Em sua primeira visita técnica, Bunkyo Rural conhece a trajetória de sucesso em São Gotardo

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

A cidade de São Gotardo, localizada na região do Alto Paranaíba, no Estado de Minas Gerais (distante cerca de 475 km da capital paulista), foi o local escolhido pelo Bunkyo Rural para uma visita técnica, a primeira desde que a comissão foi criada, em 2009. Segundo o presidente do Bunkyo Rural, Tomio Katsuragawa, além de conhecer a região, a visita teve como objetivo buscar novos conhecimentos sobre modelos de gestão e verificar, in loco, a história de sucesso dos agricultores de São Gotardo.
O grupo, formado por 23 pessoas – entre elas o presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Renato Ishikawa, membros do Bunkyo Rural, engenheiros agrônomos e produtores rurais – partiu de São Paulo no início da tarde de sexta-feira, 10, e chegou ao seu destino já na madrugada de sábado, numa viagem de cerca de 11 horas.
A primeira parada foi na Coopadap (Cooperativa Agropecuária do Alto Paranaíba), comandada pelo jovem Fábio Endo, de 34 anos. Também estiveram presentes na recepção Jorge Kiryu e Jussara Oliveira, respectivamente, presidente e gerente executiva do Conselho Regulador da Região de São Gotardo; o presidente da ABCESG (Associação Beneficente Cultural e Esportiva de São Gotardo), Carlos Alexandre Kiryu, e os diretores da Coopadap, Fábio Sakuma, Sandra Inoue e Marcos Miyzaki.

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

Antes, uma parada para conhecer o processo de lavagem e embalagem da cenoura, carro-chefe da Coopadap. Fundada em 1994 com o fim da Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), a Coopadap atualmente é uma das maiores cooperativas de Minas e uma referência no cenário nacional. A produção e venda de produtos hortifrutis é uma das principais atividades econômicas da cooperativa. Para se ter uma ideia, só a comercialização de abacate, alho, batata, beterraba, cenoura e cebola respondem em média por 50% do faturamento da cooperativa, que comercializa também sementes, feijão, milho, trigo, citricale e café.
Mas nem sempre foi assim no cerrado. O início, para muitos, foi uma aventura. Até se tornar um dos mais importantes polos produtores de horfruti do país – a região é conhecida como a “capital nacional da cenoura”, com 25% da produção nacional – os desbravadores – vindos principalmente dos Estados de São Paulo e do Paraná, passaram por grandes dificuldades com a falta de conhecimento técnico.
Dois programas implantados na década de 70 foram fundamentais para impulsionar a ida destes agricultores para a região: o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), em 1974, e o Programa de Assentamento Dirigido ao Alto Paranaíba (Padap), em 1973, que contaram com apoio da extinta Cooperativa Agrícola de Cotia e do Estado de Minas Gerais.
A grande dificuldade era o próprio cerrado, uma novidade até então desconhecida. O solo assustava, mas a topografia animava. Graças a persistência, dedicação e força de trabalho dos pioneiros japoneses, aliada à alta tecnologia, o cerrado tornou-se produtivo.

Selo – Com o fim da CAC, os antigos cooperados viram a necessidade de se unirem para dar continuidade as suas atividades e assim, em 1994, surgiu a Coopadap. A nova cooperativa conseguiu alugar as instalações da CAC, que estava em processo de liquidação, e deu continuidade às atividades.
Fábio Endo, que foi para São Gotardo em 2006 para ajudar o pai, Ossami – falecido em 2011 – um dos segredos para o sucesso de São Gotardo, além de muito trabalho, foi a união entre os agricultores. “Os lotes não tem cercas. O que dava certo em um lugar logo era compartilhado com o vizinho”, explica , acrescentando que hoje um dos principais desafios da Coopadap é “continuar crescendo”.

Desafio – “Hoje não temos mais para onde crescer. Estamos limitados geograficamente e a tendência é que as famílias continuem crescendo. Então, nosso grande desafio é mantermos um negócio sustentável, melhorar a eficiência e criar condições para que as pesosas possam se expandir”, diz ele, lembrando que a Coopadap reúne 119 associados em 33 famílias.
Para dar mais visibilidade e proteger a qualidade dos produtos de São Gotardo, em 2014 foi lançada a marca Região São Gotardo, gerida por um Conselho Regulador presidido por Jorge Kiryu. Com apoio do Sebrae de Minas, a ideia de criar o selo da Região de São Gotardo é atestar a origem e o padrão de qualidade dos produtos da região, que abrange, além de São Gotardo, os municípios de Campos Alto, Ibiá e Rio Paranaíba que juntos formam uma área produtiva de 50 mil hectares.

O grupo conhece um dos piscinões da Shimada Agronegócios (Aldo Shiguti)
O grupo conhece um dos piscinões da Shimada Agronegócios (Aldo Shiguti)

Shimada e Leópolis – A segunda parada foi na Shimada Agronegócios, de propriedade da família Shimada e comandada pela matriarca, Fussae desde a morte do marido, Paulo. O Conselho de Família é formado pelos filhos Hugo, Lucy, Gildo e Nice. Segundo Hugo, todas as decisões obrigatoriamente passam pela mãe. Os principais produtos cultivados pela Shimada Agronegócios – que conta com cerca de 630 colaboradores – são o alho (com 200 hectares), a cenoura (com 500 hectares), beterraba, repolho, abacate, café e cebola.
Hoje, uma das grandes dores de cabeça não só do grupo Shimada como também de outros produtores é a concorrência com o alho chinês.
A última parada foi na Leópolis, que recebeu esse nome em homenagem à cidade de origem da primeira geração de seu fundador, Seiji Sekita – atualmente prefeito de São Gotardo. Hoje o grupo – a primeira socidade anônima de São Gotardo – conta com cerca de 60 sócios, entre produtores e investidores. Em uma área de 4.617 hectares, se produz cenoura, alho, milho, soja, trigo, café, laranja, nos municípios de São Gotardo, Rio Paranaíba, Campos Altos e Serra do Salitre.

