Em Adamantina, secretário afirma que ‘o setor do agronegócio é o farol do que o Brasil quer ser’

(Aldo Shiguti)

A presença do secretário de Estado da Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Gustavo Junqueira, no 10º Bunkyo Rural, realizado nos dias 27 e 28, no Clube de Campo da Camda (Cooperativa Agrícola Mista de Adamantina), deu ânimo novo para os participantes. Como lembrou o prefeito Márcio Cardim “há tempos não recebíamos um representante oficial do governo estadual”. Ainda no hotel onde ficou hospedado, o Ipê Palace – cujo um dos sócios é o presidente da Camda, Osvaldo Matsuda – Junqueira atendeu os jornalistas da imprensa nipônica que cobriram o evento.

Gustavo Junqueira (Aldo Shiguti)

O secretário começou falando sobre a região, uma área onde, segundo, ele, houve um desenvolvimento “muito em fruto do café e depois da pecuária”. “No entanto, na década de 70, com a geada e problemas climáticos, os investimentos no café cessaram e se buscaram alternativas, que acabaram sendo as usinas de cana-de-açúcar e alguma coisa de pecuária. E ficou algum tempo com dificuldades para encontrar o seu caminho”, disse. “Hoje acredito que esta área tem um grande potencial de crescimento, a Camda, por exemplo, tem feito um bom papel porque o cooperativismo é sempre algo importante para o desenvolvimento pois você consegue criar um sistema para atender um grande número de pessoas”, explicou Junqueira, acrescentando que, com seguidas crises econômicas e de gestão, “as pessoas viram como renda a oportunidade de alugar a sua terra e ir para a cidade”. “Quando tem a crise financeira essa renda vai embora e isso prejudica porque as pessoas tem um estilo de vida urbano e aquilo entra como uma renda sem preocupação. Ficar sem aquela renda é como se perdessem o emprego”, compara.
Para o secretário, no entanto, é uma dificuldade, porque “a pessoa não tem capital para voltar e a terra, na verdade, só é um capital se você vender”. “E você não está no negócio. Então para você voltar, uma vez que você saiu dele, é muito difícil. Por exemplo, se você tem um restaurante, você tem o prédio, mas você não tem a marca porque você está alugando para uma outra coisa. Se você tiver que voltar, você não tem capital de giro, não conhece os fornecedores, não sabe como atender o cliente, não tem o funcionário, mas tem o prédio. É óbvio que o prédio tem um valor, a não ser que você venda mas fora isso você não tem mais um negócio”, explicou o secretário, para quem com os pequenos produtores aconteceu a mesma coisa.

Imigração japonesa – “A cooperativa ajuda muito nesse novo modelo e acredito na questão da integração, onde você vai trocar trabalho e conhecimento por capital e um sistema de produção e distribuição que as cooperativas podem prover. Muito parecido com o processo da imigração japonesa. Existia aqui uma necessidade de uma mão de obra, mas uma mão de obra não sem conhecimento técnico. Quando vem os imigrantes japoneses para o Estado de São Paulo, eles trazem muito mais que a mão de obra, eles trazem um sistema produtivo, eles trazem conhecimento técnico, trazem um histórico cultural que faz uma transformação surpreendente na sociedade paulista, que dá o salto que deu. Óbvio que não é somente a cultura japonesa porque no mesmo período vieram outros imigrantes de outras nacionalidades, mas o conceito de abraçar o diferente dos japoneses é o que levou São Paulo a ser muito diferenciado do resto do Brasil”, explicou o secretário.

Problemas – Para ele, é verdade, um início muito duro para os imigrantes que tiveram que se adaptar à uma nova cultura. “Mas para os filhos destes imigrantes foi muito melhor, porque você vira brasileiro, se torna parte daquela sociedade com o poder de influência, porque você se isolar numa comunidade fechada fica preso à sua origem sem poder de influência na origem e nem na nova. Então você fica num limbo. E São Paulo abraçou a imigração. E essa região tem toda essa influência, desde Bastos”, conta Junqueira, que, respondendo a uma pergunta feita pela reportagem do Jornal Nippak disse que “tem problemas no Estado inteiro”.

Público presente na cerimônia de abertura do 10º Bunkyo Rural em Adamantina (Aldo Shiguti)

