ERIKA TAMURA: A tal crise de identidade

Desde que cheguei ao Japão, eu escuto sobre esse assunto de “crise de identidade”. Primeiro porque no Brasil, somos chamados de japoneses, e no Japão somos estrangeiros (gaijins).
Sinceramente, eu não tive esse problema, pois sempre tive muito claro na minha cabeça, que sou brasileira. Tenho raízes japonesas sim, está na minha cara, não tem como negar, sei que algumas influências da cultura nipônica é latente em minha vida, mas o meu coração, a minha cabeça, os meus gostos, sempre foram brasileiros. Por mais que negamos essas origens, uma hora ou otra, ela vai bater de frente na nossa cara. E com tudo!
Digo isso porque, vejo muitas pessoas querendo assumir identidades que não lhes condizem. Já vi brasileiro aqui no Japão, achando que é japonês, e tratando com arrogância os brasileiros em sua volta. E para mim, o pior, vi brasileiros, descendentes de japoneses, no Brasil, dizendo-se ser japonês (nihonjin). Vocês podem entender a gravidade da proporção que isso pode tomar?
Eu vejo a consequência desse pensamento todos os dias na comunidade brasileira no Japão. Os nikkeis, chegam no Japão, achando que são nihonjins, como eles mesmo dizem, só que para os japoneses (os verdadeiros, daqui do Japão), isso é inadmissível.
Uma vez, estava conversando com uma senhora em São Paulo, nikkei, que nunca veio ao Japão, ela prepotentemente me disse que se um dia viesse ao Japão, falaria para todos que também é japonesa. Olha, não quero nem entrar na questão do racismo que muito está na moda atualmente, mas vou falar pelo que eu sinto na pele aqui no Japão. Os japoneses não reconhecem os nikkeis como japoneses, somos no máximo a geração descendente de cidadãos japoneses.
E aí começa toda a crise de identidade. E muitos se perguntam, eu sou o que, então?
Gostaria de responder à essa pergunta de uma forma bem positiva! Nós somos privilegiados, isso sim!
Somos descendentes de japoneses, que nascemos no Brasil, portanto brasileiros (graças a Deus), e temos a oportunidade de conhecermos, no mínimo, duas culturas distintas, e dai tirarmos proveito do que elas oferecem de melhor.
Os japoneses não são como árabes e italianos, que simplesmente por terem o mesmo sangue, já os entregam a nacionalidade de seu país. Aqui a questão vai muito além disso.
O Japão é uma ilha, passou por guerra, o povo é fechado, e não faz questão nenhuma para mudar isso. Mas é uma questão que pertence à eles, não vou criticar isso.
Eu sou bem recebida aqui no Japão, mas não digo que é fácil viver aqui, nunca foi… Mas sou brasileira, tenho a questão da flexibilidade e adaptação como uma qualidade. E não vejo problema nenhum.
A questão é quando esse pensamento sobre a identidade, começa a martelar a cabeça e a atrapalhar no convívio cotidiano. E isso não acontece somente com a geração que cresceu no Brasil e veio para trabalhar, tem acontecido também entre os jovens, filhos dos brasileiros que vieram ao Japão como dekasseguis, e trouxeram seus filhos pequenos, ou que nasceram aqui no Japão e frequentam a escola japonesa, dominam o japonês e são bem integrados a sociedade japonesa, mas quando descobrem que são brasileiros, porque seus documentos são diferentes dos documentos dos amiguinhos japoneses, ficam em choque. Muitas vezes, esses jovens renegaram a origem brasileira, não falam português e, descobrirem que não são japoneses é como se descobrisse que os seus pais são adotivos.
Qual a solução? Não sei se é a real solução, e quem sou eu, para ser a dona da verdade, mas vou dar o exemplo dos meus filhos. Eles estudaram em escola japonesa, e brasileira. Porque fiz questão que os laços com o Brasil não fossem cortados. E ainda mostrei para eles o quão interessante era o fato deles serem estrangeiros no Japão. Trabalhei tanto a autoestima deles, que eles tinham orgulho de serem brasileiros dentro da sociedade japonesa.
E até hoje é assim, pois eles estão no Brasil, e sentem-se orgulhosos de terem estudado no Japão, afinal, o conhecimento adquirido e a bagagem cultural que têm podem ser o diferencial na vida futura deles.

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