Participantes da comitiva conhecem instalações do Grupo Leópolis (Aldo Shiguti)
Participantes da comitiva conhecem instalações do Grupo Leópolis (Aldo Shiguti)

O poder da família Sekita em São Gotardo vai além das terras. O filho de Seiji, Eduardo Sekita, além de atual presidente do Grupo Leópolis, preside também a Coopacer (Cooperativa de Agronegócios do Cerrado Brasileiro). Uma das preocupações do grupo refere-se à filosofia , “4S”, ou seja, garantir produtos “saborosos”, “saudáveis”, “sustentáveis” e “seguros” aos consumidores.

Futuro – Irmão de Seiji, Tamio Sekita, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de São Gotardo e radicado na região há 46 anos, conta que “há 10, 15 anos, uma de nossas grandes preocupações era com o futuro”. “Mas acho que tudo foi se encaixando e muitos que saíram acabaram voltando. Hoje, em algumas famílias, o comando em muitas propriedades já está na terceira geração”, diz Tamio, acrescentando que “o grande gargalo é deixarmos algo para as próximas gerações”.
“Não adianta nada lutarmos e nos tornarmos vitoriosos se não deixarmos um legado para nossos filhos e amigos”, disse ele, afirmando que “nós temos, sim, responsabilidades nesta questão alimentar no mundo inteiro”.
Outra particularidade de São Gotardo foi a vitória do atual prefeito, Seiji Sekita. Até aí, nenhuma novidade. O fato é que Seiji Sekita pertence ao PT. “Mas o PT do bem, voltado para a educação e investimentos nas áreas de saúde e educação”, apressa-se em dizer.
Quando saiu de Leópolis (PR), em 1978, para plantar café e soja em São Gotardo, o irmão Tamio já estava há dois anos na região. “Entrei para a vida pública em 1982 e fui eleito prefeito pela primeira vez em 1988”, conta Seiji, acrescentando que a população hoje de São Gotardo é de cerca de 35 mil habitantes, sendo que a comunidade nikkei é relativamente pequena, com pouco mais de 100 famílias, apesar do sucesso conquistado na agricultura.

Fantástica – Para os participantes do Bunkyo Rural, a viagem valeu “muito” a pena. Edson Yamamoto, contador, advogado, com atuação na área urbana em São Paulo e com atividade rural no Estado da Bahia, onde mantém plantação de tomate, pimentão e maracujá, além de pecuária, “a viagem foi fantástica”.
“Na época, quando os primeiros japoneses chegaram, aqui não tinha nada e hoje a gente vê esse cinturão verde, essa exuberância que deixa a gente bem animado. Do mesmo modo que São Gotardo virou um polo, eu volto realmente muito animado em visualizar isso na Bahia, pois o pessoal de lá também tem se mostrado muito perseverante, lutador e disposto. É um ânimo a mais que a gente vai levar para mostrar o que aconteceu em São Gotardo e que pode ser replicado também na Bahia”, disse Edson, que destacou a união como um dos pontos fortes para o sucesso em São Gotardo.
“Os primeiros que chegaram tinham uma dificuldade muito grande em relação a recursos e precisavam muito um dos outros. Isso acabou gerando uma necessidade de convivência muito próxima. E criou um elo de confiança. Isso fez com que todos revelassem seus segredos, o que descobriam em relação à tecnologia ou qualquer novidade que acontecia em técnica de plantio ou técnica de colheita. Essa confiabilidade, rapidez de troca de informações e evidentemente, de feedback, foram os pilares que motivaram esse crescimento e fez com que eles chegassem onde chegaram”, explicou observando que outro fator positivo foi constatar, na prática, como ocorre a sucessão familiar.
“Os pioneiros que aqui chegaram desbravaram, criaram riquezas e a responsabilidade dos jovens ou daqueles que vão dar sequência a esse é trabalho é fazer com que essa riqueza não só aumente como também manter a harmonia de todos eles, que era o sonho dos desbravadores, de manter a família toda unida. E nesse sentido deu pra ver que eles levam essa uqestão da sucessão familiar muto a sério. Tanto que a gente viu crianças de 3 a 4 anos assistindo a palestras. Foi uma bênção ver tudo isso, concluiu Edson.

Tomio Katsuragawa, presidente do Bunkyo Rural (Aldo Shiguti)
Tomio Katsuragawa, presidente do Bunkyo Rural (Aldo Shiguti)

Inspirar juntos – O presidente do Bunkyo Rural, Tomio Katsuragawa, enfatizou o sucesso da viagem e afirmou que a ideia é dar continuidade a essas visitas técnicas, além da realização do Bunkyo Rural, que este ano chega a sua 10ª edição em Adamantina .
Já o presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa aproveitou para estreitar os laços não só com a associação local como também com os próprio produtores rurais, convidando-os para visitarem o recém reformado Museu Histórico da Iigração Japonesa no Brasil.
“Assim como a diretoria da Coopadap, que é formada por jovens, nossa intenção também é aproximarmos mais com os jovens e, ao mesmo tempo, com as próprias associações fora de São Paulo, pois o Bunkyo encontra-se, de certa forma, isolada de outras associações”, disse Ishikawa, que, inspirado no discurso do primeiro-ministro Shinzo Abe, convidou a todos a “progredir juntos, liderar juntos e inspirar juntos”.

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