Mais do mesmo – “É importante sempre ficar claro que o setor de agronegócios é o setor mais privado do Brasil, é onde se tem menos influência do Estado, portanto, é o farol do que o Brasil quer ser. Nós precisamos diminuir o tamanho do Estado, que tem sido nocivo à sociedade porque hoje está grande demais e, portanto, ele quer pensar nele primeiro antes de pensar no seu cliente. Então, nós nos devemos no policiar para fazer a pergunta diferente. Como o Estado pode ajudar? O Estado pode ajudar saindo de muitas coisas onde ele está, portanto, quando digo que o Estado tem problemas, ele tem problemas de todas as naturezas, mas no agro os problemas precisam ser resolvidos, de uma maneira geral, pelo setor privado. Aliás, o próprio Estado tem problemas. Precisamos resolver, por exemplo, toda a maneira como a Secretaria da Agricultura atua. Minha visão é que ela tem que ser mais um cosultor, um orientador, ver para onde as tendências vão para ajudar aqueles que talvez estejam mais distante desta fonte de informação”, justifica o secretário, afirmando que não se trata de “fazer o mais do mesmo”.
“As coisas estão mudando, os hábitos alimentares estão mudando, os modos de trabalho estão mudando, os jovens oriundos da terra estão saindo, os novos jovens urbanos estão olhando para este setor como uma oportunidade de construir a sua vida, mas ela não será construida nos mesmos moldes como a imigração construiu São Paulo nesses 111 anos. Vai ocorrer inovações, vão construir uma nova dinâmica. Vai ficar só quem é competente, quem está no negócio, ou seja, acontecerá mais uma mobilidade social nesse agro cada vez mais conectado, ligando a ponta do consumo à ponta da produção”, explicou Junqueira, destacando que a mensagem da Secretaria da Agricultura aos participantes do Bunkyo Rural é que “através da cooperativa, das grandes empresas e através de uma visão moderna dos prefeitos é que nós construiremos o novo”.
“O prefeito deve ser um articulador. Ele tem que olhar para o setor privado e ir ao governo estadual, ao governo federal e às grandes empresas buscar investimentos, atrair negócios para a cidade . Não pedindo favores, mas sim provendo oportunidades para que as empresas se instalem aqui”, declarou.

Japão – Sobre sua viagem ao Japão como membro da comitiva Missão Japão encabeçada pelo governador João Doria em que também fizeram parte os secretários de Relações Internacionais, Julio Serson e da Fazenda e Planejamento, Henrique Meirelles; o presidente da InvestSP, Wilson Mello; a coordenadora de Imprensa, Letícia Bragaglia; e a coordenadora de Mídia, Carolina Goes, Gustavo Junqueira ressaltou que o país nipônico é um dos maiores investidores no Brasil “de todas as nações amigas que temos”.
“Foi uma missão do Estado de São Paulo, o que já é uma novidade. O governador foi muto bem recebido, apresentou o Estado de uma maneira muito pragmática e falou de agricultura mas não só da agricultura dentro da porteira, o mais importante foi mostrar o ecossistema do agro, a parte de serviços, a parte de indústrias de alimentos, a parte de insumos, ou seja, tudo que compõe esse agronegócio”, explicou o secretário, destacando que, com o Japão, “é preciso tomar muito cuidado com tudo que se leva e com o que se traz”.
“O que nós levamos foi confiança e o que nós trouxemos foi o benefício da dúvida. O Brasil está mudando. Está ocorrendo muitas mudanças e os japoneses, assim como outros povos, vão olhar e escutar o que você falou e dizer: ‘sim, ok, faz sentido o que está sendo colocado. Vamos recolocar na prancheta’”, disse Junqueira, afirmando que tem grandes expectativas “num médio e longo prazo”.

O agronômo e presidente do Prêmio Kiyoshi Yamamoto, Kunio Nagai (E) ensina a preparar o bokashi (Aldo Shiguti)

Voo direto – “O fato de ter uma comunidade de japoneses aqui no Brasil faz com que nossos laços sejam muito próximos, financeiros, culturais e obviamente, sociais. A relação entre os dois países são muito próximas. Na reunião no Keidanren [a CNI japonesa], o governador foi muito contundente e fez uma colocação onde ele exigiu esforços do governo japonês, dos empresários japoneses, do governo brasileiro e dos empresários brasileiros para nós reestabelecermos um voo direto de São Paulo para o Japão. O governador se mostrou bastante indignado, sendo um país com tanta relação comercial, com tanta relação social e cultural não mais termos um voo direto de uma companhia japonesa ou brasileira direto a Tóquio. Ele fez uma comparação em relação ao México, que tem uma relação em todos esses itens muito menor do que a do Brasil e tem um voo direto para o Japão. É um exemplo de como o governador pretende intensificar ainda mais esta relação e torná-la ainda mais duradoura”, garantiu Junqueira, acrescentando ainda que o Japão pode ser um financiador desta nova expansão brasileira.

Parceiro – “O Japão conhece muito bem o Brasil e é muito próximo dos Estados Unidos. O Japão tem capital e está próximo da China. Quer dizer, não vejo um pais com mais oportunidades neste novo desenho geopolitico que o Japão”, disse o Junqueira, afirmando que o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe tem se mostrado hábil ao se aproximar da China. “Hoje, as relações entre os dois países são muito melhores do que já foram, e, portanto, nesta guerra comercial, o Japão pode ser um facilitador”, disse, explicando, no entanto, que para que o Brasil tenha êxito “falta mais visitas do Bolsonaro ao Japão, faltam projetos, precisa fazer privatizações e precisa fazer reformas”.
“Todos os investidores estão escutando o Brasil falar muito. Mas e aí? Precisa fazer reformas do mesmo jeito que o cidadão brasileiro votou nas reformas. O Brasil é o único país do mundo onde as pessoas saíram às ruas a favor da reforma da previdêcia. Todos os demais países, sem exceção, saíram as ruas contra as reformas. E isso precisa ser percebido e de fato executado. Os investidores estrangeiros só estão mais longe, mas são parecidos com os investidores brasileiros. As reformas são primordiais. E o agro será um grande beneficiário de tudo isso”, finalizou o secretário.

Cerimônia de abertura do Bunkyo Rural com ex-ministro da Agricultura e com o secretário estadual (Aldo Shiguti)
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