‘É uma honra servir a comunidade nikkei’, diz Kim em visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

Um clima de tensão e ansiedade tomou conta dos corredores do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), no bairro da Liberdade, no último dia 17. Tudo por conta da visita do deputado federal eleito por São Paulo e, por sinal, único representante nikkei no Estado, Kim Kataguiri (DEM-SP), ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil (MHIJB). A expectativa tinha explicação. Na primeira oportunidade, Kim não compareceu alegando problemas de saúde. Mas passado cerca de 15 minutos do horário marcado – às 11h30 – Kim finalmente apareceu ao lado de seu amigo e futuro chefe de Gabinete, Rafael Minatogawa que, aliás, conforme matéria publicada em outubro pelo Jornal Nippak, é descendente de okinawanos.

Harumi Goya acompanhou a visita - Aldo Shiguti
Harumi Goya acompanhou a visita – Aldo Shiguti

Recepcionados na Sala da Presidência pela presidente, Harumi Goya, e pelos vice-presidentes Osamu Matsuo e Carlos Kendi Fukuhara, além do secretário Eduardo Gooo Nakashima, Kim e Rafael trocaram cartões e viram a galeria dos ex-presidentes – que em breve deverá ganhar mais uma placa.

Vice-presidente da Comissão de Administração do Museu, Lídia conta a saga dos pioneiros - Aldo Shiguti
Vice-presidente da Comissão de Administração do Museu, Lídia conta a saga dos pioneiros – Aldo Shiguti

De lá, seguiram para o 8º andar – o sétimo encontra-se em reforma –, de onde iniciaram a visita ao MHIJB ciceroneado pela vice-presidente da Comissão de Administração do Museu, Lídia Yamashita. Um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), Kim Kataguiri disse à reportagem do Jornal Nippak que, “apesar de saber que ele existia”, foi sua primeira incursão ao museu. “Ouvia falar remotamente mas não sabia nem onde era”, admitiu, acrescentando que “tinha curiosidade” de conhecer o espaço.

Kim observa atento objetos e utensilios do acervo do museu - Aldo Shiguti
Kim observa atento objetos e utensilios do acervo do museu – Aldo Shiguti

Quarto deputado federal mais votado em São Paulo com 465.310 votos, Kim Kataguiri gostou da visita em que ficou sabendo um pouco mais sobre seus ancestrais – a vó, Ayako, era da província de Nagano. “Foi uma experiência enriquecedora e bastante completa de todo o processo histórico pelo qual os japoneses passaram, tanto os bons como os maus momentos, desde as dificuldades de adaptação e o fato de terem vindo para substituir a mão de obra escrava até o desen volvimento desta comunidade, que hoje ocupa um papel de destaque”, disse Kim, mostrando conhecimento da história. Parte do que sabe, revela, foi contada por seu pai, Paulo Atuhiro,e por seu tio. A que mais ouvia era sobre Katagiri Katsumoto, um guerreiro que viveu entre 1556 e 1615) e foi famoso por ser sete lanças na batalha de Shizugatake.

Kim assina o livro de presença do Museu Histórico da Imigração - Aldo Shiguti
Kim assina o livro de presença do Museu Histórico da Imigração – Aldo Shiguti

Katsumoto – “Contavam, incluisive que tem uma peça no teatro Kabuki sobre ele, que é a figura mais conhecida historicamente da família e um dos sete samurais responsáveis pelo castelo Hideyoshi Toyotomi. Morrendo este senhor do castelo, Katagiri Katsumoto foi o único que tentou negociar com os outras senhores ao redor para tentar encontrar uma solução pacífica. Mas a mulher do senhor acreditava que ele era um traidor, que estava negociando a derrocada do castelo pelas costas e acabou expulsando-o. E aí um mês depois o castelo foi invadido e a mulher e seu filho foram mortos. Quando o Katagiri Katsumoto ficou sabendo ele se suicidou, mostrando que ainda era leal à família”, contou, explicando ainda que ouvia também histórias de quando sua bachan veio para o Brasil. “Praticamente todos trabalharam na roça, um ajudando o outro. Mas ouvia também histórias que só um irmão na família podia estudar e todos os outros tinham que trabalhar para que ele estudasse”, diz, lembrando ainda que em 1946 por pouco a vinda dos japoneses não aconteceria. “Foi por um voto, justamente o do presidente da Assembleia”, observou Kim, que citou ainda o “retrocesso” que a comunidade sofreu na Segunda Guerra Mundial.

Mensagem escrita por Kim Kataguiri após sua visita ao MHIJB - Aldo Shiguti
Mensagem escrita por Kim Kataguiri após sua visita ao MHIJB – Aldo Shiguti

Posse – Para o parlamentar, que viajou em definitivo para Brasília nesta terça-feira (22), a posse no dia 1º de fevereiro faz parte de um processo “formal”. “O processo legislativo em si começou no ano passado, até porque se você espera para aparecer em Brasília somente na posse vão te jogar na comissão dos assuntos sobre a faxina do porão do Congresso”, brinca, para depois admitir que “a expectativa é grande”. “Até porque tem a eleição da Mesa Diretora e eu sou candidato”.

