má vontade em negociar a libertação de Ghosn. Aceitaram a liberação sim, mas perante uma multa altíssima, vemos claramente o mérito do advogado atual de Ghosn que conseguiu isso, pois até o momento, a justiça japonesa nem tinha dado brecha para a negociação do valor da fiança.
Então quer dizer que o estrangeiro não tem chance de se ascender profissionalmente no Japão? Tem sim! Desde que não ofusque os japoneses. Centralização do poder de uma empresa tradicional japonesa, nas mãos de um estrangeiro, é demais para o Japão! E foi isso que incomodou.
Enfim, aguardemos o desenrolar de toda a história. Só sei que Carlos Ghosn está se sentindo traído e injustiçado, então vamos ver o que ele pretende fazer.
A verdade é que, colocar o dedo na ferida do Japão pode custar caro.

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