Kim Kataguiri com a Diretoria do Bunkyo - Aldo Shiguti
Kim Kataguiri com a Diretoria do Bunkyo – Aldo Shiguti

Presidência da Câmara – Sobre isso, aliás, ele afirmou que sua ação no Supremo Tribunal Federal (STF) garantindo a ele o direito de concorrer ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados, deve ser julgada antes da posse, “mas ainda não se sabe qual o ministro que vai julgar porque, como está no recesso judiciário, vai depender de quem estiver no plantão”.
Nesta quarta-feira (23), porém, Kim anunciou que não será mais candidato à Presidência da Câmara e que apoiará a candidatura de Marcel van Hattem (Novo-RS).
Segundo ele, disputar um dos cargos mais importantes do país – o presidente da Câmara dos Deputados é o segundo na linha sucessória presidencial – aos 22 anos de idade – a idade mínima exigida para ser presidente da República é de 35 anos – trouxe reações positivas e negativas por parte de seus colegas.
“Tem gente que recebeu bem, tem gente que recebeu mal. Entre os novos a recepção é melhor. Entre os antigos existe ainda aquela ideia que na Câmara tem uma espécie de fila de número de mandatos, do tempo que você está lá, de quantas comissões você participou, dos passos que você tem que dar – passando primeiro por determinadas comissões indo depois para as mais importantes como a CCJ, de Finanças e Tributação, conquistar um espaço na Mesa Diretora para depois disputar a Presidência. Mas acho que essa lógica tem uma boa possibilidade de não prosperar porque o processo eleitoral mudou. Mesmo aqueles que se reelegeram entenderam isso porque perderam significativamente número de votos”, disse Kim, afirmando que, “tudo assume uma responsabilidade gigantesca dentro do mandato”.

Kim mostrou interesse pela história dos imigrantes - Aldo Shiguti
Kim mostrou interesse pela história dos imigrantes – Aldo Shiguti

Esperança – “Mas quando você é jovem e é eleito com 460 mil votos você carrega uma fardo muito grande porque, pelo que eu vejo, as pessoas que votaram em mim, caso eu decepcione, não ficarão decepcionadas comigo, elas ficarão decepcionadas com a política. De certa maneira, tanto eu como outros candidatos que vieram e se elegeram agora, são uma esperança, um respiro de você mudar a maneira de como as coisas são feitas. E se a gente decepcionar, essas pessoas vão voltar a desacreditar na política, que é o pior cenário poissível porque a alternativa à política é a barbárie”.
“Vamos voltar para os tempos de antes da política, em que você resolvia quem teria o poder, quem seria o próximo Cesar na base da facada, do envenenamento, esses tiopos de coisas. Então, sempre nos momentos que a gente teve falta de crença na política e na democracia, a gente teve momentos sombrios. Aliás, os momentos mais sombrios que a comunidade japonesa viveu no Brasil foi o momento de descrença na democracia e que levou a ascenção do fascimo na Itália”, destaca Kim, afirmando que “faz sentido você ter uma nova representatividade de uma nova liderança na Cãmara no momento em que você tem principalmente a candidatura de lideranças antigas e do baixo clero, que estão acostumados a debater só problemas regionais, como emendas e audiência com ministros, e pouco debate de país”.
“Efetivamente, por mais que eu seja eleito por São Paulo, tudo que eu fizer terá consequência no país inteiro e eu tenho que levar isso em consideração . E acho que a Câmara também tem que passar a levar isso em consideração para deixar de ser uma briga regional por orçamento”, disse, antecipando que sua primeira medida como parlamentar será “aprovar a reforma previdenciária, que ele considera o grande problema do país atualmente.

Visita terminou no nono andar do Edifício do Bunkyo - Aldo Shiguti
Visita terminou no nono andar do Edifício do Bunkyo – Aldo Shiguti

Comida chinesa – Mas para ele o texto que deve ser apropvado terá emenda aglutinativa que provavelmente será proposta pelo Executivo com capitalização para as novas gerações. “Eu já perdi esse sistema, estou no sistema de pirâmide porque vai ser para quem nasceu a partir de 2000. Vou continuar no INSS”, brincou Kim, que desde que foi eleito passou a conviver com mais frequência com a comunidade nikkei.
“É uma ideia que me agrada bastente. É uma honra muito grande servir a comunidade. Fico triste que tenha sido eleito apenas dois representantes nikkeis, mas encaro com bastante seriedade essa responsabilidade e o fato de ser o único representante nikkei de São Paulo. Voi levar isso em frente como a comunidade deseja”, garantiu Kim, que após conhecer um pouco mais sobre cultura japonesa encerrou sua visita saboreando a autêntica gastronomia chinesa do Restaurante Taizan.

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